Já em cartaz nos cinemas, Orgulho e preconceito e zumbis” (Pride and Prejudice and Zombies, de Burr Steers, Lionsgate e outros, 2016) pega carona na atual febre dos mortos-vivos, mais vivos do que nunca no cinema e TV desde o famigerado 11 de setembro. O filme – baseado no bestseller de Seth Grahame-Smith que introduz o apocalipse zumbi no contexto do clássico literário de Jane Austen “Orgulho e Preconceito” e alcançou o terceiro lugar na lista de mais vendidos do New York Times – vai mais adiante no conceito que a maioria dos seus pares na cinedramaturgia atual, brincando com premissa interessante.

Orgulho preconceito e zumbis cartaz final

“Orgulho e preconceito e zumbis”: divertida adaptação do best seller que brinca com o choque entre classes e a aurora da modernidade no limiar do século 19, filme inclui os zumbis como epicentro das forças transformadoras da sociedade (Foto: Divulgação)

Assista ao trailer oficial legendado (Divulgação):

Para entender seu conteúdo, é preciso voltar no tempo até o início da década passada, quando os longas-metragens desse tipo saíram da pecha de “Filme B” para atingir o topo da cadeia alimentar hollywoodiana, com apetite mais voraz que o desses devoradores de cérebro. Considerado um nicho de público específico desde quando George A. Romero inseriu os ingredientes que tornaram o “filme de zumbi” um gênero, com seu clássico A noite dos mortos-vivos” (Night of the Living Dead, Image Ten e outros, 1968), essas realizações sempre se mantiveram na ativa, surgindo nas telas em quantidade elevada toda vez que o temor da plateia quanto a um possível caos social tomava proporções alarmantes, ainda que sempre na berlinda dos grandes estúdios.

Noite dos mortos vivos final

O mutirão dos defuntos do clássico “Noite dos mortos-vivos” (1968): longa-metragem de George Romero estabeleceu os parâmetros do gênero “filme de zumbi” com uma coleção de criaturas que ainda se movimentavam lentas quanto lesmas, mas que ganhavam da humanidade pelo número crescente de adesões involuntárias (Foto: Reprodução)

Para os especialistas da indústria cultural, o apelo desses filmes equivaleria à atração da audiência pelas realizações deflagradas pelo medo do apocalipse nuclear que tomou conta do mundo entre os anos 1950 e 1970, com a ameaça da Guerra Fria, e gerou uma série de espalhafatosas produções sci-fi, como “Guerra dos Mundos”, “O Planeta dos Macacos”, “A última esperança da Terra”, “O Ataque das Formigas Gigantes” ou “Invasores de Corpos“, todos lidando com o temor generalizado de que a civilização sucumbisse após uma hecatombe.

a ultima eperança da terra final

Misto de ocaso da civilização com filme de terror: com vilões que são o meio-termo entre vampiros e zumbis, “A última esperança da Terra” (The Omega Man, 1971) apresenta um solitário Charlton Heston como o derradeiro homem, imune a uma praga que transformou os poucos sobreviventes de um vírus em mutantes (Foto: Reprodução)

eu sou a lenda 2 final

Remake de “A última esperança da Terra” protagonizada pelo astro que substituiu Heston na árdua missão de salvar o mundo em Hollywood, “Eu sou a lenda” (I am the Legend, 2007) revitaliza a história do último sobrevivente da espécie humana num planeta devastado por uma praga (Foto: Divulgação)

Desprovidos de massa cefálica, mas ávidos por devorar cérebros (e outras partes menos privilegiadas do corpo humano, o que fez a alegria dos fornecedores de embutidos que proviam salsichas e bucho de bode para as cenas em que os mortos devoravam vísceras), os zumbis representam a horda de excluídos da sociedade que se revolta contra a ordem pré-estabelecida. Sem cabeça pensante, mas em número que cresce em progressão geométrica, como um incontrolável enxame capaz de destruir todas as instituições que tornam civilizado o moderno mundo do consumo.

O ápice desse cinema foi Zombie o despertar dos mortos” (Dawn of The Dead, 1978), no qual Romero extrapola sua capacidade crítica inserindo os sobreviventes em um shopping de luxo, espécie de Village Mall transformado em bunker no qual os mortos-vivos tentam desesperadamente ingressar, como se representassem a enorme gama da população sem direito às mordomias da vida moderna, destinadas aos poucos bem-nascidos. Enquanto isso, lá dentro, os humanos restantes se iludem procurando simular a confortável segurança de uma realidade que não existe mais.

zombie 1978 final

Com efeitos especiais deploráveis, litros de glucose de milho para simular sangue e maquiagem digna de Halloween caseiro, “Zombie – o despertar dos mortos” (Dawn of the Dead, 1978) se rapidamente tornou cult pelo roteiro inteligente e o alto teor crítico de cunho social que suplantavam seus defeitos de realização (Foto: Reprodução)

Quando a ordem mundial ficou comprometida com os atentados às Torres Gêmeas em Nova York, no limiar da década de 2000, os executivos dos estúdios perceberam aí uma nova possibilidade para encher a burra. Com a ameaça globalizada do terrorismo sem fronteiras atrelada à neurótica questão de não se poder confiar no vizinho ao lado – já que ele, quem sabe, poderia ser integrante de uma célula fundamentalista que promoveria o terror –, estavam lançadas as bases para uma das mais geniais investidas comerciais recentes do cinemão: tirar os zumbis do limbo dos produtos de consumo segmentado para inseri-los num espetáculo maior, alçando-os ao estrelato mainstream que até então pertencia somente aos vampiros. O estrondoso sucesso de Guerra Mundial Z” (World War Z, de Marc Forster, Paramount, 2013, estrelado e produzido por Brad Pitt) – com mais de US$ 500 milhões arrecadados – é a prova cabal de que os mortos-vivos nunca estiveram tão credenciados a frequentar o red carpet.

O galã Brad Pitt em duas cenas no filme de zumbi mais caro da história, cuja continuação se encontra em fase de planejamento:

Guerra Mundial Z final

O pesquisador da ONU especialista em doenças endêmicas interpretado pelo astro Brad Pitt observa de cima de um helicóptero o mundo devastado pela praga zumbi em “Guerra Mundial Z” (Foto: Divulgação)

Guerra Mundial Z 4 final

O belo e o bafo: cara a cara com o morto-vivo, Brad Pitt não explica como faz para segurar a respiração na hora de encarar a carniça putrefata em “Guerra Mundial Z”. Mistério… (Foto: Divulgação)

Em 2004, o então diretor estreante Zack Snyder dirigiu uma das produções mais aterrorizantes do gênero já realizadas, Madrugada dos Mortos” (Dawn of the Dead, Strike Entertainment e outros), um remake atualizado do antigo sucesso de Romero, com direito a zumbis tão ágeis quanto um maratonista. Desde então, Hollywood nunca mais foi a mesma e nestes últimos quinze anos os filmes de zumbi se multiplicaram na mesma proporção com que os mortos se reproduzem nas telas.

Atestado disso é a série televisiva The Walking Dead“, atualmente em sua sexta temporada, com mais duas já renovadas e o maior sucesso de audiência da TV norte-americana, à margem dos Emmys e Globos de Ouro, mas com uma média de 13 milhões de espectadores por episódio.

The walking dead final

Escatologia: com supervisão de maquiagem a cargo do mestre Greg Nicotero – um dos expoentes na caracterização de horror -, a série de TV “The Walking Dead” é sucesso atual na telinha… (Foto: Divulgação)

Walaking dead comics final

… seguindo os passos dos quadrinhos homônimos de Robert Kirkman, caso de repercussão editorial que encontrou desdobramento na produção audiovisual, com supervisão executiva do próprio criador (Foto: Reprodução)

Assista ao trailer oficial de “Madrugada dos Mortos” (Divulgação):

Todo esse blablablá até aqui existe para contextualizar “Orgulho e preconceito e zumbis” como uma deliciosa comédia de terror, que associa este gênero aos costume movies tão caros à cinematografia mundial. Parece uma ideia tosca? Nada disso. O ponto de partida é ótimo! Sem exagerar nos efeitos especiais, mas tirando proveito das pirotecnias típicas das coreografias de luta atuais, o longa deita em berço esplêndido na concepção de que os mortos-vivos seriam um elemento transformador que impulsionaria o Velho Regime para o centro dos acontecimentos da modernidade.

Tendo os não-mortos como uma massa crescente quase impossível de ser contida, a produção pinta e borda com a máxima de civilização relacionada ao sentido de refinamento cultural que se tornou vigente a partir do Iluminismo, a qual acadêmicos como o crítico de teoria literária Terry Eagleton fazem a festa. Em dado momento, são apresentados “zumbis aristocratas” que, para não perderem sua civilidade, são adeptos dos cérebros de porco (ao invés dos humanos), pouco se misturando à plebe. Ironia no melhor estilo inglês!

Orgulho preconceito e zumbis 6 final

Da esquerda para a direita, no centro da ação, Lily James (Elizabeth Bennet), Sam Riley (Coronel Darcy), Bella Heathcote (Jane Bennet) e Douglas Booth (Charles Bingley): contraste entre o estilo Império britânico e a praga zumbi causa o desconforto que permite vislumbrar aquele mundo em transformação (Foto: Divulgação)

Orgulho preconceito e zumbis 12 final

A ilustração dá o tom: hachura da publicação original de “Orgulho e preconceito e zumbis” confere a exata noção da mistura entre literatura clássica e um dos mitos mais prolíficos da indústria cultural atual (Foto: Reprodução)

Nesse âmbito, os códigos de comportamento inseridos na leitura de “Orgulho e preconceito” são respeitados à risca nesse mash up classic: luta de classes, inclusão social, o novo papel da mulher na sociedade e a idealização do amor como mola propulsora da existência são alguns dos pensamentos amplificados pela realidade de uma suposta Grã-Bretanha infestada pela praga zumbi.

Com as mais velhas Elizabeth e Jane à frente, as cinco filhas dos Bennet sintetizam tanto na obra de Jane Austen quanto no mash up “Orgulho e preconceito e zumbis” o papel que estava destinado à mulher no Novo Regime:   

E, se as cenas de turba não são exploradas ao extremo – o que pode desagradar a alguns fãs xiitas – por outro lado a requintada maquiagem renova a caracterização dos mortos-vivos. impregnando o conjunto daquela aura de obras de terror que marcaram o século 19, como nos contos de Edgar Allan Poe, tipo O Estranho Caso do Sr. Waldemar“. Ou até Oscar Wilde. Sim, alguns defuntos vivificados parecem saídos de pinturas como o infame retrato de Dorian Gray. Assustadores.

Orgulho preconceito e zumbis final

O primoroso trabalho de make-up de “Orgulho e preconceito e zumbis”: abrindo mão da caracterização escatológica das modernas produções do gênero, filme opta por caminho que associa a repugnância dos mortos-vivos à decadência do Regime Aristocrático (Foto: Divulgação)

Orgulho preconceito e zumbis 2 final

Decrépitos como os personagens de clássicos da literatura de horror – tipo “O retrato de Dorian Gray” e “O estranho caso do Senhor Waldemar” -, os mortos-vivos de “Orgulho e preconceito e zumbis” exalam a putrefação da antiga sociedade de classes (Foto: Divulgação)

Destaque no elenco, a competente Lily James dá corpo e voz à mocinha Elizabeth Bennet. Egressa de sucessos como a série de TV “Downton Abbey e do blockbuster “Cinderela” (Cinderella, de Kenneth Branagh, Walt Disney Pictures, 2015), a atriz parece fadada a seguir os passos de Keira Knightley, a inglesa que hoje domina a cena nas produções de época. Curiosamente, foi Knightley quem interpretou a personagem na última produção do clássico de Jane Austen, em 2005. Como a fila anda, tudo indica que a moça, agora prestes a completar 37 anos, será aos poucos substituída por James (exatos dez anos mais jovem) nesse tipo de empreitada cinematográfica. Sorte porque, afinal, Keira pode ser linda, mas Lily é muito mais talentosa.

Orgulho preconceito e zumbis 15 final

Lily James interpreta a mocinha de classe social inferior Liz Bennet em “Orgulho e preconceito e zumbis”: atriz inglesa é forte candidata a ocupar o posto de estrela das novas produções de época de Hollywood (Foto: Divulgação)

Em tempo, uma curiosidade tão infame quanto divertida: tida como proveniente da expansão comercial do Império Britânico rumo à Ásia, a praga, logo no início do filme, é sarcasticamente atribuída aos hábitos libertinos dos franceses, desde sempre bode expiatório dos conservadores ingleses em tudo aquilo que se refere às doenças venéreas. Maldadezinha…

Orgulho preconceito e zumbis 5 final

Blague: no prólogo da narrativa, uma vítima infectada de “Orgulho e preconceito e zumbis” revela sua face carcomida, com as fossas nasais aparentes, como se seu tormento fosse fruto de uma doença venérea em estado avançadíssimo (Foto: Divulgação)

Deixe seu comentário

Seu email não será publicado.