Os cinemas de arte do Rio de Janeiro andam exibindo uma peça de promoção do lançamento do filme Minha mãe é uma peça 2 em que o humorista Paulo Gustavo brinca com o estereótipo de que “público cabeça” gosta de cinema iraniano e – supostamente – desdenha o gênero brasileiro por excelência: a comédia escrachada. Na propaganda, o ator convida esse mesmo público a renunciar temporariamente aos seus “preconceitos” para cair de boca no mais rendoso filão do cinema nacional. Bem, justamente agora vai ser muito difícil essa mudança de hábito, pois os circuitos de salas de arte do Brasil estão lançando nesta quinta-feira (5/1) O Apartamento (The Salesman ou, em persa, Forushande, 2016), do premiadérrimo diretor Asghar Farhadi, e mais uma obra exemplar da mesma cinematografia que já nos proporcionou filmes como O Balão Branco(1995) e Taxi (2015) de Jafar Panahi, condenado a 20 anos de prisão domiciliar pelo regime iraniano, Gosto de Cereja (1997) de Abbas Kiarostami, falecido em julho do ano passado, ou os recentes O presidente (2014), do diretor auto-exilado na França Mohsen Makhmalbaf, e Nahid Amor e Liberdade” (2016) da diretora Ida Panahandeh, todos elevados a grandes sucessos pelos “cabeções” cobiçados pelo ator Paulo Gustavo.

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A produção franco-iraniana “O Apartamento” chega aos cinemas brasileiros coberta de prêmios conquistados em festivais internacionais, desde o mais importante deles – Cannes -, passando pelas mostras de Chicago, Mumbai, Munique e Valladolid, além das consagrações conferidas pelo National Board of Review e Satelitte Awards. Outros grandes triunfos são aguardados pois a obra é finalista na categoria de Melhor Filme Estrangeiro do Globo de Ouro e do Oscar da Academia (Foto: Divulgação)

Confira o trailer abaixo (Divulgação):

A primeira tomada de O Apartamento já aponta para o jogo cruel que Farhadi quer estabelecer entre vida e arte: num palco de teatro vazio vemos os cenários da peça A morte de um caixeiro-viajante”, drama seminal do americano Arthur Miller (1915-2005) que recebeu o Prêmio Pulitzer de 1949 e é considerada uma das mais devastadoras críticas às ilusões promovidas pelo american way of life. Do sombrio silêncio teatral que nos remete às melancólicas cenas de bastidor de Ingmar Bergman, somos abruptamente transportados para o caos de um prédio de apartamentos que literalmente está rachando ao meio e precisa ser evacuado no meio da noite – uma tragédia comum numa metrópole como Teerã, assolada pela transformação de antigos bairros em verdadeiros “paliteiros” de prédios construídos nas coxas. É desse episódio que emerge o jovem casal de classe média Emad (Shahab Hosseini), professor de literatura numa escola de segundo grau, e Rana (Taraneh Alidoosti). A cada noite, ambos contracenam juntos numa montagem semi-profissional da peça de Arthur Miller, nos papeis principais – o fracassado caixeiro-viajante Willy Loman e sua envelhecida mulher Linda.

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Asghar Farhadi tem declarado que Teerã é uma personagem tão importante nos seus filmes como as de carne e osso. Em “O Apartamento”, a capital e megalópole iraniana de 16 milhões de habitantes que sofre com problemas crônicos de poluição, transporte e especulação imobiliária, é retratada com crueza invernal pelas lentes do consagrado fotógrafo Hossein Jafarian, o mesmo de “Através das Oliveiras” (1994) de Abbas Kiarostami. A descaracterização urbana e a péssima qualidade das construções habitacionais são temas de fundo desta última obra-prima de Farhadi (Foto: Reprodução)

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A química entre os dois atores protagonistas de “O Apartamento”, Shahab Hosseini e Taraneh Alidoosti, é perfeita, até porque já trabalharam juntos na tv e em outro filme do diretor Asghar Farhadi “À procura de Elly” de 2009, exibido no Brasil no ano seguinte. Shahab desistiu da formação em Psicologia na Universidade de Teerã para tentar a imigração para o Canadá, mas acabou como locutor e ator de séries de tv até sua estreia no cinema há 15 anos (Foto: Divulgação)

No roteiro primorosamente construído – que valeu ao diretor o prêmio dedicado a essa categoria no Festival de Cannes –, o casal é obrigado a aceitar a oferta do produtor da peça, Babak (interpretado pelo maravilhoso ator Babak Karimi) e morar de favor num apartamento de sua propriedade de onde a inquilina anterior saíra abruptamente, deixando para trás parte dos seus pertences que sugerem que naquele local ela levava uma vida, digamos, “equívoca” para os rígidos padrões iranianos. É a partir deste ponto que O Apartamento assume o ritmo de um eletrizante thriller movido por uma das mais clássicas receitas de Alfred Hitchcock: a fatal combinação da imprudência com o engano e o acaso. Certa noite, Rana – a caminho do banho – libera a porta da rua do prédio através do interfone, pensando que é o seu marido que está subindo sem as chaves. Ainda por cima, ela deixa a porta do seu apartamento entreaberta. Através de uma sequência de planos que nada mostram, mas sugerem tudo, e que faria o Mestre do Suspense morrer de inveja de Asghar Farhadi, somos informados que seu banho foi violentamente interrompido por algum invasor.

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No último Festival de Cannes, “O Apartamento” foi duplamente laureado: Melhor Ator para Shahab Hosseini e Melhor Roteiro, de autoria do próprio diretor Asghar Farhadi (Foto: Reprodução)

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Taraneh Alidoosti – filha do ex-jogador da seleção de futebol do Irã Hamid Alidoosti, hoje um reputado técnico no país – começou com a carreira de atriz aos 16 anos de idade. Em 2002, consagrou-se como intérprete cinematográfica no seu filme de estreia “Man, Taraneh, Panzdah Sal Daram” pela qual recebeu o prêmio de Melhor Atriz do Festival de Locarno. É colaboradora habitual do diretor Farhadi para o qual já atuou em outras três obras (Foto: Divulgação)

A partir desse episódio o filme passa a ser norteado pela premissa da vingança da “honra ferida” – não a da mulher sufocada pela vergonha e por um silêncio angustiante que parece esconder um segredo – mas a do “macho”, a do marido aparentemente liberal, mas que no fundo de si consome-se no mais ancestral código de honra. Uma teia quase labiríntica de sub-tramas esculpidas com precisão e conduzidas habilidosamente pelo artesanato cinematográfico de Asghar Farhadi empurra o casal de volta ao apartamento evacuado e semi-arruinado do início da história – terrível metáfora das destruições íntimas de Emad e Rana, ou de Willy e Linda? – e para um final que torce impiedosamente a corda emocional do público até o último segundo sem deixar de nos propor uma reflexão dolorosa sobre a nossa própria condição.

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“O Apartamento” é o quarto filme de Asghar Farhadi indicado pelo Ministério da Cultura do Irã para disputar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e, desde já, garantiu um lugar entre os nove finalistas da Academia deste ano. “À procura de Elly” (2009) e “O Passado” (2013) também conquistaram esse privilégio, mas foi “A Separação” (2011) que finalmente arrebatou o Oscar, além de outras 77 premiações mundo afora (Foto: Reprodução)

A crítica internacional presente nos grandes festivais em que “O Apartamento” foi exibido exaltou as qualidades excepcionais desta obra, mas com a ressalva de que ela não chegou perto da perfeição obtida em A Separação de 2011. No ano seguinte a este lançamento, a revista Time colocou Asghar Farhadi entre as 100 personalidades mais influentes do mundo e “A Separação” começou a ser considerada uma das obras mais importantes do cinema contemporâneo mundial. Depois de ter atingido esse patamar, Farhadi tem encontrado dificuldades – pelo menos diante da crítica – em despertar o mesmo entusiasmo superlativo. O belo e emocionante O Passado (2013) com Bérénice Bejo, rodado logo em seguida na França, ressentiu-se especialmente dessa injusta cobrança.

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Impossível se esquecer da excepcional dupla de intérpretes de “A Separação”, Leila Hatami e Peyman Moaadi, que foram honrados com pencas de prêmios de melhor interpretação, inclusive no Festival de Berlim de 2011. Talvez a sólida formação teatral do diretor Asghar Farhadi explique a sua maestria na condução de todos os seus atores na tela, principalmente na caracterização da vida conjugal. Nesse sentido, Farhadi é um genial discípulo de Ingmar Bergman (Foto: Reprodução)

Entretanto, a carreira de “O Apartamento” prossegue brilhantemente. Sua próxima etapa é o Beverly Hilton Hotel, em Beverly Hills, a cidade-condomínio das estrelas de cinema. Lá, no próximo domingo, acontecerá a cerimônia de entrega dos Globos de Ouro, conferidos pela colônia de jornalistas cinematográficos estrangeiros instalados em Los Angeles e considerados um dos termômetros mais confiáveis para antecipar as premiações da Academia de Hollywood, em fevereiro. Conseguirá a cinematografia iraniana superar-se mais uma vez sob a batuta de Asghar Farhadi?

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O grande obstáculo de “O Apartamento” rumo à conquista do prêmio de Melhor Filme Estrangeiro tanto na cerimônia do Globo de Ouro, no próximo domingo, como na do Oscar (26/02), é a comédia dramática alemã “Toni Erdmann” da diretora Maren Ade. Outro forte oponente nessa categoria do Oscar é o canadense “É apenas o fim do mundo” de Xavier Dolan, enquanto no Globo de Ouro o francês “Elle” de Paul Verhoeven e o chileno “Neruda” de Pablo Larraín podem surpreender (Foto: Reprodução)

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