Foi uma noite política, apesar de se tratar de uma premiação de teatro de uma entidade que fomenta a cultura. A celebração do melhor em cena na edição 2018 do Prêmio Cesgranrio de Teatro foi assim, na noite dessa segunda-feira (21/1), no Golden Room do Copacabana Palace, Rio: a classe artística em peso se manifestou contra o que considera o desmanche da cultura de um governo que, mal tomou posse, extinguiu o Ministério da Cultura. O maior prêmio de teatro atualmente no Brasil tem mesmo sido dessa forma nos últimos anos: a charmosa celebração da classe num ambiente elegante, em cerimônia com jeitinho de Oscar ou Tony, ao invés de inibir, parece surtir um efeito hipnótico reverso na plateia. Estimulado, o público se pronuncia em resposta, em geral acordância àqueles que no calor da ribalta vertem a gala em palanque. Gente que faz do palco o ofício e da vida um comício.

(Foto: Eny Miranda / Divulgação)

Homenageada, Fernanda Montenegro, prestes a completar 90 anos e 75 de carreira, foi contundente: “Quem é capaz de viver de teatro nesse país é capaz de qualquer coisa. O que eles não são é inofensivos”, disparou.

(Foto: Eny Miranda / Divulgação)

Visivelmente emocionada (como esteve em julho passado, na Cidade das Artes, quando também recebeu homenagem no Prêmio Brasileiro de Cinema, leia mais aqui), ela não se deixou levar apenas pela costumeira rasgação de seda. Os elogios foram muitos, incessantes, vindos dos mestres de cerimônia Julia Lemmertz e Jônatas Faro, do anfitrião Carlos Alberto Serpa, Presidente da Fundação Cesgranrio, dos inúmeros apresentadores e premiados que se revezavam no palco, de monstros sagrados da interpretação, como Deborah Bloch, Ney Latorraca e a cantora Zélia Duncan, a jovens atores que ainda buscam o lugar ao sol, tipo Rodrigo Simas e Caio Paduan.

(Foto: Eny Miranda / Divulgação)

A dama da representação fez questão de, entre depoimentos pessoais, enaltecer a nova geração (“Aplaudo essa turma que agora chega ao meio em condições tão adversas”), agradecer ao marido Fernando Torres (“Sem ele não existiria Fernanda Montenegro”) e servir como aquela que Serpa se refere como “um farol”: tratou de trazer à luz da razão questões que considera cruciais. “Diante de toda a destruição dessa arte tão eterna, que estranha anomalia essa profissão [a de ator]. No momento atual, aliás, essa festa é uma anomalia”, disparou.

(Foto: Eny Miranda / Divulgação)

Ao lado de Fernanda, o anfitrião da noite completou: “Em quarenta e cinco anos como educador, percebi que o diferencial do pequeno percentual de estudantes de origem humilde que se destacava na vida era a cultura. Então, me dei conta de que é a cultura que faz a diferença e que seria preciso investir nela. Não existe educação se cultura; esta é o esqueleto, é o arcabouço”, afirmou Serpa, cuja instituição fomentou no ultimo ano 100 projetos culturais.

(Foto: Eny Miranda / Divulgação)

No seu périplo de usar a visibilidade para evocar assuntos de relevância, ao ser informada que o secretário de cultura da Fundação Cesgranrio, Leandro Bellini, estava presente, e tomando o moço como secretário de cultura da prefeitura, Fernanda alertou: “Estamos de olho no que o senhor vai fazer pela cultura dessa cidade”. O público, mesmo entendendo a pequena confusão, calado ficou diante da importância real de fiscalizar as ações dos integrantes dos órgãos governamentais. Independente de qualquer coisa, recado dado e Fernanda Montenegro está atenta à política cultural no Rio, na cidade, no estado, no país. “Esta é uma noite especial para esse momento de total desprestígio da cultura nesse país”, arrematou ela.

(Foto: Eny Miranda / Divulgação)

Mas não foi só ela a se mostrar presente. O autor e diretor Leonardo Netto, que arrebatou a estatueta de ‘Melhor Texto Nacional Inédito‘ por “A ordem natural das coisas“, também foi ovacionado. “O Sesc é nossa secretaria alternativa de cultura, depois que recebi calote de um projeto aprovado pela prefeitura em 2017. Eles nos receberam e permitiram que a peça pudesse ir adiante. Produzir teatro no Brasil é uma espécie de rally Paris-Dakar. Educação e Cultura são armas para a construção”.

(Foto: Eny Miranda / Divulgação)

Foi uma noite de exaltação das minorias, como hoje convém a qualquer premiação globo afora. Ao receber o prêmio de ‘Categoria Especial’ pelo elenco do musical “Elza“, ao lado de Késia Estácio e Janamô, a atriz e cantora Veronica Bonfim acentuou a relevância de reconhecer o talento dos artistas negros: “Representatividade importa. A carne mais barata do mercado FOI a carne negra”, disparou, citando o refrão da famosa música de Elza Soares. Ao subir ao palco para ser laureada pelo mesmo espetáculo, a diretora Duda Maia, única concorrente mulher a ‘Melhor Direção”, brincou: “Eu sou pequenininha, mas venho da dança, a gente não fica parado”, abrindo a possibilidade de um cunho político na interpretação da sua fala.

(Foto: Eny Miranda / Divulgação)

Já o músico Jules Vandystadt, vencedor de ‘Melhor Direção Musical’ triplamente por “Pippin“, “70? Década do  Divino Maravilhoso – Doc Musical”  e “O homem no espelho“, lançou: “Agradeço ao meu marido e ao meu filho e nossa família existe. A gente viaja co o trabalho e tê-los em casa é um porto seguro”.

(Foto: Eny Miranda / Divulgação)

Dessa vez, a cerimônia, sempre longa, ganhou uma pimenta a mais no roteiro e direção do próprio Leandro Bellini. Causaram os números musicais, como o de abertura entoado pela linda voz de Malu Rodrigues, aquele que contou com Jônatas Faro cantando “Roda Viva” tendo acompanhamento de integrantes do Oficina de Canto Coral Cênico dirigida por Jonas Hammar e ainda a inesperada interpretação de Letícia Sabatella emulando Edith Piaf com Je ne regrette rien“.

(Foto: Eny Miranda / Divulgação)

Confira abaixo a lista de vencedores:

 MELHOR ESPETÁCULO
– A Invenção do Nordeste

MELHOR TEXTO NACIONAL INÉDITO
– Leonardo Neto, por A Ordem Natural das Coisas

MELHOR DIREÇÃO
– Duda Maia, por Elza

MELHOR ATRIZ
– Mariana Lima, por Cérebro_Coração

MELHOR ATRIZ EM TEATRO MUSICAL
– Amanda Acosta, por Bibi – Uma Vida em Musical

MELHOR ATOR
– Daniel Dantas, por O Inoportuno

MELHOR ATOR EM TEATRO MUSICAL
– Claudio Galvan, por Romeu + Julieta Ao Som de Marisa Monte

MELHOR DIREÇÃO MUSICAL
– Jules Vandystadt, por O Homem no Espelho, Pippin e 70? Década do Divino Maravilhoso

MELHOR FIGURINO
– João Pimenta, por Romeu + Julieta Ao Som de Marisa Monte

MELHOR CENOGRAFIA
– Dina Salem Levy, por Cérebro_Coração

MELHOR ILUMINAÇÃO
– Russinho, por Memórias do Esquecimento

CATEGORIA ESPECIAL
– Elenco de Elza

HOMENAGEM
Fernanda Montenegro

Deixe seu comentário

Seu email não será publicado.