Arte da política. Arte da retórica. Arte de enganar o povo. Em época de eleição, essas expressões tão conhecidas dos cariocas sobem à epiderme. Não por acaso – ou totalmente por uma sinistra coincidência – neste ano o último dia (2/10) da 6ª edição do ArtRio coincide com a primeira eleição municipal após a sequência de imbroglios que descambaram no empichamento da ex-presidente Dilma. Pior. Com um governo atual não reconhecido por parte da população, existe desânimo no que se refere ao futuro político do Brasil.

No Rio, a dor de cabeça é maior ainda com a seguinte a reclamação de parte da população: “será que existe candidato a prefeito que valha a pena? E a possibilidade de a administração da Cidade Maravilha se tornar fundamentalista religiosa, contrariando a constituição que determina um estado laico?”. Desesperançosos dizem não vislumbrar luz no fim do túnel no caso do mais assustador dos panoramas. Ainda assim, uma coisa é fato: “carioca não sabe votar”, afirmam muitos exemplares dessa terra de samba, praia, mulata e futebol. Diante disso, ÁS circulou pela feira de arte mais badalada do país e perguntou a gente com verve arteira a pergunta que não quer calar: de que maneira a arte pode influenciar positivamente na formação de uma consciência política no carioca? Confira!

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Como que para acalmar a indignação do carioca -ultimamente inconformado com os descasos nas altas esferas governamentais e opções insatisfatórias para prefeito nesta nova corrida às urnas, o ArtRio bombou nesta tarde de sábado (1/10), com a chuvinha leve lavando a alma dos inconformados com a falta de consciência política na Urbe Maravilhosa (Foto: Rodrigo Simões)

Expoente do design nacional, Zanini de Zanine considera a arte plataforma perfeita para o exercício lúcido da consciência política: “Enquanto campo natural da informação e da experiência, a arte possibilita o conhecimento necessário para se exercer um espírito de análise que pode ser muito útil na hora de votar”, afirma, emendando com outra questão relevante: “A multidisciplinaridade é natural do homem. A presença da IDA no ArtRio é oportuna porque ajuda a romper barreiras entre as áreas de atuação da arte e design. Afinal, ninguém precisa ser uma coisa só e é por isso que, quase aqui do lado, temos uma luminária criada pelo [Carlos] Vergara. Os Irmãos Campana são designers de produto, criaram uma Melissa e nem por isso são estilistas. É preciso comemorar esse livre trânsito!”, comenta.

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Para o celebrado designer Zanini de Zanine, enquanto território do relaxamento, a arte oferece condições ideais para se questionar a política (Foto: Rodrigo Simões para Ás na Manga)

Fotógrafa, diretora de arte e também um mulherão, a paulista Nina Keller esteve atenta ao evento conferindo cada detalhe. Para ela, “a arte instiga, provoca e traz a reflexão que pode ajudar a formatar um ‘corpo político’. Além disso, o belo mexe com a autoestima e, nessa cadeia natural, a consciência social é estimulada”, revela diante da série de quadros de João Damasceno.

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Natural de São Paulo, Nina Keller acredita na conjugação entre o belo, a provocação, arte e política (Foto: Rodrigo Simões para Ás na Manga)

Namorados, os estudantes da EBA/UFRJ Escola de Belas Artes, a primeira do país, fundada em 1816 por D. João VI  – Antonio Schubach e Bruna Souza ~encorpam a linha dos modernos que amam a irreverência, mas dispõem de sólida visão de mundo. “A arte explora o território do afeto, do público, do mundo das ideias no sentido platônico. É essa contextualização que a empurra para a política”, discorre ele, que também é figurinista do Dream Team do Passinho.  Já Bruna, que também é artista urbana, é categórica: “Observar uma obra de arte pode ser uma revolução interior tão grande quanto a Queda da Bastilha. A arte enquanto universo de formação pode ser transformadora”.

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Casal de artistas, fashionistas, alunos da EBA, dotados de opiniões fortes: assim caminha a humanidade na verve de Antonio Schubach e Bruna Souza – criaturas sorridentes que acreditam no potencial transformador da arte (Foto: Rodrigo Simões para Ás na Manga)

Artista visual, Marcio Gatts assume ar quixotesco. Mas, ao contrário do célebre personagem de Miguel de Cervantes, não pretende se lançar contra moinhos de vento; usa sua língua afiada como lança muito mais eficaz, teorizando: “A arte pode contribuir no processo eleitoral. Vejamos, é preciso fazer uso de duas correntes: uma boa dose de abstracionismo expressionista para abrir a alma e ir ao real encontro dos desejos. Mas também um bom arremate de concretismo para que o eleitor exercite seu lado mais racional”, vaticina cheio de segurança.

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Com a neutralidade de uma alma alva e um figurino off-white, Marcio Gatts mescla movimentos artísticos para exprimir o ideal de uma consciência política carioca (Foto: Rodrigo Simões para Ás na Manga)

Ex-modelo que enveredou pelo caminho da boa mesa, Ana Carla Tonani Barros é morena vegana que não pega mais sol. Para ela, que comanda o disputado restaurante do ArtRio e o food truck do Crepe Nouveau, para votar é preciso extrair das entranhas a criatividade que só a arte promove: “Na falta de candidatos que nos representem, a solução é verter a votação em performance a fim de sacudir o eleitorado. Sei lá, não votar, protestar, anarquizar, sambar nas tamancas, se autoimolar, votar em personagens fictícios que ganhem a eleição, expondo o ridículo do nosso contexto atual”, subverte, exibindo uma paixão que se tornou meta política e de vida: “Olha só a minha horta e da Fabiana dos Orgânicos. O importante é plantar!”, lança no ar a frase cheia de duplos sentidos.

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Em meio ao bafafá do ArtRio, a cool Ana Carla Tonani Barros, do Crepe Nouveau, senta no chão e assume a gastronomia vegetariana como metáfora para evitar que o eleitor carioca arrebanhe “o que a Luzia levou na horta”, conforme o velho ditado popular (Foto: Rodrigo Simões para Ás na Manga)

Maridão de Ana Carla, o francês Olivier Cozan é tão revolucionário quanto um jacobino: “É preciso levar ao cadafalso todos esses políticos. Guilhotina nessa turma!”, profetiza esse Robespierre da pós-modernidade, que vai além: “O Estado deve ser laico. Nada de pastores!”, se revolta. Ao seu lado, outro papa das caçarolas, Elia Schramm, do Laguiole, – que ganhou em 2015 o prêmio Beber & Comer de ‘Chef Revelação’ –  é contumaz provando que o palanque chegou às panelas: “A arte pode trazer luz ao civismo”.

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Tem civismo radical na cozinha! No ArtRio, Olivier Cozan (esq.) e Elia Schramm (dir.) dividem opiniões políticas que fariam a alegria da Rainha de Copas (Foto: Rodrigo Simões para Ás na Manga)

Outro francês, o galerista de mãe brasileira Nicholas Martin Pereira, da parisiense Galerie Bernard Ceysson (que tem braços na Suíça e Luxemburgo), representa na feira o artista Claude Viallat. um dos fundadores do grupo Supports/Surfaces. Como alguém nascido e criado num país que exerce forte sentido de cidadania, mas que também é berço das artes, é enfático: “A arte possibilita esse depuramento do olhar político porque nos faz olhar para a alma”.

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Nicholas Martin posa na frente da obra de Claude Viallat antes de discorrer sobre a relação sobre arte e política (Foto: Rodrigo Simões para Ás na Manga)

Família que faz arte unida permanece unida. Outra ex-modelo que ainda exala o frescor dos tempo de set fotográfico, a loura Ludmila Bruscky nunca abandonou o mundo da moda: depois de passar pela Animale, é estilista na Osklen. Ao lado da filha Bettina e do “namorido” Jayme Nigri, empresário, ela vai direto ao pote: “A arte educa. E educação é o mote para exercer a cidadania com responsabilidade. O amado completa: “Arte é cultura, informação, conhecimento. A chave da reflexão”.

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Família artsy posa na frente do tríptico “Skylines”, de Eduardo Coimbra: ao lado da filha da namorada Bettina, Jayme Nigri (esq.) e Ludmila Bruscky (dir.) acreditam na arte como conhecimento que favorece a consciência política (Foto: Rodrigo Simões para Ás na Manga)

Com ar da detetive fictícia Miss Marple, interpretada em famosa série de TV por Angela Lansbury, a ex-funcionária do Museu Histórico Nacional Nancy Mirtle conferia a feira com a filha e deu aquela pausadinha esperta para recuperar o fôlego. Foi nessa hora que o ÁS a abordou. A resposta vem em sintonia com a família de Ludmila: “Se houvesse mais educação, a cena política carioca e nacional seria tão diferente…”

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Com aquele jeitão de personagem de Agatha Christie com direito até a bengala, Nancy Mirtle aposta na educação como solução para uma urna decente no Rio de Janeiro (Foto: Rodrigo Simões para Ás na Manga)

Também funcionário público, Marcos Leandro Furtado Esquerdo investe no mimetismo para se camuflar no banco na mesma cor. Mas, na hora de opinar sobre consciência política, ele mostra a cara: “O melhor legado da arte é o espírito crítico. Esse olhar deve ser muito útil nas urnas”.

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Na cadeira exposta no espaço do Atelier Hugo França, no IDA, Marcos Furtado Esquerdo dá a deixa para votar bacana nesta eleição para prefeito do Rio (Foto: Rodrigo Simões para Ás na Manga)

Walking on the wild side: na MyCasa Art Galery, a instigante designer de interiores Cristiane Tavares lança sua plataforma: “O carioca poderia se interessar mais pela arte. O Rio não é só mar, praia, samba, corpos ardentes, esporte. Tudo isso dispersa, mas a arte aglutina e reflete num comportamento politicamente atuante, nada alienado”.

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Penteado radical e tatuagens dão a dica: Cristiane Tavares aposta no afastamento da tríade “samba, suor & ouriço” em prol de um caminho politicamente proveitoso para os cariocas: “Arte é reflexo do pensamento analítico que converge em eleições sábias” (Foto: Rodrigo Simões para Ás na Manga)

Diante do grafite de TOZ, o fashionistérrimo consultor do varejo de luxo Beto Silva envereda pela camuflagem no visual, mas não na opinião: “Dar valor à cultura, frequentar museus e exposições, ser rato de mostras é ampliar horizontes que desembocam na urna consciente”, explica didaticamente, com aquele ar professoral de quem usa a moda e a arte pra ocupar seu lugar no espaço.

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Diante da coloridérrima obra-prima de TOZ e tão cromático quanto esse artista urbano, Beto Silva é preto & branco na hora de dar a deixa para uma postura eleitoral decente (Foto: Rodrigo Simões para Ás na Manga)

Num programa-família com as filhotas, a gerente de marketing Kiki Simões é do tipo que cria, elucubra e devaneia no dia a dia da profissão. Sua percepção analítica é aliado forte da inteligência emocional e da criatividade no shopping de luxo para o qual trabalha. Ela estende essa vivência pessoal à trilha para quem pretende rumar ao voto bacana: “Questão de prumo: cultura faz a gente pensar fora da caixa. Ser diferente e ter cabeça aberta ajuda muito a parar e pensar. E a arte é veículo para tal”.

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Detentora de um sorriso tão italiano quanto a Monalisa, Kiki Simão celebra o pensamento fora do padrão como canal para o voto consciente (Foto: Rodrigo Simões para Ás na Manga)

Metade do impagável quarteto por trás do Rio Moda Rio, o estilista e ativista Carlos Tufvesson (esq.) e o diretor de arte Gringo Cardia (dir.) são unha e carne na hora de estabelecer o caminho das pedras para uma eleição digna para prefeito: “O Rio tem potencial enorme para a arte. É sua vocação. E a experiência nesse campo depura a visão política, como inhame afina o sangue”, lança o primeiro. Cardia completa: “A arte constrói, molda, educa, formata”.

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Carlos Tufvesson (esq.) e Gringo Cardia (dir.) acreditam que a própria natureza artística do Rio já é um indicativo do quão a arte é importante para formar um sentido político nos cariocas (Foto: Rodrigo Simões para Ás na Manga)

Tudo joinha! Integrantes da turma que se exibe o Joia Brasil, dentro do IDA, Francisca Blanquier Bastos (esq.), Lucia Lima (centro) e Morena Lima (dir.), elas definem de que forma a arte influencia o faro político dos eleitores: “Beleza, correção e inspiração – da nossa cidade, inclusive – são fatores determinantes para que se encontre um viés decente na hora de votar”, afirma Francisca. Mãe  e filha, Lucia e Morena apostam na reflexão: “Cariocas têm espírito crítico, mas não sabem usá-lo. O uso-fruto da arte pode ser o vetor que torna isso possível”.

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Da esquerda para a direita, Francisca Blanquier Bastos, Lucia Lima e Morena Lima poetizam o caminho para o carioca se tornar eleitor sadio: “O Rio é pura arte!” (Foto: Rodrigo Simões para Ás na Manga)

Outro expoente do jewel design presente ao evento, Nelusha Araújo não é mulher de meia-palavra: “A valorização da arte é essencial. Nestes últimos dias, pudemos contemplar e admirar uma amplitude enorme de expressões artística, de todo o sentimento que toda arte transmite. Essa é a sensação da qual devemos estar imbuídos também quando vamos às urnas: valorizar o nosso voto, que tem o poder da transformação”.

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Nelusha Araújo pensa que a valorização da arte é análoga à valorização do próprio voto do carioca: “Autorreconhecer o valor e importãncia da votação dá sentido ao exercício cívico” (Foto: Rodrigo Simões para Ás na Manga)

Diante dos quadros de Tinho, entre os quais sobressai o que reproduz as gêmeas-fantasma do clássico cinematográfico do terror O Iluminado” (The Shinning, de  Stanley Kubrick), o artista Alexandre Ephivos  crê na tendência de uma arte politizada: “Política se faz através da arte. Fato! Votar não pode ser horror, mas solução”.

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Todo de preto, Alexandre Ephivos pressupõe que a arte pode trazer um resultado mais colorido às urnas cariocas (Foto: Rodrigo Simões para Ás na Manga)

Alice de Andrade é cineasta recém-premiada no Festival de Brasília pelo doc 20 anos“, que arrebatou o Candango de ‘Melhor Trilha Sonora’ e o prêmio de ‘Melhor Documentário’ conferido pelo Cine Memória. Seu filme, sobre o a arte do amor em Cuba, lhe trouxe uma reflexão contundente: ‘É difícil amar por lá”. Quanto à arte como trampolim para o voto certo, a diretora é simplista, mas eficaz em seu parecer: “Arte torna pessoas melhores e pessoas melhores votam melhor”.

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Diante de um trabalho tão belo, a cineasta Ana de Andrade abre o sorriso, confirmando sua própria visão de vida: “A arte permite nos tornarmos melhores seres humanos” (Foto: Rodrigo Simões para Ás na Manga)

Em tempo: Apesar do dia chuvoso – ou também por conta dele –, este sábado (1/10) de virada de mês bombou na ArtRio. Confira abaixo algumas imagens exclusivas do evento (Foto: Rodrigo Simões): 

 

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