* Por André Vagon e Alexandre Schnabl

Em cartaz no Teatro Bradesco, Rio, Cinderella é mais um musical empreendido pela dupla Claudio Botelho e Charles Möeller. Criada por outro duo, Richard Rodgers & Oscar Hammerstein II, especialmente para a TV inglesa dos anos 1950 com uma Julie Andrews na flor da idade, a peça teve mais duas montagens televisivas ao longo das décadas e rodou o mundo, finalmente estreando na Broadway em 2013. Os rapazes trataram logo de trazer para o Brasil, tirando proveito de seus dois maiores atrativos: o fato de o enredo ser um dos contos de fada mais populares do mundo e a concepção visual que mescla cenografia exuberante – um de seus maiores méritos, aqui a cargo de Rogério Falcão (um gênio!) –, com os efeitos especiais à la Disney, que conjugam projeções de gigante e dragão interagindo com os atores e efeitos de luz que fazem a alegria do público com sobreposições de tecidos em trocas de roupa que parecem resultado de varinha mágica.

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Bianca Tadini como a personagem-título em “Cinderella”, de Botelho & Möeller: musical com músicas de Rodgers & Hammerstein impressiona pelo acabamento visual (Foto: Divulgação)

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Montagem premium: Rogério Falcão assina a cenografia de “Cinderella”, em cartaz no Teatro Bradesco (Foto: Divulgação)

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Adereços de cena em “Cinderella”: equipe de cenotécnica, com Leo Bezerra e Maria Pia Nogueira à frente, merece menção (Foto: Divulgação)

Voltado para um público de todas as idades (a quantidade de crianças na primeira sessão de domingo equivale a um Shopping da Gávea cheio na matinê),  o musical cumpre o papel de entreter, como revela a produtora executiva Renata Borges no libreto: “Por que montar ‘Cinderella’ hoje? Porque é diversão certa e nós estamos precisando de muita alegria”.

Okay, funciona bem, mesmo levando em conta que o roteiro é um tanto arrastado e, entre todas as obras de Rodgers & Hammerstein, o repertório musical é longe de ser um dos mais inspirados. “Cinderella” está mais para outras duas criações dos autores, Oklahoma! e Carrossel“, que para o seu ápice em sucessos como A Noviça Rebelde e O Rei e Eu.

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Com o relógio em destaque, cena do baile em “Cinderella”: a cargo da diretora residente e coreógrafa assistente Vanessa Costa, a valsa é ponto alto, apesar da roda dos vestidos deixar a desejar (Foto: Divulgação)

À frente do elenco, não a protagonista, mas a presença fulgurante de Totia Meireles no papel da Madrasta, diva o suficiente para engolir a cena com talento interpretativo, projeção de voz e caras & bocas digníssimas. Somente um porém: na opção pelo cinismo (característica presente quase sempre em qualquer vilã que se preze nessa obra), sobressai o humor, faltando um pouco mais de maldade.

Não adianta: vilão de conto de fadas precisa se enquadrar no mais puro maniqueísmo para dar cabo da lição, mesmo numa açucarada sessão da tarde baseada na obra de Charles Perrault, o mais sombrio dos autores do gênero, com subtextos que rondam a sexualidade e a perversão, como em A Bela e a Fera“, “O Castelo de Barba Azul e Pele de Asno“, maldades absolutas em sua essência.

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Trio de protagonistas de “Cinderella”: o Príncipe Topher (Bruno Narchi, à esq.), Totia Meireles (a Madrasta, ao centro) e Cinderella (Bianca Tadini, à dir.) (Foto: Divulgação)

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Divante: como visual deslumbrante, Totia Meireles assume a prima donna, á frente do elenco de “Cinderela”. Para quem está acostumado a assistir ao trabalho da veterana desde “Chorus Line” (1988) e “Sweet Charity” (1994), ela merece! (Foto: Repeodução)

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Figurino de Carol Lobato para “Cinderella” abusa de gamas densas como bordô, uva e verde petróleo. Resultado imprime densidade cromátíca ao espetáculo (Foto: Divulgação)

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Humor no musical “Cinderella”: espetáculo abusa de gags e situações de pastiche para agradar a todos os públicos e suavizar a aspecto sombrio da obra de Perrault (Foto: Divulgação)

O casal protagonista, Bianca Tadini (Cinderella) e Bruno Narchi (Príncipe Topher) funciona que é uma beleza. Ela, com physique-du-rôle adequado e voz maravilhosa (um tiquinho metálica, porém), ainda que seus figurinos não sejam o melhor do bom conjunto cromático criado por Carol Lobato.

O colorido suave poderia ser mais luminoso ainda para destacar sua beleza interior e cabia mais volume à roda da saia na cena do baile, para ofuscar todos no palco como convém a esse momento. Felizmente, os vocais de Bianca preenchem a caixa cênica a ponto de inebriar a plateia.

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Bruno Narchi e Bianca Tadini: protagonistas de “Cinderella” impressionam pelas tessituras vocais (Foto: Divulgação)

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Em papel que também poderia ser de Kiara Sasso ou Malu Rodrigues – colaboradora habitual da dupla Botelho & Möeller -, Bianca Tadini é boa presença em “Cinderella” (Foto: Divulgação)

Bruno é um caso à parte: tem estatura pequena, não dispõe do porte que se pretende de um príncipe; está mais para menino que para rapagão, apesar da barba. Mas se desenvolve bem no palco e acaba convencendo, além do bom gogó. Dá cabo da tarefa com louvor e, na contrapartida de Bianca, enverga alguns dos melhores figurinos do espetáculo, o que contribui. E muito.

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Bruno Narchi: ator e cantor compensa falta de biotipo ideal para viver o príncipe de “Cinderella” com a presença cênica e boa voz (Foto: Divulgação)

Vindo de uma produção recente de Botelho & Möeller (“Kiss Me, Kate!“), Ivanna Domenyco é destaque com sua Fada Madrinha, assim como o ótimo Carlos Capeletti no papel de Sebastian, o duque que pretende manipular a vida do príncipe. Sem exageros, seu domínio do ofício, a ótima projeção de voz e as nuances sutis são o que se espera de um personagem que exerce função protocolar na corte e, na ausência de uma vilã de fato má, o ator vê a oportunidade dessa lacuna para brilhar.

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Ivanna Domenyco como a Fada Madrinha, à frente da carruagem: atriz passa doçura necessária ao papel (Foto: Divulgação)

Mas, quem rouba cena neste espetáculo é Cristiana Pompeo, no papel de Gabrielle, uma das filhas da Madrasta. Como uma irmã postiça gaiata, a atriz – que já havia se destacado meses atrás em Como eliminar seu chefe“, é uma das pérolas dessa encenação, ao lado de outra bamba, Raquel Antunes, a Charlotte. Cristiana é danada como outro atual talento dos musicais nacionais que também costuma “fechar”: Helga Nemeczyk. É só dar um papel que as duas estraçalham.

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Duras de lascar, pero no mucho: Cristiana Pompeo (à esq.) e Raquel Antunes (à dir.) sofisticam os papeis das irmãs postiças de Cinderella com nuances que suavizam seus traços arquetípicos (Foto: Instagram / Reprodução)

No corpo de baile todos vão bem e, entre as mulheres, é agradabilíssimo assistir à elegante figura de Naomy Schölling, com trajetória artística que flana do Teatro Oficina Uzina Uzona a musicais do calibre de O Homem de La Mancha.

Entre o belo time masculino – muitos com físico para viver o Príncipe Christopher, se fossem solistas ou cantassem, entre eles Andrei Lamberg ou os bailarinos Mario Beckman e Flávio Rocha –, sobressai Thiago Garça, que já havia mandado ver em “Kiss Me, Kate!”. Além dos movimentos bem acabados e das linhas alongadas, ele não se vale do corpão para construir seus personagens, sempre caprichando nas pantominas e expressões faciais. Aqui, algumas divertidíssimas como quando interpreta um dos aldeões, auxiliado por um ótimo adereço de cabeça.

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Cena de dança em “Cinderella”: ótimos desenhos coreográficos causam boa impressão na plateia (Foto: Divulgação)

Para terminar, chega a ser redundante elogiá-lo, pois ele sempre surpreende em cada trabalho (tipo Meryl Streep), mas falar é preciso: o visagismo de Beto Carramanhos é o que há!

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Caracterização dos personagens em “Cinderella” contribui para a exuberante encenação em cartaz no Rio (Foto: Divulgação)

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