*Por Alexandre Schnabl e Andrey Costa

Verão 90” estreou na televisão e é sucesso. ÁS estava lá, viu a internet surgir, a fita-cassete, o EP e o LP serem exterminados pelo CD, as drag queens virarem establishment, os DJs mainstream e a moda mudar completamente seu rumo… Ah! Como tudo mudou! Ainda inebriada pelos resquícios do exagero oitentista, em pouco tempo a década assistiria assombrada o advento do telefone celular, a consolidação da globalização e o estrelato de John Galliano para, pouco depois, se tornar testemunha ocular do reinado das Spice Girls, no meio, e de Gisele no finalzinho. O minimalismo ganharia espaço em contraponto à megalomania da década antecessora, Erika Palomino misturaria no mesmo balaio moda e bafão, os padrões de beleza seriam questionados por uma modelo inglesinha-problema e seu namorado Johnny Deep seria alçado ao posto enfant terrible nas telas. Tudo isso, logo após o mundo sacolejar ao som dos ritmos latinos, de Ricky Martin a Loelwa Braz. Portanto, nada mais justo esse Top Ten 1990 desses dez anos que antecederam o milênio. Confira!

1) Madonna catapulta Dolce & Gabbana

Madonna tem a fama de alçar ao estrelato compositores, produtores, etc, mas foi no mundinho fashion que a rainha pop construiu seu poderoso estrelado. Na virada dos 1990, ela já vinha de uma parceria bacanuda com Jean Paul Gaultier que rendera os figurinos das turnê Blondie Ambition e o corselet nude (nesses tempos nude ainda não se chamava nude) com peitos de funil que logo viraria sua marca. Nessa época, dois estilistas italianos tentavam engatar seu nome no mercado até que a louraça, justificando seu amor pela moda, envergou no seu misterioso, slutty e sensual vídeo do hitJustify My Love‘ lookinhos D&G. Afinal, no final do clipe a bombshell manda na lata: “Pobre é o homem cujos prazeres dependem da aprovação dos outros”. Ela mesma seguia essa máxima à risca, usando o que bem entendesse, fosse famoso ou não. Como tudo do seu universo acabava virando trendy, deu  no que deu: na alquimia mágica do showbizz, Dolce & Gabbana logo se transmutaria numa das maiores marcas globais de luxo.

Capa do lead single ‘Justify My Love’ retirado da primeira compilação de Maddie, o álbum ‘The Immaculate Collection’ (Foto: Google Images)

Hoje em dia, é comum vermos artistas pop metidos a ícones fashion. Mas, voltando quase três dezenas de anos atrás, era Madonna uma das maiores influenciadoras numa época anterior a influencers. Digital mesmo era o seu polegar de ouro que transformava em desejo tudo o que a moça tocava. Não havia pudor, e a musinha adorava (ainda ama!) o burburinho causado pelas roupitchas. A amizade com Domenico e Stefanno é mantida até hoje e, vai e vem, rola campanha para a marca com a estrela do pop.

Animal print de uma parceria animal: Madonna solta a jaguatirica ao lado de Domenico Dolce e Stefano Gabbana (Foto: Google Images)

Confira abaixo o clipe de Madonna “Justify My Love” (Divulgação):

2) O designer inglês Neville Brody reedita/renova o construtivismo gráfico russo e, na esteira da queda do Muro de Berlim, define a estética visual das publicações fashion moderninhas

No início dos noventa, Brody foi o papa dos projetos editoriais gráficos de revistas de moda com a pecha de inglesas, tipo The Face e i-D. Quem queria causar no estilo, andava com pelo menos um exemplar dessas brochurinhas popzinhas debaixo dos braços, repletas de novas fontes de letras, de brincadeiras estilísticas que só fazem sentido para que frequentou as salas de aula de cursos de programação visual, como “condensação” e “extensão” de fonte ou nomes pomposos para famílias de letras batizadas com alcunhas como Copperplate Gothic Bold

No contraponto, as edições Sportswear Los Angeles e alemã assumiriam o visual turbinado da MTV, tendo como ícone a beleza curvilínea de Cindy Crawford e de qualquer outra viesse na sua rebarba, como as tops Frankie Ryder e Helena Christensen

O grafismo limpo de Neville Brody definiu a modernidade cool dos anos 1990 (Foto: Divulgação)

Revistas The Face e i-D. Nas capas, as duas modelos ícones do estilo heroin chic,que enaltecia o visual drogadinho. Kate Moss (esq.) e Kristen McMenamy (dir.). Quando a recém-instaurada onda politicamente correta começou a pegar pesado com esse modismo, Kate, mesmo famosa pelas derrapadas na vida, continuou, mas Kristen foi engolida pelo furacão das tops com cara de saúde: a brasileira Gisele Bündchen, a russa Carmen Kass e a espanhola Esther Cañadas (Foto: Google Images)


3) A lambada conquista o mundo: com o sucesso global do Kaoma, Beto Barbosa e Sara Jane incendeiam o Brasil e Sidney Magal ressurge:
Num intercâmbio cultural, os ritmos caribenhos foram descendo, chegando ao extremo norte do país e viraram febre. O mais famoso de todos, a lambada! A música mal começava a tocar e todos já se ouriçavam, as meninas com suas saias godê curtinhas, de cores fortes rodopiavam com meninos com elasticidade na cintura. Dava o tom de um dos maiores fenômenos dos early nineties, encabeçado pelo grupo Kaoma, embalado pela voz da saudosa Loalwa Braz. Sucesso tamanho que foi parar no cinema, no filme “Lambada! A Dança Proibida” (The Forbidden Dance Is Lambada), longa esse que é daqueles classiquinhos que a gente não confessa ter assistido, mas ama rever quando algum Corujão da vida bota na programação.

Kaoma explodiu do Brasil à Escandinávia e virou sucesso global no verão 90 (Foto: Google Images)

Confira abaixo o clipe de Kaoma – “Chorando Se Foi” (Divulgação):

Outro que estourou nos 1970 e se reinventou nos 1990, foi ele, Sidney Magal, que junto com uma trupe que incluía Beto BarbosaSara Jane, era a escuderia do ritmo que embalou o confisco da poupança e o Plano Collor. Figurinha garantida nos programas de auditório, graças às suas canções envolventes plenas de saracotico, Magal, com sua canção “Me Chama Que Eu Vou“, voltou às paradas, perdeu a aura brega e virou cult, ao lado de Beto Barbosa com “Adocica” e Sara Jane com “Vamos Abrir a Roda“.

Sidney Magal (Foto: Google Images / Reprodução)

Confira abaixo o clipe de Sidney Magal – “Me Chama Que Eu Vou”, hit instantâneo quando virou música de abertura da novela “Rainha da Sucata” (Divulgação):  

Lambada! El baile prohibido! Ayayay (Foto: Google Images)

4) Naomi, Linda, Cindy, Claudia, Christy: Surgem as supermodelos!

Quem viveu simplesmente sabe. Conhece esses nomes de deusa: Linda Evangelista, Naomi Campbell, Claudia Schiffer, Cindy Crawford, Christy Turlington, Stephanie Seymour, Carla Bruno, Nadja Auerman, Tatjana Patitz, Paulina Poriskova, Helena Christensen, Kate Moss, Eva Herzigova.  Com Linda, Naomi, Claudia e Cindy na linha e frente, as supermodelos dominaram a cena e, a partir das capas de revista – e do clipe de George Michael Freedom ’90“, que as transformou em celebs – deixaram de ser conhecidas  somente no mundinho da moda para caírem nas bocas de Matilde. Viraram o suprassumo do espetáculo, sintetizaram com o showbizz, sobrepujando as estrelas de cinema numa época em que Hollywood ainda privilegiava gente como a gente, tipo Meryl Streep.

Supermodelos nos anos 1990: beldades dominam a cena, das passarelas ao mundo das celebridades (Foto: Google Images)

Confira abaixo o clipe de George Michael – “Freedom ’90” (Divulgação):

https://www.youtube.com/watch?v=diYAc7gB-0A

Em meados dos anos 1990, o cinema rapidamente reagiu: recrutou uma penca de ex-modelos que queriam ser atrizes, as verteu em estrelas, resgatou o glam nas telas: Uma ThurmanCameron DiazNicole KidmanCatherine Zeta-JonesGwyneth PaltrowCate BlanchettScarlett JohanssonCharlize Theron. Elas começaram a roubar as capas de revista, por as cover girls para escanteio, A guerra ficou feia entre Paris e Hollywood. Aí, veio o golpe de mestre: a moda inventou Gisele.

Carade bebê: ainda modelo, uma anônima Uma Thurman posa para a Vogue, antes do sucesso, que veio a reboque na virada dos 1990 com “Ligações Perigosas” (Foto: Reprodução)  

Já atriz famosa, Uma Thurman estampa a capa da Vogue em 1994 (Foto: Reprodução)

5) Carla Barros, Geórgia Wortmann e Silvia Pfeiffer são as supermodelos cariocas que dão o que falar:
A partir do Rio de Janeiro, essas três super modelos formaram a santíssima trindade das passarelas no Brasil. Pós-Monique. Pós Luiza. Se São Paulo tinha nomes como Virginia Punko em projeção local – quando os lançamentos estavam longe de serem uniformizados -, primeiro Silvia Pfeiffer e, em seguida, Carla e Georgia sintetizaram a era de ouro do prêt-a-porter carioca, de Gregório Faganello, George Henri, Arranha Gato, Maria Bonita, Marco Rica, e Frankie Amaury.

Da esquerda para a direita, Georgia Wortmann e Silvia Pfeiffer (centro) (Fotos: Eduardo Alonso / Reprodução)

Silvia ficou famosa antes. Em torno de 1987, já era conhecida do grande público e, top carioca mais badalada pela grande mídia, nessa viradinha dos 1990 começava a sumir aos poucos do métier, fazer a transição para a televisão na minissérie “Boca do Lixo“, ao lado de Alexandre Frota e Reginaldo Faria. As outras duas pontificaram a primeira metade da nova década como a morena e a loura que representaram a essência das campanhas de moda.

No pódio: Carla Barros é a morena da moda carioca nos primórdios dos anos 1990  (Fotos: Eduardo Alonso / Reprodução)

6) Rainha da Sucata: ultimate fight entre a  cavaquinha e a lagosta no jantar das finas

Na TV, a audiência explode: é a primeira novela de Silvio de Abreu para o horário das 21h (que, então, ainda rolava às 20h), quando a televisão a cabo mal começava a engatinhar no Brasil. As emissoras abertas ditavam a moda. Não havia competição com o on-line; aliás, sequer havia a internet. Na narrativa, o duelo entre a sociedade emergente, montada no novo dinheiro mufufa a brotar com o pau, mas sem savoir vivre, e a tradicional sociedade quatrocentona paulista, plena de charme, mas comendo sardinha e arrotando robalo.

Nos respectivos papeis, a milionária cafona da Zona Leste Maria do Carmo Pereira (Regina Duarte), que se fez no meio dos ferros-velhos, e a maquiavélica Laurinha Albuquerque Figueiroa (Gloria Menezes), obrigada a engoli-la quando seu enteado Edu (Tony Ramos) – por quem é apaixonada -se casa com a primeira num matrimônio de conveniência.

Novela Rainha da Sucata (Foto: Google Images)

Na vida real, a mídia se encarregaria pouco depois de criar a versão “real e carioca” do embate entre Maria do Carmo e Laurinha, quando contrapôs a milionária emergente do ramo de padarias Vera Loyola à icônica Carmen Mayrink Veiga.

7) Membros em riste: aditivado por Versace e pelo underwear masculino da Calvin Klein, o nu masculino se fetichiza na publicidade

Versace! Versace! Versace! Engana-se quem achava que somente o corpo feminino tinha direito a ter sua sensualidade. Fora do círculo gay – da cena clubber e de publicações eróticas como Honcho – , o macho man logo vira bibelô. Na publicidade, na moda, na vida. No universo de Gianni, os rapazes anabolizados com torsos depilados na base do Veet eram mais que meros Apolos e Mercúrios seminus: ao lado de poderosas amazonas, eram o segredo para vender mais! Deuses musculosos prontos a estimular o consumo, igualzinhos ao que Rose Di Primo já fizera pela mulher nos anos 1970, Monique e Luma nos 1980. O male appeal passa a dominar a publicidade.

Versace (Foto: Google Images)

Efeito semelhante acontecia no mundo das cuecas. No underwear da Calvin Klein, por sinal, que acabou ditando regra. Se Kate Moss foi a responsável pela mudança do padrão de beleza das passarelas dos anos 1990, ao estrelar campanhas para a marca ao lado de um dos astros do rap da época, contribuiu para lançar o rapper Marky Mark (hoje o Mark Wahlberg do cinema, leia mais aqui), da banda sensaçãozinha Marky Mark and the Funky Bunch. Kate já estava se tornando tudo de bom na moda mundial, mas foi Mark quem engoliu a moça com sua bad face e seu tanquinho.

Kate Moss e Marky Mark são corpos em evidência na icônica campanha de underwear da Calvin Klein em 1992 (Foto: Google Images)

8) Batalha das morenas: Demi Moore em “Ghost: Do Outro Lado da Vida” vs. Julia Roberts em ‘Uma Linda Mulher”:
Em 1990, Hollywood é delas! Duas jovens atrizes vão se tornar, num piscar de olhos, as mais disputadas da nova safra do cinema. Quase simultaneamente estouram as novas namoradinhas da América, Julia Roberts e Demi Moore. Ambas chutaram a porta da década com personagens icônicos: a primeira com Vivian, a Cinderela garota de programa que se apaixona pelo cliente, de cabelão e suas maxi-botas, em Pretty Woman“; a segunda com Molly, a novaorquina do Soho chegada aos dons, tanto artísticos quanto sobrenaturais, além do bom gosto para o corte à la garçonne.

Antes de depois: hoje cinquentona do tipo que ama um botoxzinho capilar, Demi Moore foi a síntese da descolada de cabelo curtinho na virada dos 1990, depois de fazer filmes adolescentes nos 1980 e até a filha teen de Michael Caine em longa rodado no Rio, com, direito a cena de macumba na praia (“Blame it in Rio”, 1985)  (Fotos: Google Images / Reprodução)

Após se destacar no woman picture “Flores de Aço” (Steel Magnolias, 1989), Julia Roberts vira protagonista em “Pretty Woman” e ganha o mundo. Desde a bonequinha de luxo Holly Goolightly, uma puta não fazia tanto sucesso nas tela (Foto: Google Images / Reprodução)

 9) O maximalismo eighties é herança nas campanhas “over” da Diesel:
Para o fotógrafo e diretor de arte David La Chapelle, mais é mais e não se fala outra coisa. Adepto daquele tipo de hipérbole visual, cromática e efervescente usada para criticar a sociedade de consumo, o artista vai encontrar na marca de jeanswear Diesel, nascida na Itália (mas pronta para dominar o o mundo, a partir do epicentro Nova York), o veículo ideal para contextualizar suas ideias.

David La Chapelle definiu a estética do imaginário Diesel (Foto: Google Images / Reprodução)

Se Oliviero Toscani foi o homem que pôs a Benetton no mapa nos anos 1980, La Chapelle fez o mesmo pela Diesel nos 1990. Diga-se de passagem, com o kitsch, o camp e o cult. Suas campanhas viraram ao avesso imaginário da turma da moda, que dava  frondosas gargalhadas diante dos anúncios publicados nas páginas da revistas ou em pôsteres que adornavam as lojas da grife, como o daquela mega store em frente ao Bloomingsdale’s, na Big Apple.

Pontos de venda tipo esse rapidamente se tornaram locais de encontro de fashionistas irreverentes dispostos a desembolsar muitas verdinhas em índigo vertido em artigo de luxo. Graças a imagens que traziam de velhinhas sapecas a fim de se dar bem com comissários de bordo bombadões a fashion victms atropeladas por hambúrgueres gigantes… 

David La Chapelle definiu a estética do imaginário Diesel (Foto: Google Images / Reprodução)


10) Will Smith é peixe fora d’água em ‘Um Maluco no Pedaço: 

Bem antes de virar astro de filmes de ação, salvando o mundo no estilo Charlton Heston, Will Smith fazia rir em sitcom, Astro da TV de The Fresh Prince of Bel-Air“, no Brasil “Um maluco no pedaço“, ele já tinha o bigodinho, mas o cabelo era Grace Jones. Ou MC Hammer. Na trama, ele era o garotão de uma família negra enviado pela mãe para morar com os tios ricos na preconceituosa – e rica – Bel Air, na Califórnia, quando o politicamente correto passava ao largo.

Will Smith em “Um maluco no pedaço”: os grafismos da vinheta de abertura são inspiração para a estética da nova novela da Globo, “Verão 90” (Foto: Google Images / Reprodução)

Nesse tempo, o moço nem imaginaria o quanto a vida lhe seria generosa: de magrelo, viraria negão malhado cheio de marra, poria alienígenas para correr em Independence Day (1996), seria alçado ao posto de uma das  maiores bilheterias do cinema, ingressaria no primeiro escalão, ganharia rios de dinheiro. E, mais tarde, ainda se tornaria o pai gente boa do filho Jaden, fruto da Geração Z, que ajudou a estabelecer a fina nova fronteira entre homem e mulher. Ou a ausência dela.   

Will Smith, quem diria, já foi música fora do tom na Hollywood da qual hoje ele é um dos principais astros! No início de carreira, seu personagem “classe média” de “Um maluco no pedaço”, vindo da Filadélfia, contrastava com o ambiente high society de Los Angeles (Foto: Google Images / Reprodução)

Mas o bom e velho Will também pintava e bordava em outro meio nessa época: o da música pop. Nessa virada dos nineties, quando a MTV engatinhava na versão tupiniquim, o ator dava vazão à sua porção rapper fazendo dupla com o DJ Jazzy Jeff!

Confira o clipe do duo DJ Jazzy Jeff & The Fresh Prince – “Sumertime” (Divulgação):

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