* Por Flávio Di Cola, direto de Cannes

Desde a première mundial de Wonderstruck (2017, Killer Films/Amazon Pictures/Roadside Attractions) nesta noite de quinta-feira (17/5), no Palácio dos Festivais na qualidade de concorrente à Palma de Ouro, a crítica e o público da 70ª edição do Festival de Cannes ainda se debatem para descobrir se o sétimo longa-metragem de Todd Haynes tem algum tema explícito definido ou uma centralidade dramática evidente. Até agora ninguém chegou a nenhuma conclusão racional, pois as reações a essa fantasia baseada no livro com o mesmo nome do badalado escritor e ilustrador de livros infantis Brian Selznick têm sido eminentemente emocionais.

“Wonderstruck”, a fábula de Todd Haynes baseada no romance ilustrado de Brian Selznick e considerada a grande cartada da Amazon Studios no festival, teve uma recepção ambígua em Cannes. Uma parte da crítica achou a fantasia de Haynes rasa e melosa, já outros foram levados às lágrimas pela sua evocação sensível da infância (Foto: Divulgação)

“WONDERSTRUCK”: DO TRAILER GRÁFICO AO CINEMATOGRÁFICO

Quem já conhece os livros-ilustrações de Brian Selznick, o mesmo autor de “A invenção de Hugo Cabret” que deu origem ao celebrado filme de Martin Scorsese de 2011, não vai estranhar o tom melancólico com que ele explora o mundo infantil, povoado simultaneamente  de tormentos e de maravilhas. Confira os dois trailers de “Wonderstruck”: o baseado nos desenhos de Selznick e outro numa sequência do próprio filme:

Para a ala que gosta de sagas infantis em que crianças ou pré-adolescentes inconformados com a vida abandonam destemidamente casa e comida em busca do pai ou de um ídolo do show biz para se descobrirem e se redefinirem, com tudo muito bem azeitado por uma produção caprichada e uma trilha musical poderosamente orquestrada, “Wonderstruck” é o filme. Para o público, digamos…“sofisticado” que consagrou obras elegantes e visualmente impecáveis, inspiradas no rigoroso classicismo de Hollywood dos fiftiesLonge deste paraíso (2002), Mildred Pierce (2011, para a TV) ou Carol – e finamente repaginadas pelo olhar gay-estetizante do diretor, esta produção que é considerada o cartão de visita da Amazon Studios em Cannes decepcionou e muito.

Castigada sob o sol da primavera de Cannes, a equipe de “Wonderstruck” prepara-se para subir a escadaria do Palácio dos Festivais: da esquerda para a direita, o diretor Todd Haynes, o ator infantil Jaden Michael, Michelle Williams, Julianne Moore, a jovem atriz muda Millicent Simmonds e o escritor, ilustrador e roteirista Brian Selznick (Foto: Divulgação)

Por qualquer dos dois ângulos de visão que se tome “Wonderstruck”, é necessário lembrar que seu argumento, roteiro e todo o design já estavam detalhadamente concebidos por Brian Selznick. É claro que sem o apaixonamento de Haynes pelo livro e pela sua capacidade em mobilizar e guiar uma equipe com nomes como Julianne Moore, Michelle Williams, um trio de garotos sensacionais – Oakes Fegley, Millicent Simmonds e Jaden Michael –, a figurinista Sandy Powell, o compositor Carter Burwell e o montador brasileiro Affonso Gonçalves, cuja proeza foi editar duas histórias como se fosse uma só, “Wonderstruck” jamais sairia do papel. Entretanto, a paternidade de Selznick sobre o projeto é tão poderosa e reconhecida que ele viajou para Cannes a fim de representar o filme ao lado do diretor e seus astros.

A participação de Michelle Williams no filme de Todd Haynes é pequena, mas sua presença em Cannes pesa muito na promoção e na aditivação estelar do festival. Para não mencionar que o penteado Joãozinho lhe cai muito bem (Foto: Divulgação)

Posto isto, cabe à ala “sofisticada” de aficionados de Todd Haynes entender que o mundo narrativo-visual de Brian Selznick é tão particular quanto amado por um público internacional de crianças, jovens e, principalmente, de adultos. É impossível adaptá-lo ao cinema a partir de um tratamento autoral. O próprio Martin Scorsese sucumbiu à charmosa fantasia retrô e à atmosfera sombria, meio barroca, das aventuras e dos desenhos de Brian Selznick ao transportar para o cinema A invenção de Hugo Cabret”, em 2011. Na época, Scorsese também recebeu críticas pesadas não só porque se afastara do seu universo “neorrealista” – patente em obras-primas como Taxi Driver(1976), Touro Indomável (1980), Os infiltrados (2006) –, como ainda multiplicara a fantasia e o sentimentalismo do universo de Selznick já tão fantástico e emotivo por si só.

Hoje adolescentes, Chloë Grace Moretz (à esq.) e Asa Buttefield (à dir.) foram as crianças que estouraram definitivamente com o longa-metragem “A invenção de Hugo Cabret” (Hugo, 2011), outra produção que adaptou para a tela uma obra literária de Brian Selznick. A produção concorreu a 11 Oscars e levou cinco, dividindo a condição de filme mais premiado da edição 2012 na celebração norte-americana com “O Artista”  (Foto: Divulgação)

As reservas a Martin Scorsese se repetem aqui e agora, em Cannes, seis anos depois com Todd Haynes. O diretor em suas entrevistas à imprensa internacional presente na Croisette tem ampliado os níveis de apreciação possíveis da obra, destacando principalmente os riscos que ele assumiu ao tentar narrar duas histórias ambientadas na mesma Nova York, mas com 50 anos de diferença, sendo a de 1927 completamente muda e em P&B enquanto a de 1977 é falada e em cores. Entretanto, essas diferenças só existem para tornar ainda mais misteriosa a teia de paralelismos, ressonâncias e interligações subterrâneas entre os dois planos temporais que precisaram ser arduamente costurados através da edição, do desenho de som e da mise en scène, lembrando que os dois personagens-mirins centrais de suas respectivas histórias são surdos.

Metade de “Wonderstruck” é sem diálogos e em P&B. Essa parte do filme é protagonizada pela jovem atriz muda Millicent Simmonds, recebida calorosamente aqui em Cannes. Seu perfil foi inspirado nas heroínas ingênuas pré-adolescentes vividas por Mary Pickford e Lilian Gish nos primórdios de Hollywood (Foto: Divulgação)

A jovem Rose, heroína de “Wonderstruck” na parte que se passa em 1927, foi assim retratada pelo desenhista Brian Selznick. Os olhos grandes, uma exigência da linguagem gráfica, foram substituídos pelo olhar hipnótico e carente da atriz Millicent Simmonds (Foto: Reprodução)

Mas o aspecto do universo de Brian Selznick que parece ter emocionado mesmo Todd Haynes – e que seguramente “fisgou” Martin Scorsese – é a ligação que o escritor-ilustrador faz entre as origens do cinema e o advento das imagens em movimento com a rebeldia e a fantasia infantil. Nesse cruzamento tão perigoso como transformador, o pano de fundo é sempre uma grande e fabulosa metrópole onde seus jovens heróis são colhidos e levados para a aventura: Paris no caso de “A invenção de Hugo Cabret” e Nova York no de “Wonderstruck”.

As estrelas de “Wonderstruck” são mesmo os três personagens infantis Ben, Rose e Jamie. Mas Julianne Moore, atriz-fetiche de Todd Haynes, tem uma participação marcante no final do filme, caracterizada como uma sexagenária (Foto: Divulgação)

Todd Haynes gosta tanto de filmes de época que em “Wonderstruck” ele recriou duas Nova York de diferentes períodos: a dos palácios de cinema, de 1927 e a decadentérrima Big Apple de 1977. Como ambas as épocas foram filmadas simultaneamente, Haynes quase enlouqueceu a equipe de arte, capitaneada pela oscarizada figurinista Sandy Powell – a mesma de “Carol” – e o cenógrafo Mark Friedberg (Foto: Divulgação)

O celebrado e influente crítico francês Serge Daney (1944-1992) afirmava que a cada metrópole corresponde uma das etapas tecnológicas da imagem: a Paris “clássica” inventou e foi inventada pela fotografia, a Nova York “imaginada” pelo mundo consagrou e foi consagrada pelo cinema e seus “palácios” onde o público sonhava acordado, enquanto a Tóquio feérica dos luminosos do bairro de Ginza é a mãe e a filha das voláteis imagens eletrônicas de hoje. Depois de Martin Scorsese e Todd Haynes, fica o convite para que outro talentoso artista continue a linhagem de filmes que mostrem que a descoberta da vida, o nascimento do amor pelo cinema e o chamado para a aventura urbana só acontecem juntos nesse momento mágico chamado infância.

BRIAN SELZNICK: MESTRE DO ENCANTAMENTO DA INFÂNCIA E DA MELANCOLIA

Conheça um pouco mais, nesta entrevista gravada na BookCon 2015, do processo criativo do escritor e ilustrador norte-americano Brian Selznick que se consagrou mundialmente como autor de livros infantis que também agradam aos adultos, como A invenção de Hugo Cabret“, já publicado no Brasil (Fonte: The Wall Street Journal)

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