*Por Andrey Costa e Alexandre Schnabl

Esse ano o red carpet do MET Gala 2019 foi pink. Rosa camp, com maxi paetês e fascinator de dois metros no coco da cabeça, com uma pluma gigante, do tipo que faria a alegria das drags americanas Divine e RuPaul, do pianista Liberace, da Gretchen conga la conga, de Carmen Miranda, da pin-up Dita Von Teese, da decoradora paulistana Brunete Fraccaroli , do topete de Trump, da performer Viktoria Modesta, do carnavalesco Milton Cunha e até das lendárias Lola Batalhão e Isabelita dos Patins, no Rio. Só faltou Iris Apfel. O baile do Metropolitan Museum of Art, em Nova York, rolou nesta noite de segunda-feira (6/5), como acontece toda primeira semana de maio. Como de praxe, as celebs mais closeiras do rolê foram convocadas pela big mama Anna Wintour para ajudar a dar aquele up no evento, sempre ávido em convidar milionários dispostos a fazer doações generosíssimas à instituição e, na contrapartida dos 35 mil dólares de tíquete, se satisfazerem com o bem-bolado de alimentar o ego e abusar do marketing pessoal para fazer network. Pinta is business. O pitoresco agora ficou por conta do tema da vez, do badalo e da exposição (vista em primeira mão pelos presentes), “Camp: Notes on Fashion“, pensada a partir do estudo de 1964 da escritora ativista e crítica de arte Susan SontagNotes on camp“. 

Uma das madrinhas da gala (por que será?!?), Lady Gaga foi responsável por uma performance camp da melhor cepa no pink carpet. O estilão da encenação? Bom, Abigail Breslin na sequência-ápice de “A pequena Miss Sunshine” pode ter sido influência! (Foto: Reprodução / Instagram)

Evidentemente, não poderia haver melhor cenário que o tapete vermelho para a prática do camp, que segundo a pensadora que estabeleceu a derradeira bíblia sobre o assunto – a partir do consumo e da indústria cultural que explodiram na sociedade pós-guerra dos carros rabo de peixe e das enceradeiras cor de flamingo Electrolux –, versa em torno da estética do exagero, de performance vertida em crítica aos hábitos da sociedade capitalista e a partir dos desígnios de desejo da classe média em reproduzir o luxo através do banal. Por excelência (melhor, por natureza), o red carpet é o território do camp. Não um qualquer, mas “o tapete”, no qual o brilho, o glam, o ornato e o artificialismo que são marcas do estilo já ganham a devida dimensão normalmente, quase esbarrando no seu primo, o kitsch.

Moschino a granel: camp por excelência, a grife italiana compareceu em peso no Met Gala com modelitos de responsa (Foto: Reprodução / Instagram)

A opção pelo tema acabou se revelando tão nobre quanto arrecadar fundos para o Costume Institute, departamento de moda do museu e motivo do rega-bofe: em tempos de cafonice intrínseca, trazer aos holofotes a discussão sobre o que é camp. Os grupos de pagode dos anos 1990, os figurinistas de reality shows, como Dança dos Famosos e RuPaul’s Drag Race, e os criadores do visual da cantora Anitta, por exemplo, são PHDs. A festa de abertura, então, uma verdadeira experiência in loco sobre o assunto, capaz de deixar Sontag extasiada com a possibilidade conferir ali mesmo, na fogueira de vaidades, suas teorias estéticas. A despeito da expo – que deve render pano para mangas (bufantes, presunto e dignas de uma Branca de Neve drag, como convém à temática) – a mostra é super válida, apresentando peças de estilistas como Alessandro Michele, da Gucci, dos couturiers  holandeses  Viktor & Rolf e do estilista espanhol mais camp everAlejandro Gómez Palomo da marca Palomo.

A rapper Lizzo assumiu aquela Barbie poodle que existe dentro de todos nós! (Foto: Reprodução / Instagram)

Como todo evento desse naipe que se preze, sempre há aquela gafe fashion homérica ou passagem icônica pelo tapete vermelho, que fica para posteridade. Seja pelo mico ou pelo acerto. Tipo a Björk com vestido de ganso chocando seus ovos no tapete vermelho do Oscar, blasfemando entre as atrizes que passaram o ano inteiro decidindo qual label envergar, lembra? Pois bem, teve gente que ao invés de focar na teatralidade do tema, nas soluções simplificadas de uma suposta visão de refinamento e nas incontáveis possibilidades do estilo, caiu na arapuca do Kitsch: ao invés de focar em Elke Maravilha, maior ícone do estilocamp tupiniquim, acabou numa viagem que mais lembrou o cantor brega Falcão. Para quem não sabe, embora a linha que separa esse do camp seja tão tênue quanto aquela que define se Miranda Priestly é vilã ou personagem cômica, o Kitsch vai além: ainda que definido pelas aspirações da classe média, ele não exerce necessariamente a crítica, mas se aprisiona no simulacro banal, ordinário e mal-feito, nunca alcançando nenhum valor além de imitação vagabunda do original. Grosso modo, é o sapo de louça com os sete anões adornando o quintal de uma casa de subúrbio. Cenografia de “A Grande Família“. Ou drinque com Curaçao Blue e muito leite de onça oferecido com catuaba e festa cafona metida a exótica. Ou mesa de comida japonesa em churrascaria popular. Referências não faltam, e basta olhar embaixo para ver o quão as celebrities escorregaram no quiabo do Sidney Magal. Sem mais delongas, confira os destaques do ÁS!

Looking good and feeling fine! Um, dois, três… quatro looks! Esse foi o total de trocas de roupa feito por Lady Gaga para o Costume Institute Gala desse ano. Apesar do tamanho, a “Mother Monster” sabe como causar. Chegou acompanhada de bailarinos segurando sua calda e guardas-chuva. Look-performance e uma tropa de serviçais que rivalizou com o cortejo do monarca da Tailândia nesse finde. Feito uma matrioshka de luxo, foi descascada em plena escadaria do MET, se revelando, no inicinho, um pastriche camp do balé ultra camp de Marilyn Monroe em “Os Homens Preferem as Loiras” (1953). A kiss in your hand is quite continental… (Foto: Reprodução / Instagram)

Prato cheio para os fotógrafos, Lady Gaga rouba a cena ao realizar suas quatro trocas de roupa em pleno tapete rosa do MET Gala 2019 (Foto: Reprodução / Instagram)

Desempoeirando uma de suas perucas da era “The Fame“, que marcou seu début musical, Gaga fez caras e bocas de pin-up enquanto performa suas trocas de roupa (Foto: Reprodução / Instagram)

Incorporando uma Bettie Page do século 21, Lady Gaga faz gracinha no MET Gala 2019 com seu carrinho de espumantes e acessórios. No próximo carnaval, a pop star já pode até vir ao Rio faturar uma nota preta nos bloquinhos, no posto de ambulante de breja (Foto: Reprodução / Instagram)

Donatella Versace é Camp ou Kitsch? A mélange rende discussão, mas Donata é Donata, mesmo beirando ao Kitsch. Com seu vestido Divine e, por quê não, maravilhoso?! Ela ainda causa quando resolve tomar uma brisa (Foto: Reprodução / Instagram)

Kitsch Perry, digo, Katy Perry apesar de ser Kitsch 99,9% das vezes, conseguiu ser camp essa vez. Salvando a noite de qualquer possível apagão, a moça foi ao evento vestida de lustre candelabro, tipo Versalhes e segurou as velas que pôde, já que foi sem o amado à festança. Já pode fazer figuração no elenco de criados enfeitiçados de “A Bela e a Fera” (Foto: Reprodução / Instagram)

Numa mistura de Globeleza com o Etevaldo do seriado “Castelo Rá-Tim-Bum” da TV Cultura, Cara Delevingne resolveu dar as caras (ba-dum-tss) e pisou no tapete do Baile do MET again. De bengalinha, para o caso de ficar cansadinha, a modelo e atriz encabeçou uma head piece cheia de dentaduras, bananas e ovos fritos com jeito de jujuba da Fini. Performou com o banal, foi camp! (Foto: Reprodução / Instagram)

Reforçando o veneninho que Paulina Rubio destilou sobre suas escolhas na hora de pisar num red carpet, Thalia escolheu um de seus looks do dia a dia, nada fora do comum para a diva latina que, sempre que pode, faz questão de ir à padaria vestida de carro alegórico. Porém, dessa vez o visual deu caldo. Foi o tema. Teria a intérprete de “Entre el Mar y una Estrella” encontrado seu real ambiance fashion? Ay, caramba! (Foto: Reprodução / Instagram)

Jared Leto está querendo que a Gucci mande jobs. O moço, que vem há várias temporadas sentando na primeira fila dos desfiles da label, perdeu a cabeça e tratou de permutar um lookinho para o Baile do MET com ela em mãos. Será que o astro vai perder a cabeça se não for convidado para estrelar a campanha? (Foto: Reprodução / Instagram)

Sabe quando você passa do ponto e toma muitos camparis? Num pé-sujo inferninho do Posto 4, em Copa? Quem sofre de labirintite não deve olhar fixamente por muito tempo para a make escolhida por Ezra Miller no MET Gala dessa ano, criada pela visagista Mimi Choi, que chegou a engolir o look Burberry. Desafiando o olhar humano, o rapaz fez mágica ao nos confundir. No final, o Flash acabou nos cansando a beleza. Very Camp. De quebra ainda havia uma máscara usada para revelar a face do ator, que de perto também não é normal. Arriscou na alfaiataria arrematada a um corset em pedraria (Foto: Reprodução / Instagram)

Às vezes o ditado falha: Deus dá asas a cobras sim! Billy Porter, que causou no tapete vermelho do Oscar 2019 de vestido e saltão, repetiu a dose no tapete rosa do Baile do MET. Chegou carregado feito Cleópatra… (Foto: Reprodução / Instagram)

Billy Porter, por fim, bateu asas e voou! Galinho Chicken Little? Cisne de balé? Mamãe-Ganso? Seriema do Pantanal? Björk? (Foto: Reprodução / Instagram)

Eu ouvi “Camp”? Campbell? Miss Naomi Campbell trocou as bolas e achou que a festa era para ela envergar mais um de seus costumes de nos deixar de queixo caído. Nem a peruca ela fez questão de mudar. É, até esbarra no camp pelo exagero, no patamar padrãozinho do red carpet. A nêga esqueceu que, dessa vez, os decibéis precisavam berrar mais… (Foto: Reprodução / Instagram)

De Mulher-Maravilha a Garota-Cafonalha: Lembram do arquinho deluxe da Givenchy que o ÁS destacou como hit do Carnaval das ricas? Gal Gadot fez questão de encabeçá-lo e de quebra, como uma fiel seguidora de Blair Waldorf da série “Gossip Girl“, levou sua própria “Dorota” de bônus para dar pinta no festão (Foto: Reprodução / Instagram)

Có Coró Cóóó! Cardi B é o arroz da festa, ou melhor, o milho! Milho do bom, nada transgênico. Envergando um vestido de nada mais, nada menos que 3 metros de comprimento e com mais de 30 mil penas de galo recheando a cauda, em organza de seda, a rapper fincou o pé no posto de fashionista camp nata. Que a Luisa Mell não cruze o caminho de Cardi (Foto: Reprodução / Instagram)

Celine Dion, que virou uma espécie de Amin Khader fashion nos últimos anos, estava golden power! Diferente da nuvem pesada que foi Zendaya, Celine choveu em franjas e botou as pernocas para jogo. Afinal, como ela mesma canta: “I’m Alive, alive, alive…” (Foto: Reprodução / Instagram)

Anna Wintour apostou nas plumas para não errar. Tirou até os seus famosos óculos-máscara Darth Vader para conseguir atestar com os próprios olhos o que os convidados escolheram para vestir. Pela cara dela, estava a-man-do! (Foto: Reprodução / Instagram)

Puxando o bonde das beldades desavisadas, Candice Swanepoel foi toda “basiquete” ao evento que é considerado o Oscar da Moda. Bom, não conseguiu interpretar o tema. Até que ponto o combo cauda farta & pernoca de fora segura essa onda? De camp, só mesmo o trio pega-rapaz na testa! (Foto: Reprodução / Instagram)

Mais do mesmo: ao fazer o seu milésimo check-in no Baile do MET, a über model Gisele Bündchen também tentou se garantir no carão, envergando mais um de seus vestidos sustentáveis-veganos-livres de glúten e sem conservantes. Rodopiou horrores no plissadinho rosinha da Dior, tipo um derviche de delirium tremens turco… (Foto: Reprodução / Instagram)

Carol Trentini, a modelo queridinha de Anna Wintour, sacudiu o esqueleto em um look tão cool, tão babadeiro, tão camp, que foi escolhido a dedo pela editora de moda da Vogue America para integrar o acervo do museu. A criação é do estilista Thom Browne e foi arrematada por joias H.Stern. Luxo define.  (Foto: Reprodução / Instagram)

Tem vezes em que Deus realmente não dá asas à cobras: Julianne Moore envergou um dos vestidos mais babadeiros que a Valentino apresentou na Semana de Alta Costura de Paris, mas ficou por isso mesmo. Sabe quando a roupa veste a pessoa, e não o contrário? No caso, a montação da estrela acabou ficando com cara de Babado da Folia, loja carioca que vende lamê para fantasia de carnaval (Foto: Reprodução / Instagram)

Look-manifesto? Teve também! Numa das entradas mais impactantes no evento, a sempre sensacional Lupita Nyong’o surgiu como uma “Maria Antonieta” contemporânea, com um penteado puro black power, arrematado com pentes para cabelos crespos pintados de dourado e com o punho cerrado que representa o movimento que defende o emponderamento das madeixas afro. Por isso, escolhemos amar Lupita, que num lookinho Versace, nos brindou com a mensagem de moda mais significativa da noite de ontem (Foto: Reprodução / Instagram)

Zendaya tentou… nós não entendemos exatamente o quê, mas ela tentou. Sua Cinderela de Chernobyl até renderia, se a moça não tivesse se transformado numa nuvem carregada, pronta para arrear o toró em pleno tapete vermelho (Foto: Reprodução / Instagram)

Talvez a poc madrinha dela tenha detestado o vestido e lhe lançado um feitiço fashion… (Foto: Reprodução / Instagram)

Zendaya jurou que estava abafando de Cinderela, quando na verdade o look já tinha virado abóbora, amor. Kitsch da noite perde! (Foto: Reprodução / Instagram)

Casal laquê: Cole Sprouse e Lili Reinhart apostaram nas flores e nos fixadores de cabelo. Lili também inspirou-se na rainha francesa Maria Antonieta. Já o rapaz ficou parecendo a Anna de “Frozen“cantando numa churascaria..Let it go! (Foto: Reprodução / Instagram)

Jordan Forth incorporou o espírito camp e envergou um costume Iris Van Herpen suuuper basiquinho, né? Ao abrir asas feito um pardal, o editor da Vogue Runway nos brindou com uma peça feita com base na técnica “tromp l’ oeil’“, que consiste na criação de uma ilusão de ótica que varia de acordo com a perspectiva (Foto: Reprodução / Instagram)

Dua Lipa adentrou o MET com uma lace power.,Estaria debaixo dela escondidinho o novo álbum da cantora? Já o look, Versace, amor!!! (Foto: Reprodução / Instagram)

Da mesma forma que nós não entendemos as gêmeas Mary-Kate e Ashley Olsen terem chegado aos 250 anos tão conservadas, nunca compreenderemos seus looks. As moças já foram mais dedicadas e sempre presenças aguardadíssimas. Como diria Clodovil: “esta festa virou um velório”com esse visual “Carrie Bradshaw encontra Mortícia em Matrix” (Foto: Reprodução / Instagram)

Apesar de desafeto, achamos que Kate Moss fez compras junto com a Gisele para ir ao MET Gala 2019. A capa ok, está em alta. E ela pode. Mas, cadê as estampas de oncinha que Moss ama soltar? Cadê as galochas misturadas com alta costura? Cadê as pérolas, Katita? Estaria Lila Moss surrupiando o guardarroupa da mamãe agora que também é modelo? (Foto: Reprodução / Instagram)

Uma queen burlesca é sempre uma queen burlesca! Violet Chachki, drag queen vencedora da sétima temporada da RuPaul’s Drag Race, envergou um dos vestidos mais divertidos da noite, com uma calda que virava uma longa luva feminina. O tapa de luva de pelica na cara foi tão forte, que não sabemos se o cantor colombiano Maluma ficou apenas embasbacado ou se ele já estava a serviço dos encantos de Miss Violet, a fashion queen mais icônica que já cruzou as escadas do MET (Foto: Reprodução / Instagram)

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