A frieza representada pelo inóspito inverno de uma estação científica nos confins do planeta é o ponto de partida para o sensível Soundtrack” (idem, de Bernardo Dutra e Manitou Felipe,  Ananã Produções e Zohar Cinema, 2017). Brilhante, Selton Mello interpreta Chris, artista multimídia que procura se desconectar do mundo embarcando nessa glacial viagem interior para realizar um projeto artístico na companhia de quatro cientistas que já se encontravam no local. Sob o frio extremo e condições nada favoráveis, o confinamento nos contêineres rodeados por quilômetros de neve absoluta reproduz o planetinha interior de cada um dos cinco personagens neste conflito entre ciência e arte.

(Foto: Divulgação)

No embate, o climatologista inglês Mark (o ótimo Ralph Iseson, de A Bruxa“), o nórdico Rafnar (Lucas Loughran), o botânico brasileiro Cao (Seu Jorge) e o biólogo chinês Huang (Thomas Chaanhing) precisarão quebrar seus paradigmas, sobretudo a ideia de que a grandeza dos seus projetos científicos é maior que aqueles pequenos sonhos cultivados com o mesmo afinco com que se procura tornar o mundo melhor em escala global.

O embate entre a relevância objetiva da ciência e o significado subliminar da arte é premissa para o encontro entre seres humanos em “Soundtrack”, delicado filme brasileiro estrelado por Selton Mello, Ralph Ineson e Seu Jorge (Foto: Divulgação)

Quase numa perspectiva foucaultiana com camadas existencialistas, é esse encontro do fotógrafo – que pretende registrar sua passagem pelo local através de selfies combinados com músicas de uma playlist tocada a cada momento – com os pesquisadores, durante doze dias no meio do nada, que vai definir que são os pequenos atos cotidianos que fazem a diferença, construindo a humanidade individualmente. E é o conjunto dessas realizações pessoais que caracteriza no todo a raça humana.

O figurino de “Soundtrack” foi criado e desenvolvido por Oskar Metsavaht e sua Osklen. A afinidade da grife com os esportes de inverno foi o mote, e o pré-lançamento do filme foi feito durante o último desfile da grife na SPFW, quando foi exibido um teaser do filme (Foto: Divulgação)

A atmosfera glacial de “Soundtrack” foi inspiração para a coleção inverno 2017 da Osklen, exibida na passarela da São Paulo Fashion Week em março (Foto: Agência Fotosite / Divulgação)

A atmosfera glacial de “Soundtrack” foi inspiração para a coleção inverno 2017 da Osklen, exibida na passarela da São Paulo Fashion Week em março (Foto: Agência Fotosite / Divulgação)

Ao pressuporem que a presença do Chris na estação científica como uma elemento alienígena de relevância menor que os seus projetos grandiosos, eles encontrarão em si um insuspeito paralelo com a suposta artéria de vaidade pseudo exposta pelo artista. E, claro, é nessa dimensão que as autodescobertas surgem e o ser humano recupera sua verdadeira grandeza.

A solidão que persiste nas vidas cristalizadas pelo gelo dentro de cada ser humano é explorada pelos diretores em “Soundtrack”, que aos poucos vai estruturando conexões mias calorisas entre os personagens confinados numa isolada estação de pesquisa científica (Foto: Divulgação)

Aos moldes do cinema europeu, o ritmo deliberadamente lento da narrativa é um acerto que leva o público a descobrir sentidos ao mesmo tempo que os personagens. Outro achado é a inspiradíssima fotografia de Felipe Reinheimer –  que foi operador de câmera em produções como Deus é brasileiro“, “A Rainha“, “Rio, eu e amo e A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 1 e já atuou como diretor de fotografia em outras produções menores –, contribuindo para a sensação de que é no deserto nebuloso d’alma que se encontra a riqueza interior.

Confira o trailer oficial (Divulgação):  

Dividindo o mesmo contêiner na narrativa, o multiartista Chris (Selton Mello) e o pesquisador inglês Mark (Ralph Iseson) são o epicentro da diferenças de personalidade expostas em “Soundtrack” (Foto: Divulgação)

“Soundtrack” é uma pequena pérola e, pelo seu caráter que enfatiza o poder transformador da arte, mais a atmosfera gélida que codifica as inúmeras camadas de frieza que constantemente sobrepomos às nossas personas para conseguir sobreviver num mundo árido, a produção encontra semelhanças com um clássico dos eighties, A festa de Babette” (Babettes gaestebud, de Gabriel Axel, 1987).

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