Nem sempre Hollywood consegue do fubá original fazer render um  bom angu. É o caso de A Torre Negra” (The Dark Tower, de Nicolaj Arcel, Universal Pictures, 2017), que entra nesta quinta (24/8) em cartaz nos cinemas. Saga escrita por Stephen King por décadas que rendeu oito livros, amealhou fortuna e equiparou o autor a J.R.R.Tolkien no sentido da criação de um complexo universo, o best seller tinha tudo para se tornar blockbuster. Só que não. Considerada sua obra-prima, com nuances de fantasia, terror, faroeste e aventura juvenil ao sabor dos anos 1980, é justamente dessa indefinição de gênero que a produção amarga nessa tentativa de dar o pontapé inicial numa franquia cinematográfica.

Pior, o longa-metragem não permite ao público vislumbrar realmente o que seria aquele intrincado multiverso no qual, no centrão, reside a tal torre responsável por impedir que as trevas penetrem em seu interior e afetem o equilíbrio de múltiplas realidades paralelas.

É recorrente na obra de King o tema da escuridão que está sempre à espreita de uma bobeira nossa para tomar conta do mundo. Costuma servir como alegoria para o domínio do mal, em escala individual e cotidiana, que pode ser apossar até dos mais bem intencionado dos cavaleiros templários. Vale lembrar que o escritor é aquele estadounidense mediano moralista afeito a esse tipo de questão e, talvez sem se dar conta, dominado por um americanismo classe média que causaria cócegas em “gente do mal” muito mais cínica,  como Truman Capote ou Gore Vidal.

Geralmente, acerta no caldo o diretor que sabe aproveitar nesse âmbito a história que tem nas mãos. Isso significa conseguir criar empatia com a plateia, fazendo-a tremer de medo diante da possibilidade de o fim do mundo se confundir seu próprio apocalipse psíquico interior. Ao apostar mais na fórmula de aventura teen explorando o clichezão do afeto que se forma entre o “menino órfão que é peixe fora d’água” e o “pistoleiro que perdeu o pai e quer salvar o universo”, Nicolaj Arcel deixa de explorar o potencial da obra original.

Não se sabe o faltou neste A Torre Negra“, ainda que persista ao longo da narrativa um simpático temperinho retrô do cinema comercial de trinta anos atrás. Orçamento para ir fundo na ideia, o que significaria explorar melhor o universo de Mid-World gastando muito mais numa penca em efeitos? Aposta para valer do estúdio? Carência de sensibilidade do roteirista Jeff Pinner? Falta de tempo do co-roteirista Akiva Goldsman que também é co-produtor do filme e está sempre num multiverso de projetos no cinema e TV? Ou mojo, como diria Austin Powers, o agente bom de cama?

Negro bola da vez no cinemão, o sempre bom britânico Idris Elba faz o que pode com o papel que lhe caiu na mão. Mas, nesse arquétipo do pistoleiro solitário, ele está apenas correto, tirando limonada de limão galego, já que o material original do livro se perdeu na adaptação.

Hoje supestar oscarizado, Matthew McConaughey talvez se saísse melhor como o diabo da história se tivesse levado a sério o personagem. Em tempos de vaca magra, ele teria dado seu próprio couro como em produções tipo Reino de Fogo ou Como perder um homem em 10 dias“. Depois do sucesso mainstream em longas como Clube de Compras Dallas e Interestelar“, ele parece debochar do vilão Walter quase como Marlon Brando fazia quando entrava numa realização somente para ganhar uns trocados a fim de conseguir pagar o condomínio do seu paraíso insular no Pacífico. Para dar vida ao tal Homem de Preto, McConaughey parece ter se inspirado nua versão maracujá de gaveta de um Jim Morrison com um toque pimp – cafetão novaiorquino. Faltou só chapelão de aba larga com a pena de faisão…

Confira abaixo o trailer oficial (Divulgação):  

Em tempo: o flerte do autor com o cinema nem sempre é garantia de qualidade. O selo Stephen King pode render frutos maravilhosos como a primeira Carrie“, O Iluminado“, A espera de um milagre ou a ótima versão de Frank Darabont para O Nevoeiro“. Ou até aqueles clássicos Classe B (C, D, Z…) que fizeram a alegria das plateias nos anos 1980/90, tipo Christine, o carro assassino” ou “Colheita maldita“. Mas também pode descambar para adaptações medíocres…

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