Estreia hoje nas salas de exibição do Brasil Os oito odiados (The Hateful Eight, The Weinstein Company, 2015), de Quentin Tarantino. Alardeado pelo diretor como ‘seu oitavo longa-metragem’, isso poderia soar pretensão – sobretudo se comparado com Fellini e seu 81/2 – mas trata-se de Tarantino e ele pode. De fato, o cineasta, que saboreia com orgulho sua cultura cinematográfica e o apreço por revisitar os gêneros, realizou um dos melhores filmes de sua carreira: um western spaghetti da melhor qualidade, no qual ainda homenageia o faroeste americano.

Confira abaixo o trailer de “Os Oito Odiados” (Divulgação):

Está tudo lá: a menção a John Ford, com a diligência percorrendo enormes distâncias no meio do nada e a amplitude das magistrais cenas externas que reduzem a insípida presença humana ao cocô do cavalo do bandido; a melancólica sensação de solidão em um ambiente inóspito, a tela ampla dividida em três como num filme de Nicholas Ray; a violência estetizada dos longas de Sam Peckinpah;  os movimentos lentos de câmera que revelam a tensão por trás dos olhares de caubóis que tentam, sem dar na pinta e através da percepção dos pequenos detalhes, captar o que realmente se passa à sua volta. Questão de vida ou morte, como num clássico italiano de Sergio Leone. Tem até a pouca (mas pontual, e por que não dizer fundamental?) presença feminina usada como um elemento tanto pragmático quanto misógino.

Abaixo a cena final do maior clássico de Peckinpah –  “Meu ódio será tua herança” (The wild bunch, 1969) –, no qual o diretor inaugura a maneira gráfica contemporânea de encenar os tiroteios e as mutilações, com litros de jatos de sangue em câmera lenta. Vale observar a cena em que William Holden é baleado covardemente pelas costas por uma mexicana. Ele se vira, explode a mulher e grita: “Bitch!”. Bloody Sam é tudo o que Tarantino quer ser quando crescer! Confira(Reprodução):

 

Confira abaixo a variedade de cartazes de “Os oito odiados” que reproduz a estética gráfica do western spaghetti (Fotos: Divulgação): 

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John Ruth (Kurt Russell) e a condenada Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh) são os personagens que deflagram a narrativa e se encarregam de apresentar ao público uma galeria de tipos que construíram a América, tão odiosos quanto desprezíveis (Foto: Divulgação)

Tudo embalado no saco de aniagem do cineasta com suas marcas inconfundíveis: muita paródia, humor sarcástico, violência, monólogos tão intermináveis quanto deliciosos, tiroteio em várias direções, o vai-e-vem da narrativa no tempo para possibilitar ao público os diferentes pontos de vista e a narrativa dividida em capítulos, como se fosse uma obra literária. Com um ótimo porém: como o dublê de diretor e roteirista costuma ter orgasmos múltiplos com seus diálogos, é sensacional a maneira como transforma grande parte do filme em um bangue-bangue verborrágico, no qual os personagens duelam não através de pistolas, mas usando suas línguas ferinas!

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Jennifer Jason Leigh brinca com a claquete de “Os oito odiados” no set: colcha de retalhos de westerns e outros gêneros se revela o melhor longa-metragem de Quentin Tarantino da última década (Foto: Divulgação)

Em seu caldeirão ensandecido, Tarantino ainda flerta com outros estilos cinematográficos quando faz a história transcorrer em boa parte das suas três horas de duração dentro de um armazém isolado no Velho Oeste pós-Guerra da Secessão. Ele resgata o giallo – filme de detetive italiano passado inteiramente em um ambiente único no qual os personagens tentam elucidar um mistério (como no jogo ‘O Detetive’). No frigir dos ovos, o realizador ainda esbarra de levinho nos longas de terror dos anos 1960/70.

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Aridez do frio: “Os oito odiados” revela uma América na qual é necessária a frieza de um estômago preparadíssimo para sobreviver a uma galeria habitada por tipos execráveis (Foto: Divulgação)

Impossível não pensar em O Iluminado ou A Dança dos Vampiros com aquele mundaréu de neve lá fora da estalagem, os personagens sem poder sair e as tomadas noturnas com o uivo do vento gelado rasgando o ar. Ou nos rostos banhados de sangue com expressões demoníacas, como se fosse a Sissy Spacek de Carrie ou a Linda Blair de O Exorcista. Nessa hora, só falta a plateia imaginar: será que a cabeça vai girar 360º? Bom, ainda tem as golfadas de sangue vomitadas como se houvesse a intervenção do coisa ruim, só que não…

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No jogo de citações do diretor de “Os oito odiados”, a carruagem que leva os protagonistas à estalagem se chama Butterfield Overland Stage Co. Possível referência ao clássico estrelado por Liz Taylor “Butteffiled 8” ou mera coincidência, já que o novo longa tem oito personagens principais?

Para completar, a música contudente do mestre Ennio Morricone embala a projeção num misto que alude tanto ao tipo de trilha sonora que ele próprio inventou para o western spaguetti quanto à evocação do horror: lembra um pouco os acordes que Wojciech Kilar compôs para Francis Ford Coppola em Drácula de Bram Stoker” (Dracula, 1992).

Aliás, vale reparar na cena de abertura da diligência na neve, com uma isolada cruz enterrada na paisagem. Qualquer semelhança não deve ser mera coincidência e faz todo sentido. Se deslocar por essa terra sem lei naquela época devia ser mesmo aterrorizante…

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Em busca do ouro: Tarantino resgata o compositor italiano Ennio Morricone – autor de nove entre dez trilhas sonoras de western spaghettis – para garantir maior autenticidade à sua homenagem ao gênero, “Os oito odiados” (Foto: Reprodução)

Confira abaixo o score de “Os Oito Odiados”, que concorre a “Melhor Trilha Sonora” no Globo de Ouro neste próximo domingo (10/1): 

Confira abaixo a trilha sonora de “Drácula de Bram Stoker” (1992). A referência é sutil, mas existe (Reprodução):  

Assista abaixo o trailer do clássico italiano “A máscara do demônio” (La maschera del demonio, de Mario Brava), filme cult de horror que influenciou gerações inteiras de cineastas e que se encontra no panteão de citações de Tarantino. Sua trilha também inclui acordes que lembram o score de “Os oito odiados” (Reprodução):  

Nesta estalagem perdida na imensidão de um Wyoming coberto pela neve, desembarca um velhaco caçador de recompensas, John Ruth (Kurt Russell, absurdo!), que leva algemada uma prisioneira condenada, Daisy Domergue (uma Jennifer Jason Leigh de tirar o chapéu e concorrendo ao Globo de Ouro de ‘Melhor Atriz Coadjuvante’, junto com o roteiro e a trilha num total de três indicações).

Ele recolheu pelo caminho o Major Marquis Warren (Samuel L.Jackson, impagável) e um xerife novato e aparentemente ingênuo (Walton Goggins, boa supresa). No estabelecimento, eles encontram o restante daquela escória que ajudou a consolidar o território norte-americano: um mexicano, um caubói, um latifundiário vertido em general confederado e um almofadinha carrasco a fim de faturar. Tudo aquela gente fina, elegante e sincera que forjou a real história do país, antes de Nova York, Filadélfia e Chicago virarem símbolos de uma América de oportunidades.

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Mocinho negro de alma negra: em sua sexta colaboração com Quentin Tarantino, Samuel L. Jackson interpreta o anti-herói Marquis Warren, de “Os oito odiados”, cujo passado talvez não seja formidável como se apregoa, mas tão nebuloso quanto aquele que forjou o ideal de América (Foto: Divulgação)

E é aí que Tarantino revela sua maior força: quando não esconde o que está por trás desses Estados Unidos politicamente corretos de hoje: um passado de gente da pior cepa, capaz de matar, saquear, roubar, pilhar e subjugar índios, estrangeiros, ursos, lobos e até mesmo os colegas, a fim de amealhar seu punhado de dólares. Aí o universo cínico do diretor acaba fazendo sentido, mesmo quando embrulha o estômago dos “certinhos” de plantão como Meryl Streep, uma notória crítica do seu trabalho: ao mostrar uma América preconceituosa, misógina e real – sem medo da turma que faz a falsa apologia ao bom-mocismo –, ele dá um tapa na cara da sociedade.

Entre colaboradores habituais do diretor como Michael Madsen, James Parks e Tim Roth, a presença do veterano Bruce Dern, uma pérola! Confra abaixo:

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Como as imagens de divulgação dos filmes com casting all-star dos anos 1960/70, da esquerda para a direita, o panteão de tipos de “Os oito odiados”: o caçador de recompensas Joh Hurt (Kurt Russell), o mexicano Señor Bob (Démian Bichir), a condenada Daisy Domergue (Jennier Jason Leigh), o militar confederado General Sandy Smithers (Bruce Dern), o xerife Chris Mannix (Walton Goggins), o carrasco inglês Oswaldo Mobray (Tm Roth), o negro emancipado pela guerra Marquis Warren (Samuel L. Jackson) e o vaqueiro Joe Gage (Michael Madsen). Os nomes caipiras são tão divertidos quanto a realidade por trás de suas identidades reconstruídas pela Sétima Arte (Foto: Divulgação)

No mais, com ótima direção de arte e cenografia, seria injusto não mencionar o fabuloso adereçamento de cena (set decoration) a cargo de Rosemary Brandenburg. Maravilhosa!

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Russell, Jason Leigh e Roth em ação na estalagem onde se passa a narrativa de “Os oito odiados”: minúcia se destaca, com produção repleta de detalhes que se mostram importantes na história, como nos filmes de Alfred Hitchcock (Foto: Divulação)

Em tempo, por fim e a título de spoiler, somente para os iniciados: nas entrelinhas, Tarantino critica a idealização de um Velho Oeste glamourizado na cena em que a turma original do armazém é eliminada por uma quadrilha. Todos boa gente, do tipo que habita os musicais da Metro-Goldwyn-Mayer, com direito até a uma Betty Hutton de Bonita e Valente” (Annie Get Your Gun, de George Sydney e Busby Berkeley, 1950), vão literalmente para o espaço, como se esse gênero de filme merecesse ser extirpado por ter colaborado na imagem de um Estados Unidos de vitrine…

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