Os haters vão odiar o ÁS. Mas, não, Lady Gaga não está nada bem nessa quarta empreitada cinematográfica de “‘Nasce uma estrela” (A Star is Born, Warner Bros., 2018), em cartaz. Desde 1937, a história da aspirante ao estrelato que sobe vertiginosamente na mesma proporção em que a carreira do astro que a catapultou desce rumo à sarjeta vem sendo atualizada para alcançar novos públicos, geralmente num período de 20 em 20 anos. Dessa vez, já fazia 42 anos desde que Barbra Streisand e seu então marido, o produtor Jon Peters, trouxeram a história para as telas, transpondo a narrativa do universo do cinema para o da música pop. Agora, mesma a dupla tirou da gaveta o roteiro e foi fundo no casting convidando a pop star para estrelar essa nova realização, na qual a loura (que vira ruiva após a repaginação) contracena com o denso Bradley Cooper, em sua primeira aventura como diretor.

(Foto: Divulgação)

Está armada a cena: uma superstar do showbizz no papel-título, um astro três vezes indicado ao Oscar em dupla função, um título que todo mundo já ouviu  falar e uma narrativa amarga como fel sobre fama e declínio, que faz um upcycling no argumento que o diretor da primeira versão William Welman concebeu a partir da observação das engrenagens da indústria cultural.

Bradley Cooper e Lady Gaga são os rostos da nova versão que refresca a velha história que retrata nas telas, com tintas crueis, a curva de ascensão e decadência que marca invariavelmente a trajetória de que chega à ribalta no showbizz (Foto: Divulgação)

Reza a lenda que, para contar esse libelo de sucesso e fracasso ambientado no palco, ele teria se inspirado na trajetória de Al Jolson, protagonista do primeiro filme falado, “O cantor de jazz” (1927), que viu a sua carreira descer ladeira abaixo enquanto sua mulher, Ruby Keeler, se tornava a queridinha da telas no auge da Grande Depressão, estrelando os musicais caleidoscópicos de Busby Berkeley. Histórias como essas acontecem a granel, e o divertido é sempre recontá-las para as novas gerações, renovando o invólucro. Gaga, óbvio, é uma senhora embalagem.

De cara lavada: após algumas participações nas telas em papeis repletos de maneirismos, a aposta de Lady Gaga para alavancar sua carreira cinematográfica é repetir 40 anos depois, sem recursos de make-up, o papel que foi vivido por  uma Barbra Streisand no auge. Detalhe: a versão desta não foi bem de crítica na época, ao contrário das duas primeiras. Tudo indica que essa nova produção deve seguir o percurso da outra. Pela presença de Gaga, deve acabar dando bilheteria, se beneficiando da aura que envolve a estrela, pelo mesmo motivo que a de 1976 funcionou (Foto: Divulgação)

Entretanto, ela não segura o longa, a não ser quando abre o gogó. É visível sua preocupação em provar que quem está na telona não é ela, mas o personagem. Sua presença pode ser comparável à de Johnny Depp: sem uma maquiagem ou figurino extravagante, que marque o arquétipo, fica difícil segurar a onda. Assim ela funciona nas produções dirigidas por Robert Rodriguez, como “Machete Mata” (2013) ou “Sin City 2: a Dama Fatal” (2014), ou ainda como a Condessa da temporada “Hotel” de “American Horror Story“, que lhe rendeu o Globo de Ouro de ‘Melhor Atriz em Minissérie ou Filme feito para a TV’. Sua atuação agora deixa a desejar, mas nada que comprometa a produção, que deve levar hordas de little monsters às salas de exibição, enchendo o cofrinho dos produtores.

“American Horror Story”: a participação de Gaga na 5ª temporada da série substituiu com pompa a ausência de Jessica Lange, até então a cereja do bolo da atração. Pela sua performance, a cantora abocanhou o Globo de Ouro (Foto: Divulgação)

Para compensar, quando sua Ally entra no palco, Gaga pode ser ela mesma e a festa está garantida. A plateia, claro, pagou o ingresso para ver esses momentos e sua expectativa será devidamente correspondida. Pouco importa se, fora das sequências que reproduzem espetáculos, a estrela está feia e o nariz é uma napa que grita na cara lavada. Afinal, esse  papel nunca foi interpretado por beldades, mas por criaturas magnéticas com vozes avassaladoras, como ela: Janet Gaynor, Judy Garland, Barbra.

Fredrich March e Jane Gaynor estrelaram em 1937 a narrativa “Nasce uma estrela”, que de tempo em tempo é reciclada, trazendo à tona a reflexão sobre o sucesso e a decadência no estrelato. Na 1ª repaginação da história no novo milênio, são Lady Gaga e Bradley Cooper os responsáveis por renovar a face desse inevitável ciclo (Foto: Reprodução)

A realização mais famosa de “Nasce uma estrela” é de 1954. James Mason e Judy Garland vivem o casal protagonista numa trágica química que se tornou até hoje irresistível para o público, mais de 60 anos depois. Foi um sucesso. Na nova versão, Bradley Cooper consegue imprimir a mesma densidade de Mason, que concorreu ao Oscar pelo papel (Foto: Reprodução)

E que fique anotado: na porção diretor, Bradley Cooper dá conta direitinho do recado, apesar de não resolver algumas barrigas do roteiro. Em parte, para contar a história ele faz uso de eficazes recursos dos makin’ offs que registram as carreiras a de astros da música, tipo aproximações de câmera que procuram imergir na alma do artista. Essa linguagem proveniente dos documentários contribui para a eficiência da narrativa, mas que fique claro: o que mais vale a no filme não é sua incursão pela direção, mas a performance cênica. Bradley engole tudo numa atuação estupenda, na qual varre Gaga para baixo do tapete. Ele sozinho justifica a ida ao cinema.

Confira abaixo o trailer legenado (Divulgação): 

Visceral: o encontro entre Bradley Cooper e Lady Gaga nas telas impressiona. Bem verdade, mais pela presença do ator de “O lado bom da vida” e “Trapaça” que dela. Mas, verdade seja dita, quando a atriz e cantora abre a boca, fica difícil não prestar atenção nela, apesar de as canções serem baba… (Foto: Divulgação)

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