Esta última quinta-feira (6/10) foi decididamente o “Denis Villeneuve Day”. Poucas horas antes da abertura do Festival do Rio 2016, na Cidade das Artes, no Rio de Janeiro, que exibiu o novo filme do diretor franco-canadense, o mundo inteiro tinha sido avisado pela Warner Bros. que a sequência do mitológico Blade Runner, o caçador de androides– clássico de Ridley Scott que praticamente redefiniu a estética do cinema a partir dos anos 1982, agora revisitado sob a direção do mesmo Villeneuve – acabara de receber seu título definitivo: Blade Runner 2049. Mas o que também surpreendeu a imensa plateia reunida no belo templo de concreto da Barra da Tijuca e que não se intimidou com a chuva que desabou sobre o Rio na noite de estreia de A chegada (Arrival, 2016, FilmNation Entertainment/Lavar Bear Films/21 Laps Entertainment) foi o fala de abertura da diretora do evento e super produtora Walkíria Barbosa.

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A noite de gala da edição 2016 do Festival do Rio foi aberta por Cristiane Torloni (à direita), Mestre de Cerimônia, Ilda Santiago (ao microfone) e Walkíria Barbosa, diretoras do evento e Saturnino Braga, diretor-geral da Sony Pictures, distribuidora mundial de “A chegada”, filme inaugural da mostra que vai exibir 250 produções dos cinco continentes, durante 11 dias, em 25 cinemas do Rio (Foto: Virna Santolia para Ás na Manga)

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Denis Villeneuve, Ridley Scott, Harrison Ford e Ryan Gosling foram convocados pela Warner Bros. para ressuscitar o filme mais cult dos eighties. Poucas horas antes da abertura do Festival do Rio, o estúdio divulgou mundialmente o título definitivo da produção com estreia prevista para janeiro de 2018 – “Blade Runner 2049” (Foto: Divulgação/Warner)

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Desenho conceitual para a sequência de “Blade Runner 2049” cujas filmagens já começaram na Hungria sob um sigilo paranoico. Ford retorna – não se sabe se replicado ou não – como o detetive Rick Deckard. As participações de Ryan Gosling e Jared Leto também estão imersas em completo mistério. Agora, quem assume a direção é Villeneuve, enquanto Scott, criador do filme original, vai para a produção executiva (Foto: Divulgação/Warner Bros.)

Ao tomar o microfone no imenso palco da Grande Sala lotada, Walkíria foi logo avisando: “Hoje, decidi não falar de cinema. Esta noite quero falar de gente”. Em meio aos murmúrios de inquietação na plateia, Walkíria explicou o porquê dessa urgência: “O mundo vive hoje uma onda insuportável de intolerância. O drama dos imigrantes é um exemplo terrível dessa situação. Aqui, também, estamos perdendo a capacidade de dialogar e aceitar as diferenças, sejam quais forem. Nós, que trabalhamos com arte e entretenimento, não podemos assumir essa postura. Temos que estimular o diálogo e a tolerância”. Esse belo gesto de Walkíria deveria estar muito mais disseminado no seio de uma categoria de criadores responsáveis por agenciar idéias, valores e sentimentos, ao invés de aprofundar trincheiras.

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O diretor franco-canadense Denis Villeneuve de “A chegada” não se furtou em comparecer, mesmo que virtualmente, à noite de gala do Festival: como não pode se afastar das filmagens de “Blade Runner 2” na Hungria, mandou um simpático vídeo em que explica os fundamentos do seu último filme cuja première mundial ocorreu no Festival de Veneza em setembro (Foto: Divulgação)

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A infatigável dupla Ilda Santiago e Walkíria Barbosa que vem tornando possível o Festival do Rio há 18 anos. Entusiasmada com a maturidade atingida pelo maior evento cinematográfico do Brasil, Walkíria declarou ao ÁS após a sessão de “A chegada”: “Vamos trazer Denis Villeneuve ao Rio para mostrar seu “Blade Runner” no festival! (Foto: Virna Santolia para Ás na Manga)

Essa mensagem entrou como uma luva na noite de cerimônia que ainda tinha pela frente a projeção de uma obra de ficção-científica com uma pegada, digamos, mais “filosófica”, na linha aberta por 2001-Uma odisséia no espaço (1968) de Stanley Kubrick, ou mais “humanista” e sentimental, típica do registro de Steven Spielberg em Contatos imediatos de terceiro grau (1977) ou E.T.– O extraterrestre (1982), obras-primas de fantasia que discutem a abissal solidão do espaço, atenuada por um eventual encontro, convívio e cooperação entre nós – terráqueos – e alienígenas que certamente devem estar nos espiando neste exato momento, assim como nossos cientistas buscam desesperadamente sinais de vida fora do nosso cercadinho insignificante, neste lado da Via Láctea.

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Ficção-científica para adultos, “A chegada” significa uma guinada na filmografia de Denis Villeneuve, consagrado mundialmente através de poderosos dramas como “Incêndios” (2010) e thrillers como “Os suspeitos” (2013) e “Sicário: Terra de Ninguém” (2015) (Foto: Divulgação)

Confira abaixo o trailer oficial de “A chegada” (Divulgação):  

Entretanto, “A chegada” não consegue repetir o impacto e a catarata de reflexões que até hoje esses clássicos do século passado provocam dentro da gente, o que parece não perturbar muito o diretor Denis Villeneuve, um humilde admirador da obra de Kubrick e Spielberg, apesar do êxito que o seu próprio filme vem obtendo nos principais festivais em que se apresentou como o de Veneza – em que foi nominado ao Leão de Ouro, mas de onde saiu com um prêmio secundário –, Toronto, Telluride e Londres. Em que pese todo o esforço de produção, a bela e minimalista direção de arte e a contida interpretação da maravilhosa Amy Adams, o que impede “A chegada” de se ombrear aos títulos mencionados acima é mesmo o roteiro de autoria de Eric Heisserer, adaptado do conto Story of your life do premiadíssimo escritor sino-americano de ficção científica Ted Chiang, também graduado em Ciências da Computação, e publicado em 1998.

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Em “A chegada”, Amy Adams é a Dra. Louise Banks, linguista recrutada pelas autoridades militares americanas para a missão quase impossível de estabelecer um elo de comunicação com alienígenas em misteriosa visita à Terra (Foto: Divulgação)

O tropeço de Eric Heisserer acontece na tentativa de costurar convincentemente a tragédia pessoal da Dra. Louise Banks (Amy Adams), renomada linguista, que perdeu a sua única filha para um câncer devastador, com a tragédia de uma humanidade autodestrutiva comandada por líderes e generais toscos, totalmente incompetentes para lidar com a possibilidade de um contato de terceiro grau com “o outro” e – mediocridade ainda pior – de vislumbrar a janela que esse encontro com extraterrestres pode oferecer no processo de compreensão da nossa finalidade no universo, se é que há alguma.

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As criaturas interplanetárias do filme de Villeneuve – semelhantes a gigantescos moluscos – aparecem sempre envoltas sob espessa bruma. Sua “escrita” se forma no ar através de delicados espirros circulares de tinta que logo se desvanecem (Foto: Divulgação)

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Curiosamente, a estátua instalada no foyer da Cidade das Artes, muito parecida com os feiosos alienígenas-moluscos de “A chegada”, não assustou ninguém após a projeção do filme. Cerveja e sanduíche de mortadela fizeram a festa de convidados e do público pagante, reunidos pela primeira vez numa cerimônia de abertura do Festival do Rio (Foto: Virna Santolia para Ás na Manga)

Depois que 12 gigantescas naves alienígenas se posicionam silenciosamente em atitude de espera pelos quatro cantos do planeta, como se propusessem um enigma aos terráqueos – lembrando o clima inquietante do clássico de 1951 O dia em que a Terra parou de Robert Wise, memorável exemplar da fornada de filmes de ficção científica gestados pela Guerra Fria na pós-Segunda Guerra –, a Dra. Louise é literalmente arrancada de sua amarga solidão, representada pela despojada casa que habita na margem de um melancólico lago, para ser arrastada por uma força-tarefa do Departamento de Defesa até uma desolada planície no estado de Montana sobre o qual paira uma das sombrias naves em forma de concha. Sua tarefa, ao lado do matemático Ian Donnely (Jeremy Renner), é tentar decifrar os sinais gráficos emitidos por alienígenas em forma de polvo que recepcionam a cada 18 horas os terráqueos no interior da nave para confabular.

O clima de suspense e de thriller é instaurado na trama quando os chineses e os russos, que também receberam o mesmo tipo de visita em seus respectivos territórios, começam a perder a cabeça diante dessa angustiante tensão e pensam em partir para o confronto bélico, contaminando assim o resto da população do planeta que mal consegue reprimir seus impulsos de destruição e de intolerância ao “diferente”. O crítico Carlos Helí de Almeida habilmente definiu “A chegada” como se fosse uma espécie de “Contatos imediatos de terceiro grau” dirigido pelo Terrence Malick, de A árvore da vida (2011). Seria um ótimo cruzamento artístico, se as várias analogias estabelecidas entre o mundo subjetivo da linguista e o desafio colossal em se encontra uma humanidade completamente despreparada para alargar a concepção do universo que ela mesma habita coubesse no espaço de 116 minutos de projeção.

O MAGO DA LIGHT ART

Toda a conceituação visual de “A chegada” foi inspirada no trabalho do artista norte-americano James Turrell, um dos fundadores do movimento light art dos anos 1960 que trabalha com a materialidade da luz em espaços especialmente concebidos e iluminados com o objetivo de proporcionar experiências físico-emocionais. Astrônomo amador, Turrel afirma que pensa a sua arte como uma forma de “transportar as pessoas para o céu”. Conheça algumas obras desse artista, hoje septuagenário, mas super inovador (Fotos: Reprodução): 

Como não coube, a saída foi acelerar a parte final do filme com clichês narrativos e com o apelo a um sentimentalismo fácil que acabam atropelando as premissas tão belamente colocadas na parte inicial da obra. Mas, “A chegada” vale ser prestigiada pelo seu criativo espetáculo visual, pela ressurreição que faz da abordagem adulta no campo da ficção científica no contexto de um mercado entupido de repetitivas explorações trash-juvenis, e também pelos “big eyes” de Amy Adams.

DEPOIS DE “A CHEGADA”, A POLÊMICA

O público que lotou os 1250 lugares da Grande Sala da Cidade das Artes saiu, em geral, desconcertada com a aventura filosófica-catártica de Amy Adams com seu amigos interplanetários. ÁS ouviu algumas personalidades cinematográficas pescadas entre o respeitável público:

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Eterna Tieta, Betty Faria, admitiu: “Embora eu não seja uma grande apreciadora do gênero de ficção-científica, é evidente que Denis Villeneuve domina os recursos do cinema o suficiente para nos segurar por duas horas numa poltrona” (Foto: Virna Santolia para Ás na Manga)

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Steve Solot, presidente do Rio Film Commission do Município do Rio de Janeiro e Kate Lyra, do Centro Latino-americano de Treinamento e Assessoria Audiovisual (LATC), também gostaram de “A chegada”… (Foto: Virna Santolia para Ás na Manga)

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…já Hernani Heffner, curador adjunto e conservador-chefe da cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, nem tanto (Foto: Virna Santolia para Ás na Manga)

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O produtor cultural Adailton Medeiros do Ponto Cine saudou a primeira incursão de Denis Villeneuve na ficção-científica como uma muito bem-sucedida “síntese de questões cósmicas com a vida emocional do ser humano” (Foto: Virna Santolia para Ás na Manga)

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Cátia Castilho, coordenadora de produção do Curso de Cinema da Estácio, maravilhou-se com as possíveis metáforas embutidas no filme e que podem ser reinterpretadas de diferentes formas nos planos espiritual, mitológico e até numerológico (Foto: Virna Santolia para Ás na Manga)

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