Comemorando meio século de jornada, Star Trek: sem fronteiras” (Star Trek Beyond, Paramount Pictures, e outros, 2016) chega aos cinema brasileiros indo onde nenhum homem jamais esteve: mantendo deliciosamente o frescor da juventude ainda que fazendo mais do mesmo, sem precisar de botox, mas renovando naturalmente a pele. Em sua terceira empreitada na telona desde o reboot em 2009 pelas mãos de J. J. Abrams, a série mostra que é possível ser fiel à essência e acompanhar o sinal dos tempos ao sabor da demanda de novas plateias. Tirando as tramas do agente com licença para matar, poucas franquias conseguem se renovar sem deixar a peteca cair num período tão extenso de vida como “Star Trek”: uma série de TV original, mais quatro spin offs televisivos, três sagas no cinema totalizando 13 filmes e uma nova série de televisão por vir.

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Cartaz do novo “Star Trek: sem fronteiras” emula o do longa-metragem de 1979, com direção de Robert Wise (“A noviça rebelde”), produção que fez a migração da saga espacial da TV para o cinema (Foto: Divulgação)

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“Star Trek: the motion picture”, filme de 1979 que levou Sr. Spock e sua turma para a telona (Foto: Reprodução)

Obviamente, isso representa muito dindim no bolso dos produtores e da Paramount, detentora dos direitos, mas isso não é falta de mérito algum. Basta conferir Missão Impossível“, que da aventura televisiva na qual o êxito vinha da combinação dos peculiares talentos de espiões que trabalham em equipe à piroctecnia neurótico-cinematográfica criada para valorizar um único Tom Cruise, pouco do original sobrou. Ou mesmo Star Wars“, ainda sambando no slack line para agradar tanto as novas gerações quanto a legião de fãs que fizeram o seu sucesso ao longo de 40 anos.

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O elenco principal da versão recauchutada de “Star Trek”, idealizada por pelo produtor Gene Roddenberry em plena Guerra Fria: da esquerda para a direita, o descendente de irlandês Dr. McCoy (Karl Urban), a africana Tenente Nyota Uhura (Zoe Saldana), o norte-americano Capitão Kirk (Chris Pine, agora com a pele boa; o que terá feito? Peeling Anna Pegova?), o vulcano Sr. Spock (Zachary Quinto) e o escocês Sr. Scott (Simon Pegg). A eles se completam oriental Sr. Sulu (John Choo) e russo Sr. Checov (Anton Yelchin) (Foto: Divulgação)

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Dr. McCoy (Karl Urban) e Sr. Spock (Zachary Quinto): divergências entre personagens sintetizam a multiplicidade de opiniões e visões culturais de mundo diversas (Foto: Divulgação)

Se os dois primeiros longas-metragens (2009 e 2013) da repaginada “Star Trek” serviram para atualizar a saga e ressuscitar personagens clássicos na pele de uma nova fornada de atores, introduzindo novas tramas como um inesperado crush entre o Sr. Spock (Zachary Quinto) e a Tenente Uhura (Zoe Saldana), missão cumprida e é hora de cair na vida, ou melhor, no espaço sideral.

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Agora homossexual, o piloto Sr. Sulu (John Choo) foi um dos personagens clássicos da série “Star Trek” que teve características alteradas no tempero dos novos tempos (Foto: Divulgação)

Confira aqui a matéria do ÁS sobre a polêmica revelação acerca da sexualidade do Sr. Sulu   

Confira o trailer oficial legendado (Divulgação): 

Em sua melhor forma, o novo filme apresenta tudo aquilo que se espera quando se ouve, desde 1966, a musiquinha-tema de Alexander Courage sublinhando a Enterprise ao entrar em dobra espacial para singrar o desconhecido: uma missão nos confins do universo, um planeta não mapeado e um vilão execrável (Idris Elba), tudo isso enquanto as relações entre os tripulantes se depuram.

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Tenente Uhura (Zoe Saldana) contracena com o vilão Krall, interpretado por um irreconhecível Idris Elba: antagonista da tripulação da Enterprise representa no enredo de “Star Trek: sem fronteiras” a oposição ao caminho pluralista que o mundo poderia tomar na vida real (Foto: Divulgação)

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Capitão Kirk versus Krall: duelo entre mocinho e vilão assume o discurso da inclusão contra o retrocesso, tão comum nestes tempos pós-virada de milênio (Foto: Divulgação)

Se a nova aventura não descamba para a mera overdose de tomadas frenéticas, mas usa delas para se mostrar up to date, o mérito é do inspiradíssimo roteiro (de Doug Jung e do atual Sr. Scotty Simon Peggy) e sobretudo da mão firme de Justin Lin, diretor de Taiwan associado às máquinas endiabradas da série Velozes e Furiosos“.

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Ação em punho: com a moderna tecnologia do cinema atual, o diretor Justin Lin dá prosseguimento ao dinamismo exacerbado que J. J. Abrams imprimiu nos reboot da saga “Star Trek” (Foto: Divulgação)

Em “Star Trek; sem fronteiras” ele deixa de lado a testosterona de machos embrutecidos por rachas e motores para imergir nos perigos de uma nebulosa inexplorada revelando que entende do riscado. Os cortes e tomadas de câmera que só o espetáculo do cinema digital proporciona não são fim, mas meio para uma narrativa eficiente, na qual o mote maior da série – diversidade de tipos, crenças e culturas que precisam existir simultaneamente num universo globalizado – é levado ao pé da letra numa história na qual não há uma única gordura, nem um segundo sequer é desperdiçado.

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Fronteira final: como na série clássica da TV, a Enterprise mais uma vez se dirige para onde nenhum homem jamais esteve (Foto: Divulgação)

O resultado está ali mesmo: sob o providencial pancake dos efeitos especiais de primeira, reside a mensagem de respeito à cultura alheia. Parece pouco, mas numa era em que a Grã-Bretanha se retira da União Europeia, Trump ameaça tomar de assalto a cadeira mais cobiçada do planeta, o terrorismo come solto e criaturas alienígenas como o clã Bolsonaro ameaçam mais que uma pistola-phaser, o recado está dado.

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O Alferes Checov (Anton Yelchin) gasta seu latim na hora de “cantar” a beldade espacial: apelo à diversidade étnico-cultural continua sendo o principal atrativo de “Star Trek”. O ator morreu recentemente, em um acidente caseiro, pouco antes de o novo filme estrear nos Estados Unidos (Foto: Divulgação)

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Ao lado do Sr. Scott (Simon Pegg), a alienígena Jaylah (Sofia Boutella, de “Kingsman”) é a bola da vez na nova incursão espacial da saga utópica criada por Gene Roddenberry, “Star Trek: sem fronteiras” (Foto: Divulgação)

Como sempre, os maquiadores-visagistas de “Star Trek” continuam se inspirando na natureza terráquea para criar toda a sorte de alienígenas. Confira abaixo!  

Em tempo: a trilha sonora de Michael Giacchino, na batuta desde 2009, continua um acerto, renovando a sonoridade musical da atração na mesma proporção com que Jerry Goldsmith fez em 1979 em Jornada nas Estrelas: o filme“. Gene Roddenberry ficaria orgulhoso.

Confira abaixo a trilha sonora de “Star Trek: sem fronteiras”: 

Como se não bastasse a boa música composta de Michael Giacchino, “Star Trek: sem fronteiras” envereda pelo caminho de outra franquia, “007”, ao incluir uma canção interpretada por uma estrela pop em sua trilha sonora. Assista abaixo ao clipe da boa “Sledgehammer”, de Rihana (Divulgação):  

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