*Com Lucas Montedonio

“O olho tem que viajar”. A icônica frase de editrix mais famosa de todos os tempos, Diana Vreeland, foi alardeada como o mote de inspiração na época da apresentação da primavera-verão 2016 da Valentino, a cargo da dupla Maria Grazia Chiuri e Pierpaolo Piccioli. Os looks revelavam um lado étnico, sem perder a tradição da casa de costura italiana. Agora, a grife apresenta a campanha dessa mesma fornada de peças, clicada no Quênia pelas lentes poderosas de Steve McCurry, conhecido por suas reportagens na National Geographic Magazine. Uma beleza: o clima de savana se mostra a atmosfera perfeita para a postura distante das modelos e o fascínio das imagens envolve a coleção em embalagem exuberante.

menina afegã steve mccurry final

A Menina afegã (1984): famosissimo, o portrait de Steve McCurry o tornou conhecido no mundo inteiro com um fotógrafo cultural. Agora, a Maison Valentino – que causou polêmica na última semana de moda por realizar um desfile africano com pouquíssimas modelos negras – tenta tirar casquinha da aura de celebridade do artista como ponto de convergência entre o multiculturalismo e a moda (Foto: Reprodução)

Nesse processo narrativo da moda, a dupla criativa crê num papel quase messiânico: a da aceitação da diferença através da semelhança entre culturas distintas. Eles explicam: “Acreditamos vividamente que o vestuário tem a habilidade em servir como veículo assertivo para disseminação de conceitos. A moda tem a tarefa de expressar novas necessidades, portanto, queremos que a essência desta coleção seja  transmitida no lugar onde a ideia nasceu. Escolhemos trabalhar com McCurry, pois, suas fotografias são sinônimo de viagens, momentos, pessoas e circunstâncias nas quais ele cria uma história pelas expressões, gestos e detalhes, intrigando a imaginação do espectador”.

Okay, válido e o resultado fotográfico é de cair o queixo. Ainda assim, dentro da questão da narrativa, o storytelling – para usar uma palavra que tanto os acadêmicos quanto os publicitários amam – é ambíguo. As modelos simplesmente posam dentro da tradição das imagens de moda, sem interagir com  o ambiente ou com os nativos, em postura distante, fria, como convém ao métier. Como se estivessem em Masai Mara – a famosa reserva natural do país africano -, mas com a mente longe, pensando em um badalo distante num rega-bofe em Roma. Mas, por que não? Afinal, o mundinho fashion não se alimenta justamente dessas dicotomias? Para degustar, antes de questionar…

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(Foto: Steve McCurry / Divulgação)

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(Foto: Steve McCurry / Divulgação)

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(Foto: Steve McCurry / Divulgação)

* Nascido na cidade imperial de Petrópolis, o pianista amador ganhou o mundo ainda adolescente quando fez intercâmbio nos Estados Unidos. Nessa época sua terceira visão despertou e o moço se entregou ao budismo tibetano. Pura estratégia para dominar a vaidade interior. Estudou comissaria de bordo, mas preferiu o jornalismo e, hoje, entre retiros espirituais com rinpoches, encontros com lamas e entrevistas espevitadas, o sagitariano usa sua vocação para o tietismo como contraponto à eterna busca do santo nirvana.

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