Desde a virada de milênio, a Academia de Artes e Ciências de Hollywood tem destacado gêneros que, conforme a época, fizeram mais ou menos sucesso, mas que acabaram na berlinda das premiações a partir da queda da Velha Hollywood e do surgimento do cinema autoral dos anos 1960/70, que procurava adaptar ao gosto do grande público as produções europeias em tangência com a demanda das plateias pós-Revolução de Costumes por temas cotidianos que se aproximassem da sua realidade.

Em 2000, foi a vez de Gladiador“, de Ridley Scott, ressuscitar o épico histórico. Pouco depois, Chicago ganharia os holofotes renovando o público que voltaria então se encantar com os musicais, culminando na sensação da temporada passada: La la land – cantando estações. O faroeste também já ganhou destaque em produções contemporâneas badaladas, como Bravura Indômita e O Regresso“, deixando de ser um gênero no limbo. A ficção científica metafísica, em sua essência e plenitude cerebral, tomou a forma de sucessos tipo Gravidade e Interestelar. Agora, a bola da vez é o cinema fantástico, representado nesse ano pelo concorrente ao Oscar que é recordista de indicações nesta rodada, 13 no total incluindo ‘Melhor Filme’, o vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza A forma da água” (The Shape of Water, 2007).

Em “A forma da água”, a protagonista muda vivida por Sally Hawkins sonha flutuando nas águas profundas, onde o som não faz a menor diferença: nunca o cinema fantástico esteve tão perto de receber seu reconhecimento através da consagração na festa do Oscar (Foto: Divulgação)

Confira abaixo o trailer oficial legendado (Divulgação):   

Esta nova produção do mexicano Guillermo Del Toro, ápice da repercussão em sua carreira, é quase tão boa quanto outros clássicos seus que andam ajudando a estabelecer a fantasia como gênero de ponta: A espinha do diabo“, “A colina escarlatee sua obra mais celebrada até então, O labirinto do fauno. Contudo, nenhum deles chegou tão longe quanto “A forma da água”.  

Romance sem fronteiras: apesar de ambientada no limiar dos anos 1960, a história de amor vivida pela faxineira muda e latina Elisa e o ser anfíbio sul-americano confinado em instalações do governo norte-americano representa a liberdade de identidade e gênero incensada nos tempos atuais pela Geração Z (Foto: Divulgação)

Desde o surgimento do blockbuster em meados dos setenta, com diretores tipo Steven Spielberg e George Lucas e na sua supremacia atual enquanto produto, o cinema fantástico tem sido responsável tanto por justificar o borderô dos estúdios com grandes bilheterias quanto por infantilizar Hollywood. Talvez por isso, é considerado arte menor e menosprezado pelo seu caráter descaradamente afinado com a indústria cultural.

Apesar de os rendimentos proporcionados anualmente às majors, produtores ou distribuidores, ainda assim este gênero costuma ser esnobado pela Academia, tendo que se contentar com indicações a prêmios técnicos como ‘Melhores Efeitos Visuais’ e ‘Melhor Edição de Som’ ou artísticos visuais: ‘Design de Produção’, ‘Cenografia’, ‘Figurino’ e ‘Maquiagem’. É raríssimo vê-lo concorrer aos prêmios principais. Assim, “A forma da água” pode vir a representar , se ganhar o Oscar de ‘Melhor Filme’, a mesma virada que conduziu o musical na trilha de “Chicago” a “La la land”.

Personagens de “La la land” homenageiam cena antológica de “West Side Story”: sucesso do musical que celebra exemplares do gênero que fizeram a história do cinema é a síntese do esforço de resgate que Hollywood vem fazendo nas duas últimas décadas para reciclar narrativas que andaram esquecidas (Foto: Divulgação)

Bem verdade que, dentre os concorrentes à categoria ‘Melhor Filme’, estão no páreo candidatos exponenciais de peso, com forte possibilidade de arrebatarem o grande prêmio da noite no próximo domingo, dia 4. Trama Fantasma é uma inquietante realização de Paul Thomas Anderson, redonda do início ao fim, que esbarra na atmosfera de tensão dos suspenses de Alfred Hitchcock. Ganhador do Globo de Ouro de ‘Melhor Filme – Drama’ no Globo de Ouro, ao lado do próprio “A forma da água”, agraciado como ‘Melhor Filme – Comédia ou Musical’, Três anúncios para um crime é outro potencial vencedor, uma porrada no estômago do público, ainda que no final perca um pouco o ritmo. Com estrutura narrativa clássica, O destino de uma nação é o típico filme inglês que a Academia ama premiar, trazendo como atrativo maior um Gary Oldman inspiradíssimo que provavelmente vai levar o Oscar de ‘Melhor Ator’.

“Trama Fantasma”: realização de Paul Thomas Anderson estrelada por um Daniel Day-Lewis prestes a se aposentar das telas talvez seja o mais forte concorrente a impedir a expectativa de Guillermo Del Toro de consagrar “A forma da água” como o grande vencedor do Oscar 2018 (Foto: Divulgação)

Ainda no ranking, impressiona o queridinho da temporada, o sensível drama gay Me chame pelo seu nome“, espécie de produção acima do bem e do mal, tipo unanimidade que todo mundo gosta, mas que tem contra si próprio o fato de outro drama homossexual, Moonlight“, ter levado o prêmio maior ano passado. Dificilmente a Academia dará a vitória a outro longa-metragem dessa fornada, com um agravante: o filme de Luca Guadagnino lida com uma relação entre um homem mais velho e um adolescente e, apesar da delicadeza com que  o tema é tratado, pode ser “moderno” demais para a caretice moralista hollywoodiana.

Ao lado de “A forma da água”, o romance “Me chame pelos eu nome” é uma das produções da atual fornada do Oscar que conta com a unanimidade positiva de público e crítica. Contra a produção que teve como padrinho e roteirista o lendário diretor James Ivory pesa o fato de outro drama gay (“Moonlight”) ter se consagrado ‘Melhor Filme’ no último Oscar (Foto: Divulgação)

Correndo por fora, Dunkirk“, “Corra!“, “The Post a guerra secreta e o nada original Lady Bird não parecem ser capazes de levar a estatueta para casa, todos filmes “menores”, à exceção do primeiro, um surpreendente drama de guerra dirigido por Christopher Nolan que dispõe da premissa de ‘filmão’ para arrebatar o Oscar.

A criatura aquática (Doug Jones) observa os croquis de si mesmo criados pelo ilustrador publicitário Giles (Richard Jenkins, que concorre ao posto de ‘Melhor Ator Coadjuvante’) – um lacônico, sonhador, solitário e angustiado artista gay no limite da terceira idade (Foto: Divulgação)

Credenciais para papar o Oscar “A forma da água” tem de sobra, a começar pelo roteiro: uma delicada fábula de amor entre uma faxineira muda e um homem-peixe calcado na figura da Criatura da Lagoa Negra (1954) e confinado em instalações científicas do governo que poderiam ser a masmorra macabra de sociopatas excludentes reais tipo Trump, Putin, Bolsonaro ou o MLB.

A ilustração do cartaz de divulgação de “A forma da água” evoca o clássico de terror classe B “A Criatura da Lagoa Negra” (1954), exemplar tardio do ciclo de filmes de monstros que a Universal Studios lançou a partir do início dos anos 1930. A produção de Guillermo Del Toro chega a exagerar na quantidade de homenagens à Velha Hollywood, seguindo os passos dos recentes “La la land”, “A invenção de Hugo Cabret” e “O Artista”, coisa que a Academia de Artes e Ciências de Hollywood adora! (Foto: Divulgação)

Ambientada no auge da Guerra Fria, à época das tensões entre Kennedy e Kruschev que quase levaram o planeta ao terceiro conflito bélico mundial – era em que os Estados Unidos concentravam em seu cerne a contradição de ser o baluarte da liberdade ao  mesmo tempo em que segregava os negros –, “A forma da água” chega ao auge da metáfora política em pé de igualdade com o “Labirinto do fauno”, refogando o pavor da diferença derivado do macartismo anticomunista ao tempero gourmetizado desses novos tempos millennial que incensam a pluralidade, a liberdade de gênero e diversidade de orientação sexual.

Em “O labirinto do fauno”, uma criatura mágica da floresta – que poderia despertar o medo por seu aspecto freak – acaba se tornando o lastro emocional da orfã Ofélia (Ivana Baquero), vítima dos horrores da ditadura franquista. Nas duas produções mais famosas de Guillermo Del Toro fica evidente a preocupação de trazer à tona a questão da diversidade tão contundente neste milênio. O ator Doug Jones, que vive o fauno, é astro-fetiche da filmografia do diretor e agora encarna o ser aquático de “A forma da água” (Foto: Divulgação)

Habilmente, Gullermo Del Toro desfia toda a sorte de representações exatamente como num antigo filme B, só que com um acabamento estético de primeríssima e uma roupagem política ao gosto das novas plateias que fazem uso constante da internet com chavões-modinha, como “empodermento” e “liberdade identitária”. Assim como o O Rei do Showtransformou o criador do showbizz P.T. Barnum de oportunista aproveitador da desgraça alheia em emblema da aceitação à diversidade, a narrativa de “A forma da água” carrega, ao sabor da Geração Z, nas tintas que colorem de abusos sociais como o desrespeito a negros, deficientes e homossexuais ao assédio sexual, através de uma série de personagens que orbitam em torno da síntese máxima dessa codificação da repulsa àquilo que foge do tal “padrãozinho” que hoje virou mote nas mídias sociais: a tal bizarra, barroca e diferentona criatura anfíbia que desperta a ira do implacável agente do governo (Michael Shannon, ótimo).

Exemplar da mesma safra a que pertence “A forma da água”, “O Rei do Show” apresentam um P. T. Barnum (Hugh Jackman) engajado no papel formador do grande espetáculo junto ao público, cercado por artistas de todas as raças, cores, etnias e orientações sexuais. É a questão da liberdade de identidade e gênero – assunto hoje premente em todas as pautas – sendo catapultada a produto de consumo de ponta na indústria cultural (Foto: Divulgação)

Nesse aspecto, está traçado o panorama social perfeito para que a produção de Del Toro possa se tornar o grande campeão do Oscar 2018, independente de suas qualidades artísticas, porém sintonizada com uma Hollywood que hoje pune implacavelmente quem desrespeita as minorias.

O gay solitário Giles (Richard Jenkins) e a faxineira latina e deficiente vocal Elisa encabeçam o caleidoscópio de personagens que sintetizam as minorias e que ainda inclui uma negra explorada pelo marido (Octavia Spencer), um sensível cientista nerd (David Hewllet) e um espião russo (Michael Stuhlbarg) que não compactua com o pavor causado por quem não é padrão (Foto: Divulgação)

Nesse aspecto, Guillermo Del Toro tem a faca e o queijo na mão: ao seguir o percurso da fábula, ele pode ser maniqueísta na construção de personagens como o de Shannon, abdicando de teorias que questionam o “preto & branco”, como a banalidade do mal de Hannah Arendt, carregando a mão nas simbologias que agradam em cheio os genzers.

Mensagem direta: coube ao preconceituoso agente federal interpretado por Michael Shannon a função de polarizar o mal nesta produção de Guillermo Del Toro, enfatizando a contramão d0 viés da aceitação das diferenças que permeia “A forma da água”. Nesse aspecto, o longa corrobora com a posição de resistência que a arte anda assumindo nesses últimos tempos de crescimento da direita conservadora, representada por Donald Trump, Temer, Crivella, Bolsonaro e Putin (Foto: Divulgação)

E, quando acentua a humanidade que resiste sob a epiderme dos freaks, destaca a ambiguidade existente entre a superfície aparentemente maligna e a doçura interior. O diretor costuma usar essa dicotomia em todas as suas produções, desde quando inseriu baratas gigantes mutantes no metrô de Nova York em seu segundo longa, Mutação“. Para ele, monstros são aqueles que não respeitam a amplitude de possibilidades que a vida proporciona e tornam o seu próprio medo um veículo pronto para eclodir num mundo cruel, como o general franquista de “O labirinto do fauno”, a incestuosa irmã serial killer de “A colina escarlate” e outros capazes de descontar sua fúria em doces criaturas de casca bizarra como demônios (“Hell Boy”), assustadoras crianças fantasmas (“A espinha do diabo”) ou seres aquáticos (“Hell Boy” e “A forma da água”).

Del Toro (à esq.) dirige Sally Hawkins (ao centro) e Richard Jenkins (à dir.): nova realização do diretor mexicano é repleta de codificações que contrapõem o mundo dourado do consumo fifties a uma sociedade hipócrita e excludente, que é cruel com quem foge do padrão vigente (Foto: Divulgação)

Soma-se a isso outra característica fundamental na obra do diretor: a digital marcante que permeia tanto sua narrativa quanto estética, comparável a de cineastas consagrados como Woody Allen e Pedro Almodóvar. Naturalmente, todos esses aspectos  combinados proporcionam à “A forma da água” o genótipo ideal para que consiga sensibilizar os votantes da Academia e sair de mãos cheias no próximo domingo. Não  bastasse tudo isso, a chancela da Fox Searchlight Pictures garante ao filme a presença de homenagens a produções antológicas do catálogo da 20th Century Fox, em cenas de pano de fundo com antigas estrelas do estúdio: Betty Grable, Alice Faye e Carmen Miranda. A Academia adora esse tipo de homenagem.

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