A velha máxima de que “quanto maior a altura, maior é a queda” se aplica ao remake de Ben-Hur“, que chega nesta sexta-feira (18/8) aos cinemas mundiais. Refilmar um clássico dessa estatura, cuja versão mais famosa é a estrelada por Charlton Heston em plena Guerra Fria, é um ato de coragem igual a querer levar para as telas uma nova visão de “…E o vento levou!“, “O Mágico de Oz“, “Cantando na Chuva“, “Crepúsculo dos Deuses“, “Dr. Jivago“, “O encouraçado Potemkin“, “Laranja Mecânica“, “O Poderoso ChefãoouStar Wars: uma nova esperança. É preciso ter peito. O russo-cazaque Timur Bekmambetov, que ficou conhecido do grande público após lançar sua saga de fantasia sobrenatural ambientada em Moscou (“Guardiões da Noite“, de 2004, e, Guardiões do Dia“, de 2006) provou que tem colhões. Só não tem competência para dar cabo de uma tarefa que deixaria de pernas bambas até Heston – astro que salvou o mundo inúmeras vezes e personificou nas telas o baluarte do caráter elevado.

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Ben-Hur, versão novo milênio: longa-metragem de Timur Bekmambetov não dá conta do recado (Foto: Divulgação)

Assista abaixo ao trailer legendado (Divulgação): 

Nesta realização da era do espetáculo, o diretor, que já se saiu bem de empreitadas para levar ao audiovisual graphic novels como O Procurado (2008) e Abraham Lincoln: caçador de vampiros (2012), demonstra que entende tanto de épico bíblico quanto Valesca Popozuda saca de hóstia e Barack Obama de pompoarismo, reduzindo uma trama cheia de subtextos, que lida com a transformação da sede de vingança no misto de perseverança e temperança, num folhetim mexicanoide digno de ter Paola Bracho (“A Usurpadora”) confabulando com Pôncio Pilatos.

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Na lona: diluição do conteúdo e interpretações dos atores deixam a nova adaptação do romance de Lew Wallace na areia do deserto (Foto: Repeodução)

A presença de “Ben-Hur” na Sétima Arte se confunde com a própria história do cinema, com sua primeira produção datando de 1907, pouco mais de dez anos do surgimento dessa mídia e apenas dois anos após a morte de seu autor, Lew Wallace, general ateu que lutou na Guerra da Secessão. Esta é a quarta adaptação para a telona e a história já rendeu até minissérie para a TV e desenho animado.

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General que lutou a favor da União na Guerra da Secessão, Lew Wallace foi governador do Novo México antes de ele ser anexado aos Estados Unidos e embaixador na Turquia após o conflito norte-americano que consolidou o território nacional. Começou a escreveu “Ben-Hur” com o objetivo de provar que Jesus Cristo nunca existiu, mas sua pesquisa acabou lhe trazendo ao caminho oposto (Foto: Reprodução)

A segunda versão do cinema mudo (1925) – Ben-Hur: uma narrativa de Cristo“, dirigida por Fred Niblo e protagonizada pelo mexicano Ramón Novarro, ator que substituiu Rodolfo Valentino no imaginário das plateias após sua morte – lançou a novata Metro-Goldwyn-Meyer como candidata absoluta ao posto de usina de sonhos, desbancando em pouco tempo a todo-poderosa Paramount. Já nesta edição, a corrida de bigas era o ponto alto, aspecto explorado ao máximo por William Wyler na realização de 1959, quando a MGM há muito já havia se consolidado como o maior império da Era de Ouro de Hollywood.

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“Ben-Hur: uma narrativa de Cristo”: segunda adaptação para as telas, filme de 1925 foi o sucesso que definiu os parâmetros do espetáculo na recém-fundada Metro-Goldwyn-Mayer, pouco antes do surgimento do cinema falado (Foto: Reprodução)

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Cineasta consagrado, Fred Niblo concebeu um “Ben-Hur” art-déco, como era de se esperar de uma produção da época, auge desse estilo arquitetônico-decorativo (Foto: Reprodução)

Já nesta outra realização, tudo foi grandioso: formato em widescreen, trilha sonora do bamba Miklós Rózsa, três horas e meia de duração, quantidade fenomenal de 100 mil peças de figurino confeccionadas por mais de 100 fabricantes de roupas, enormidade de extras, 300 sets, 200 camelos, 2500 cavalos e os cenários mais espetaculares produzidos até aquele momento com o orçamento mais caro até então (15 milhões de dólares, uma fortuna para os padrões da época, mais a divulgação beirando outros tantos 14,7 milhões). O resultado se mostrou uma obra-prima que, além de entretenimento da melhor qualidade, ainda pode revelar a supremacia norte-americana no panorama global do pós-guerra, numa comparação velada com o poderia bélico romano. Acabou faturando 11 Oscars, incluindo ‘Melhor Filme’ e ‘Melhor Ator’.

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“O maior filme de toda a história do cinema”: como essa chamada, o “Ben-Hur” (1959) mais famoso de todas as adaptações cinematográficas foi alardeado como superprodução, fez história e se transformou instantaneamente no clássico dos clássicos não somente dos épicos, mas também no panteão de obras-primas de Hollywood (Foto: Reprodução)

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A tela em widescreen pelo então novo processo de 65mm da MGM imprimiu grandiosidade às tomadas de “Ben-Hur”, ainda que esta opção do estúdio tenha desagradado inicialmente Wyler. Somado a esse recurso, o uso de 10 mil figurantes e um sem-número de figurinos e alegorias confeccionadas por artesãos italianos se encarregaram de verter a produção num enorme sucesso, abrindo espaço para filmes que vieram em seguida como “Spartacus” (1960), “Cleópatra” (1963) e “A Queda do Império Romano” (1964) e influenciando o gênero por pelo menos os 15 anos seguintes (Foto: Reprodução)

Era de se esperar que, com a nova onda de épicos deflagrada por Gladiador (2000) e intensificada por uma leva mais recente de filmes bíblicos, uma releitura de “Ben-Hur” chegasse aos cinemas, capitaneada pelo principal atrativo dessa atual fornada: a revitalização da narrativa turbinada pelo espetáculo da  hiperrealidade do cinema digital. Entretanto, fica evidente que, para o patamar atual dos blockbusters, o budget foi modesto: 100 milhões de dólares, segundo o site Box Office, uma fortuna em geral, mas pechincha se comparada com os parâmetros de hoje nas esferas hollywoodianas. Só para ter uma ideia, foram  410 milhões gastos em “Batman vs. Superman”. Todos os esforços em cenografia, combinando a construção de sets com a finalização em CGI, acabaram se concentrando na cena do circo romano que, de fato, é bem-filmada, com picotes de câmera ágeis intercalados com tomadas amplas que evocam a grandiosidade romana. É o único momento eletrizante para valer.

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“Gladiador” (2000): filme que reintroduziu o então fora de moda gênero épico na cena hollywoodiana é influência certeira do novo “Ben-Hur”, embora o ápice do circo máximo no longa de Ridley Scott seja apena um destaque, e nesta produção de Timur Bekmambetov se configure no único atrativo (Foto: Divulgação)

De resto, tudo deixa a desejar, inclusive a batalha naval na qual o agora escravo Ben-Hur tira sua sorte grande, caindo nas graças de Roma. Se essa cena, filmada com miniaturas em 1959 já era o calcanhar de Aquiles do clássico, agora decepciona demasiadamente escura, embaçada e numa penumbra para disfarçar a economia geral. Bekmambetov perdeu uma excelente oportunidade de marcar sua passagem por essa narrativa caprichando nessa sequência, mas a razão é compreensível: é preciso segurar a grana para otimizá-la, e que a bufunfa seja opulenta nas tomadas que marcam o ápice da história: as cenas da corrida.

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Corrida de bigas: com Jack Huston em primeiro e Toby Kebbell ao fundo, sequência tenta se manter no padrão daquela que imortalizou o “Ben-Hur” de William Wyler. As tomadas são boas, exceto por um detalhe: Huston e Kebbell não são nem de perto Charlton Heston e Stephen Boyd, carecendo de mojo (Foto: Divulgação)

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Em 1925, a corrida de bigas de “Ben-Hur” já causava alvoroço na plateia, feito que Bekmambetov tenta repetir no novo milênio (Foto: Reprodução)

Prod DB © MGM / DR BEN-HUR (BEN-HUR) de William Wyler 1959 USA avec Stephen Boyd et Charlton Heston course de chevaux, sculpture monumentale, chars, spectateurs, cirque, aurige, peplum classique d'après le roman de Lew Wallace

Simbologia na luta do bem contra o mal é artifício comum na maniqueísta Hollywood, que não se furtou de abusar dos signos em “Ben-Hur” (1959): enquanto o vilão Messala (Stephen Boyd) dispõe de garanhões negros, o mocinho interpretado por Charlton Heston exala pureza de alma através dos azarões brancos como a neve. Na nova versão de 2016, esse aspecto permanece. (Foto: Reprodução)

Confira abaixo a cena da corrida de bigas que fez história no cinema, no “Ben-Hur” estrelado por Charlton Heston (Reprodução):

Essa famosa cena da corrida influencia até hoje muitos cineastas, inclusive realizadores de blockbusters como George Lucas. Confira abaixo:   

O diretor também joga no lixo a possibilidade de confrontar o pensamento pagão da dominação a qualquer preço com os valores judaico-cristãos, a questão moral do enredo. Possivelmente para economizar uns trocados, a produção abdica do período que vai da adoção de Ben-Hur pelo general romano que o leva para Roma, ajudando-o a cair nas graças do Imperador Tibério, até sua volta triunfal à Jerusalém como o filho de um distinto patrício. Com isso, vai para o espaço o processo que faria com que Judah Ben-Hur migrasse da trajetória sofrida para a tutela do Império e depois no caminho inverso, já empoderado, no longo percurso que estabelece a passagem entre o desejo de vingança e a redenção pelo Cristianismo. Sem essa intenção, o longa naufraga como uma galé em chamas submergindo no Mediterrâneo.

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O escravo remador de galera Ben-Hur (Charlton Heston) adquire o respeito do general romano Quintus Arrius (Jack Hawkins): toda essa parte – e as subsequentes passadas na Roma Imperial – foram suprimidas pelo diretor Bekmambetov, o que prejudicou bastante o resultado. O roteiro concebido por Keith R. Clarke é repleto de furos (Foto: Reprodução)

Para piorar, o diretor também desperdiça todos as sublinhas homoafetivas contidas na narrativa, desde a “adoção” do mocinho pelo general romano mais velho até a insinuação de amor gay disfarçado de ódio entre Ben Hur e seu antagonista Messala (Toby Kebbell).

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Olho no olho: numa Hollywood ainda sob vigília do rigoroso Código Hays de censura, os olhares cheios de má intenção dos protagonistas foram a opção de Wyler para sugerir o homossexualismo implícito dos personagens, imprimindo plausibilidade ao roteiro (Foto: Reprodução)

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Nos liberais anos 1920, a maquiagem e trejeitos over dos atores já contribuíam para sugestionar o público de que havia boa dose contenção erótica nas sunguetes dos personagens, motivo mais que suficiente para conotar uma relação íntima entre Messala (Francis X. Bushman) e Ben-Hur, vivido pelo galã Ramón Novarro, gay na vida real (Foto: Reprodução)

Esse aspecto foi amplamente explorado nas internas por William Wyler na produção fifties, a ponto de o insosso roteiro original de Karl Tunberg ser refeito com a providencial ajudinha do escritor homossexual Gore Vidal, que se incumbiu de alimentar esse viés sem que o ultra-conservador Charlton Heston desconfiasse, estimulando Stephen Boyd a explorar essa paixão velada através dos olhares. Dizem que Wyler orientava Boyd coim frases tipo: “Coma ele com os olhos”, segundo o próprio Vidal numa entrevista inserida no bônus da edição de luxo do DVD.

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Escritor, dramaturgo, roteirista e ativista político perseguido pelo macarthismo, Gore Vidal (1925-2012) foi um dos primeiros romancistas a retratar sem ambiguidade a homossexualidade em “A cidade e o pilar” (1948), escândalo entre os críticos na época (Foto: Reprodução)

Numa era em que a bandeira da diversidade sexual se tornou regra, a ponto de a Olimpíada do Rio ser considerada o ápice do comportamento liberal com seus 51 atletas e três técnicos abertamente gays, Timur Bekmambetov comeu uma mosca e tanto em não explicitar o assunto, sobretudo caso o tratasse com a devida sensibilidade.

Falta virilidade à Jack Huston (“Trapaça” e “Orgulho e preconceito e zumbis”) para dar cabo de Ben-Hur. Seu mocinho é menos homem e mais menino, mesmo depois da evolução do personagem, e a barba não serve para encobrir essa deficiência. Já Toby Kebbell confere ao seu Messala uma dimensão humana que, pelo menos no início, chega a confundir o público, dando a entender que nessa versão o protagonista é ele. Mas, só por uns instantes, pois mais adiante sua composição descamba para um vilão caricato, num patamar quilômetros abaixo de Félix, Leôncio, Odete Roitmann, Nazaré Tedesco e outros vilões memoráveis da TV brasileira.

Por fim, resta a Morgan Freeman, no papel do mercador árabe que introduz Ben-Hur no mundo das corridas de biga, alguma dignidade, mas quem está acostumado a vê-lo em outras produções pode perceber que nem ele leva o filme a sério, atuando burocraticamente num  padrão parecido com o de Michael Caine. Como esse britânico, ele está ali para faturar uma senhora bagatela e pronto.

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À esquerda de Jack Huston, Morgan Freeman vive o mercador árabe Ilderim em “Ben-Hur”, papel que coube a Hugh Griffith na realização cinquentista (Foto: Divulgação)

Felizmente, coube à bela israelense Ayalet Zurer (“Munique”, “Anjos e demônios”, “O Homem de Aço”), aclamadíssima em seu país e ultimamente presente em longas hollywoodianos, a densidade interpretativa no papel da mãe do herói, Naomi, ainda que nesta refilmagem seu personagem esteja esvaziado. Ah, antes que ÁS se esqueça: sim, Rodrigo Santoro funciona como Jesus Cristo.

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Ao fundo, Ayelet Zurer vive no novo “Ben-Hur” a mãe do herói agora rebatizada de Naomi, papel que foi da veterana Martha Scott na versão anterior da telona (Foto: Divulgação)

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Como Jesus Cristo, Rodrigo Santoro comprova talento em “Ben-Hur”, numa participação relativamente modesta, mas que segue a esteira de outros Cristos das telas, como Jeffrey Hunter (“Rei dos reis”, 1961), Robert Powell (“Jesus de Nazaré”, 1977) e Jim Caviezel (“A Paixão de Cristo”, 2004) (Foto: Divulgação)

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