Para quem anda desanimado com os rumos da política e da economia no Brasil e no Rio, a mostra é mais que um alento: é dose de otimismo, ufanismo e, sobretudo, de amor próprio. Com abertura para o público nesta noite de segunda (15/5), Yes! Nós Temos Biquíni celebra no Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro (CCBB Rio) os 70 anos do traje mais emblemático da moda praia, numa trajetória que começa antes mesmo de sua invenção pelo francês Louis Réard, em 1946, percorrendo do final do século 19 aos primeiros anos desse novo milênio. Com uma injeção de autoestima, a curadora Lilian Pacce, que lançou recentemente uma bíblia sobre o assunto (“O Biquíni Made in Brasil”, Editora Queen Books), reforça essa primeira impressão: “O biquíni revolucionou o mundo, mas o Brasil revolucionou o biquíni”.

A foto de Claudia Guimarães exibida na mostra “Yés! Nós temos biquíni” evidencia a questão do empoderamento da mulher negra de hoje, com o turbante africano contracenando com o duas peças, tema da expô em cartaz no CCBB RJ (Foto: Divulgação)

Desinibida retrô: modelo é fotografada em 1946 com o primeiro biquíni, concepção de Louis Reárd que levou esse nome porque seu criador pretendia que o traje se tornasse tão bombástico quanto os testes de explosões nucleares que costumavam acontecer na época no Atol de Bikini. Curiosamente, as nativas daquela região até hoje tomam banho de mar vestidas, na contramão da modernidade… (Foto: Reprodução)

Imperdível, Yés! Nós Temos Biquíni segue o padrão das exposições temáticas que costumam despertar o imaginário dos visitantes no Costume Institute, no Metropolitan Museum (NY), no Palais Galliera e no Museu de Artes Decorativas do Louvre (Paris), referências tanto para fashionistas quanto para o grande público em geral.

Mulher das profundezas abissais: Adriana Degreas exibiu na passarela da SPFW esse modelo em látex por ocasião do lançamento do verão 16, em abril de 2015. Esse, assim como outras peças icônicas, encontra-se expostos em “Yés! Nós temos biquíni” (Foto: AGENCIA FOTOSITE / Divulgação)

Com cenografia de Pier Balestrieri, comunicação visual de Kiko Farkas e consultoria de arte contemporânea de Sandra Tucci, a expo é didática, se desdobrando em salas que traçam, respectivamente, um panorama da evolução do traje de banho até chegar ao biquíni e em sua consolidação como o mais emblemático da mulher empoderada, uma revisão etnográfica da tanga que posiciona as tribos indígenas brasileiras pré-colombianas na vanguarda da fêmea soberana do seu corpo,  a ponte entre a moda praia e a arte, o registro da praia como território geográfico-social e um percurso pela fotografia que ajudou a concretizar a identidade da moda praia brasileira e a projetou mundialmente.

Rainha do asa delta: segunda a curadora Lilian Pacce, Luíza Brunet, a modelo mais famosa dos anos 1980 no Brasil é recordista de capas de revista e looks de moda praia, muitos deles nessa modelagem-emblema da década (Foto: Reprodução)

Nesse traçado do biquíni como aliciador e catalisador de novos comportamentos, figuras femininas de proa como Dalma Callado, Leila Diniz, Gal Costa, Kate Lyra, Rose Di Primo, Monique Evans, Luíza Brunet, Magda Cotrofe, Shirley Mallmann, Izabel Goulart, Gisele Bünchen e até a top trans Lea T. comparecem em imagens icônicas de capas e recortes de revistas, propagandas, catálogos, capas de disco ou clicadas por gente fina como Otto Stupakoff, Klaus Mitteldorf, Bob Wolfenson, Fernando Schlaepfer, Luiz Tripoli, Claudia Guimarães, Daniel Klajmic, Jacques Dequeker e, óbvio, Antonio Guerreiro.

A fotografia de Antonio Guerreiro faz parte do acervo em exibição de “Yes! Nós Temos Biquíni”. O evento credita ao espanhol radicado no Rio a primeira imagem fotográfica de moda praia sem cabeça, na qual o duas peças substitui a face da modelo como principal ponto de atenção (Foto: Divulgação)

No âmbito geral, o passeio por esse aspecto tão singular da história da moda deixa claro que o sucesso do “duas peças” se confunde com o processo de emancipação feminina ao longo do século passado. Se, num primeiro momento, o beachwear seria o natural desdobramento da exaltação do estilo de vida praiano surgido na Riviera Francesa, como consequência direta do banho de mar enquanto recomendação médica, logo essa moda se mesclaria ao sufragismo através da presença das mulheres donas de si em vestimentas que hoje dificilmente poderiam ser consideradas maiôs. Ainda assim, embaladas nesses modelitos vistos como indecentes na época, muitas delas acabaram postas em cana por carolíssimas autoridades protetoras dos bons costumes.

Annette Marie Sarah Kellerman (1886-1975) – ou simplesmente Annette Kellerman -foi uma nadadora, atriz de vaudeville e cinema, escritora e defensora da natação profissional australiana precursora do uso dos trajes de banho ajustados no corpo pelas mulheres. Por conta desta roupa tida como imprópria na época, foi presa por atentado ao pudor e também a primeira grande atriz a fazer uma cena de nudez, quando apareceu totalmente nua no filme mudo “A Daughter of the Gods” (Fox Film Corporation). Ela costumava ser sua própria dublê, se ariscando em cenas filmadas no mar e até em uma piscina infestada por crocodilos. Sua projeção na mídia da época abriria caminho, mais tarde, para estrelas do calibre de Esther Williams (Foto: Divulgação)

A partir daí, tudo foi um pulo: no Brasil vieram a consagração de Copacabana como a versão tropical do lifestyle à beira-mar surgido em Cannes e o escândalo causado, nos anos 1940, pelo pedaço de mau caminho Miriam Etz, primeira brasileira a usar um biquíni, no Arpoador. Isso só foi possível graças ao empoderamento ocidental da mulher estabelecido pela conquista de um mercado de trabalho tradicionalmente masculino quando, durante o conflito bélico mundial, as norte-americanas passaram a ocupar cargos nos escritórios, siderúrgicas e fábricas por ocasião do o esforço de guerra.

Espécie de péssimo exemplo para as garotas de famílias tradicionais, a alemã que viveu no Rio Miriam Etz (1914-2010) foi modelo e estilista que, após ter sido encarcerada por usar o primeiro biquíni no país, acabou adquirindo tanto sucesso quanto má reputação. Seu fim? Garota-propaganda da Antáctica dez anos depois de ter levado os marmanjos à loucura com seu modelito tido então como sumário, nas areias do Arpoador (Foto: Reprodução)

E, quando o visitante de Yés! Nós temos biquíni se depara com peças em crochês e o célebre modelo em jeans com lacinhos criado por Rose Di Primo linda, leve e solta, fica evidente que a queima de sutiãs por enfurecidas feministas francesas, no final dos sixties, não acabou e pizza, mas em um tapinha embalado por um biquininho diminuto, de preferência nas dunas da Gal, em Ipanema, durante o desbunde.

Creditada como inventora informal do biquíni em jeans, a modelo Rose Di Primo (à esq.) posa com o mesmo numa foto dos anos 1970. À direita, imagem da Blue Man revela que a invenção de moça foi rapidamente apropriada pela carioquíssima grife, que se encarregou de passar adiante a ideia (Foto: Divulgação)

De novo, a Blue Man: o duas peças engana-mamãe assimétrico é outro item que comparece em “Yés! Nós temos biquíni”, demonstrando a supremacia da moda praia brasileira quando o assunto é mostrar o corpo com charme.  O modelo desfilou no Fashion Rio, em junho de 2004 (Foto: AGENCIA FOTOSITE / Divulgação)

Para fechar, instalações de baluartes das artes como Leda Catunda, Katia Maciel e Cássio Vasconcellos se encarregam de despertar os sentidos do público em resultado sinestésico, como na projeção audiovisual do mar que interage com o visitante conforme seu movimento, envolvida por um aroma desenvolvido por Vincent Schaller, perfumista que criou fragrância de Kylie Minogue e já fez trabalhos no Brasil para O Boticário  e Natura.

Lilian Pacce conheceu o moço ano passado, quando lançou seu livro na Cidade Luz,  e daí surgiu a ideia de criar dois aromas que coroam  a epifania criativa de Yés! Nós Temos Biquíni com aquilo que a editora de moda chama de “uma expo 4D”: diante da uma videoinstalação, um irresistível cheirinho de praia (que não se trata de maresia) invade a sala.

A instalação “Crowd”, de Leda Catunda, é destaque na exposição “Yés! Nós temos Biquíni”, no Rio (Foto: Divulgação)

Para quem ama o lifestyle praiano, a descoberta é tão prazerosa quanto o prato que evoca as emoções da infância do crítico gastronômico no desenho animado Ratatouille“: uma mescla de bronzeador com bloqueador solar, suor, aquelas almofadinhas de plástico com óleo para esturricar a pele vendidas pelos ambulantes e, quiçá, até o polvilho do biscoito Globo. Tudo junto e misturado, como convém a uma boa praia e bem de acordo um esse turbilhão de informações cruzadas que compõe a abrangência da mostra.

Outra obra que revela a permanência da praia enquanto ambiente de socialização e comportamento é deslumbrante fotografia aérea de uma praia, obra de Cássio Vasconcellos em exibição em “Yés! Nós temos Biquíni”, no CCBB RJ (Foto: Divulgação)

Ao final da “viagem”, Lilian destaca aquilo que mais lhe comove no inventário apresentado na exposição: “Mexem comigo as tangas marajoaras, o crossover entre moda e arte e a instalação de Nelson Leirner, ‘Stripencores’, de 1967″. A obra do artista plástico, que exibe manequins com perucas coloridas e looks que vão se despindo de um vestido longo a uma minissaia, ganhou um quinto elemento criado especialmente para Yes! Nós Temos Biquíni: um biquíni de tiras. Tudo a ver com o conceito panorâmico e em evolução do traje, completamente inserido nas últimas tendências, como a própria Lilian ressalta: “O biquíni de tirinhas demorou a pegar, mas está aí, né, gente!”.    

Os novos tempos de sereísmo vão além de Isis Valverde e da novela das nove, “A força do querer”: o vídeo de Janaina Tschape revela uma nereida pós-moderna, devidamente trajada com um biquinão selvagem que causaria inveja à pequena Ariel, do conto de fadas! (Foto: Divulgação)

Serviço:

“Yés! Nós Temos Biquíni”

Exposição: de 15 de maio a 10 de julho

CCBB Rio de Janeiro

De quarta a segunda, das 9h às 21h

Rua Primeiro de Março, 66. Centro, Rio de Janeiro, RJ. 20010-000

Telefone: (21) 3808-2020

E-mail: ccbbrio@bb.com.br

http://www.bb.com.br/cultura

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