A nova onda de criatividade e popularidade dos seriados televisivos – principalmente americanos – que assola o mercado audiovisual não poderia ficar de fora do RioMarket, área de negócios do Festival do Rio. Para esta edição, foram convidadas duas super profissionais que assinam a caracterização dos personagens da série Os Americanos (The Americans, 2013-2017, FX/Fox), criada por Joe Weisberg: Lori Hicks, que está há 40 episódios, desde 2013, à frente do departamento de maquiagem da série; e Katie Irish, figurinista em 26 episódios, desde 2014.

A série “Os Americanos”, do canal FX, sobre dois espiões russos que se passam por um típico casal americano durante os anos 1980, no final da Guerra Fria, já chegou a cinco temporadas de sucesso de audiência e de crítica, totalizando 65 episódios. Em 2016, o programa foi finalmente indicado a várias categorias importantes do prêmio Emmy (Foto: Reprodução)

Este teaser promocional da série “Os Americanos”, ambientado na Washington da Era Reagan, procura exaltar o clima de tensão política que reinava antes da queda do Muro de Berlim e o consequente fim do império soviético. Confira (Divulgação): 

A maquiadora-chefe Lori Hicks (de preto) e a figurinista Katie Irish do seriado “Os Americanos” vieram ao Brasil a convite do RioMarket durante o Festival do Rio para ministrar uma masterclass sobre caracterização de personagens (Foto: Flávio Di Cola para Ás na Manga)

Depois da masterclass intitulada “The Americans: maquiagem e figurino como elementos fundamentais para o sucesso de uma série”, a muito bem humorada dupla Lori & Katie recebeu ÁS num dos terraços do hotel Royal Tulip Rio São Conrado para um bate-papo exclusivo:

ÁS: Qual foi o objetivo da masterclass?

Katie Irish (KI): Foi mostrar o nosso processo de trabalho na série “Os Americanos” desde a primeira leitura do script, passando pelo envolvimento com outras áreas criativas até o resultado na tela, transformando a aparência dos personagens durante as várias temporadas.

Lori Hicks (LH): Sim, quisemos dividir o que aprendemos sobre o processo de manter os personagens reais e identificáveis através do visual enquanto evoluíam ao longo dos anos.

O casal de espiões soviéticos que atuam disfarçados como Philip e Elizabeth Jennings em “The Americans” é vivido por Matthew Rhys e Keri Russell. No início dos anos 1980 as malhas volumosas ou tricotadas justas no corpo foram dois hits da moda inverno (Foto: Reprodução)

ÁS: Como foi a recepção por parte dos alunos?

KI: Acreditamos que foi boa pelas perguntas instigantes que nos fizeram. Por exemplo: quiseram saber qual o impacto das mídias sociais sobre o nosso trabalho no contexto de uma série que é transmitida por cabo e à qual o público reage instantaneamente. Respondi que desenvolvemos cuidadosas pesquisas sobre os anos 1980, mas não podíamos mostrar nada até a série ir ao ar. Assim foi um alívio, depois da estréia, receber pelas redes sociais muitos comentários positivos do tipo: “Sim, era assim que eu me vestia na época” ou “Minha mãe usava esse mesmo tipo de penteado”.

ÁS: Que diferença faz entre trabalhar para uma série de TV e um longa-metragem cinematográfico?

KI: Para a figurinista a principal diferença é o volume de trabalho. Nas séries trabalhamos por cinco ou seis anos no mesmo projeto, vestindo muitos personagens e centenas de figurantes, que podem não estar fazendo nada ou simplesmente andando numa cena de praia. É um trabalho e tanto!

LH: Sim, para o maquiador também. O ritmo na TV é muito mais rápido e você tem muito menos tempo para se preparar do que no cinema. Há mais improvisação.

ENTRE A REALIDADE E A FICÇÃO, “OS AMERICANOS” SE BENEFICIOU DAS DUAS

O historiador Harvey Klehr, autor da obra “Espiões: ascensão e queda da KGB na América” (em tradução livre) pontua as diferenças entre a realidade histórica da contra-espionagem soviética nos Estados Unidos e o aproveitamento ficcional que a série “Os Americanos” fez dos fatos. Confira abaixo (versão original em inglês, sem legendas):

ÁS: Em termos visuais qual o charme específico do look dos anos 1980?

KI: Para mim, foi uma moda muito impactante e agora é nostálgica, pois era como eu via minha mãe se vestir [risos], justamente quando eu estava numa idade muito impressionável e eu queria ser como aquelas mulheres maravilhosas que apareciam na TV e nas capas de revista, Mas se você observar bem, a moda dos anos oitenta foi medonha. Mas para a personagem Elizabeth Jennings procuramos manter um look clássico, atemporal, ressaltando – é claro! – um pouco as ombreiras.

LH: Para a maquiagem e cabelos, temos um pouco de tudo porque a série tem muitos personagens diferentes. Então misturamos estilos: o “certinho” dos anos 50 que teve um revival nos 80 com os cabelos longos dos anos 1970, o new romantic, o estilo Madonna. Também temos personagens políticos cuja aparência pouco muda ou aqueles que se  disfarçam.

As atividades de espionagem exigem do casal Jennings, em “Os Americanos”, muitos disfarces como este, o que torna muito mais complexo o trabalho da equipe de caracterização da série. Aqui, Elizabeth aparece com os cabelos esculpidos com mousse e terno justinho, e Philip num costume com modelagem tradicional, antes da ascensão do blazer largo equipado com as famigeradas ombreiras (Foto: Divulgação)

ÁS: Cada época traz um tipo de dificuldade e de desafio para ser reproduzida. Como foi o caso dos anos 1980?

KI: Vendo os anos 1980 em retrospectiva, ficamos realmente chocados com as ombreiras agressivamente largas, os cabelos incrivelmente esculpidos, o exagero no blush… Temos que adaptar sempre e se concentrar no personagem, no que ele está fazendo, preservar sua continuidade na série. E não provocar no público comentários do tipo: “Nossa! Que ombreiras enormes!”.

LH: Hoje não podemos levar essas características a sério para reproduzirmos o período, pois pareceriam engraçadas e também porque temos que nos preocupar essencialmente com as necessidades dramáticas da história.

Mais eighties impossível: casaco com ombreiras e camisa com gola-padre no visual da protagonista de “Os Americanos” (Foto: Reprodução)

ÁS: As indicações e os prêmios da Academia nas categorias de figurino e maquiagem têm valorizado muito mais os filmes de época, de ficção científica ou de fantasia. O que acham desta tendência?

KI: Na verdade, ela reflete apenas uma visão do negócio cinematográfico, pois o público, em geral, pensa que os figurinos para esses gêneros de filmes são mais difíceis de criar, o que não é verdade. Você pode encontrar trabalhos muito mais complexos num modesto filme preto e branco em que os personagens são sutilmente e imediatamente identificados pelo que vestem. Dificilmente as pessoas vão valorizar uma roupa que vêem toda hora na rua. Entretanto, muitas vezes, um figurino é concebido exatamente para não ser ostensivamente notado.

A maquiadora Lori Hicks trabalhou com Woody Allen para cuidar da beleza de atrizes deslumbrantes como Penélope Cruz e Scarlett Johansson em “Vicky Cristina Barcelona” (2008) e Cate Blanchett em “Blue Jasmine” (Foto: Reprodução)

ÁS: Na indústria audiovisual americana qual a parcela do orçamento de uma série para os departamentos de figurino e maquiagem?

KI: Depende do tamanho dos projetos. Em “Os Americanos” varia muito. Por exemplo: se temos cenas de assassinato com tiros que precisam ser repetidas várias vezes, os figurinos também devem ser trocados a cada nova tomada. Esse tipo de situação eleva consideravelmente os gastos.

LH: Sim, porque essas cenas também exigem os efeitos de sangramento, a simulação de lesões e feridas que são muito complicadas e caras para fazer.

“Os Americanos”: série de sucesso na TV utiliza o disfarce de um casal de espiões russos em ação nos EUA para retratar os hábitos ocidentais dos anos 1980 (Foto: Divulgação)

ÁS: E na vida privada, como vocês se vestem e se maquiam?

KI: No meu trabalho de figurinista adoro cores vibrantes, estampas e texturas ricas, mas quando vou comprar roupas para mim, não consigo sair do preto, branco e cinza. Adoro cores como o verde cítrico e o amarelo ácido, mas ficaria doente se tivesse que usá-las! [Risos]

LH: Não uso muita maquiagem. Não consigo ser outra pessoa além de mim mesma! Prefiro permanecer real, tocável, beijável… [Gargalhadas]

REFERÊNCIAS NEM SEMPRE BEM-VINDAS

 Katie Irish e Lori Hicks em entrevista exclusiva ao ÁS alertam para o fato de que o estilo exagerado dos anos 1980 não poderia ser transportado sem as devidas adaptações para a série “Os Americanos”, ambientada no subúrbio de Washington. As referências óbvias da época hoje servem mais para animar uma sessão nostalgia:

A série “Dinastia” imperou nas telinhas do planeta entre 1981 e 1989. Nesse período, Blake Carrington (John Forsythe), Krystle Carrington (Linda Evans) e a bitch nº 1 da América Alexis Colby (Joan Collins) definiram a palavra “moda” para os emergentes de todos os quadrantes (Foto: Reprodução)

Lady Di é referência obrigatória para se entender os caprichos da moda do anos 1980. Aqui, com calças Capri, ela se entrega ao visual jeune fille, revival oitentista dos comportados anos 1950 (Foto: Reprodução)

Outro momento definidor da moda dos eighties foi o lançamento da comédia “Uma secretária do futuro” (1988), de Mike Nichols: como esquecer o decote-melancia de Melanie Griffith, a alfaiataria italiana de Harrison Ford e as ombreiras yuppies de Sigouney Weaver? Para não falar da canção-tema de Carly Simon… (Foto: Reprodução)

Bem, só faltava mesmo Madonna, o mais espetacular camaleão fashion da década, que começou sua carreira transitando pela vertente new romantic, uma das mais marcantes e bizarras do período (Foto: Reprodução)

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