Entra em cartaz nesta quinta-feira (8/6) nos cinemas A Múmia” (The Mummy”, 2017), longa que inicia a série Dark Universe, na qual a Universal Pictures dá o reboot nos monstrengos que consolidaram o estúdio a partir dos anos 1930. Agora, numa linha de produção integrada que segue o padrão de realização dos filmes de super-heróis  em vigência na Disney/Marvel Studios (Capitão América e Homem de Ferro, entre outros), Fox (X-Men) e Warner (Mulher-Maravilha, Batman e Superman), criaturas como Drácula, Lobisomem, Frankenstein, o Monstro da Lagoa Negra e o Homem Invisível, entre outros, vão ressurgir novamente nas telas devidamente repaginadas por narrativas que conjugam terror e ação, na esteira dos super poderosos das HQs, estreladas por grandes astros.

“A Múmia” do novo milênio: Universal Pictures dá ignição à sua nova safra de filmes de monstros trazendo a história para os dias atuais (Foto: Divulgação)

Confira abaixo o trailer oficial legendado (Divulgação): 

E mais: vão contracenar entre si, como já acontece com os encapuzados da Marvel e DC que fazem participações especiais nos filmes uns dos outros. Por isso mesmo, a dupla de unha e carne de pescoço encarnada no mesmo corpo Dr. Jekyll e Senhor Hyde (Russell Crowe), de O Médico e o Monstro“, já dá expediente nessa história de maldição da tumba, comparecendo ao lado do explorador Nick Morton (Tom Cruise) que, ao abrir um sarcófago egípcio, arremata nas costas uma terrível maldição proferida pela princesa com ambição de faraó Ahmanet (Sofia Boutella, de Kingsman” e “Star Trek: sem fronteiras“).

Escarificando Sofia Boutella: a múmia do clássico hollywoodiano embarca na onda do empoderamento feminino. Agora é mulher e, diga-se de passagem, super chegada à arte da body modification. Tattoo perde… (Foto: Divulgação)

Crossover: o atormentado Dr. Jekyll e o implacável Senhor Hyde dão as cartas em “A Múmia” na pele do segundo astro do elenco, um Russell Crowe parrudão (Foto: Divulgação)

Esta atualização capitaneada pelo diretor, roteirista e produtor Alex Kurtzman acerta na camada de horror adicionada às clássicas produções B que, com o passar das décadas, se tornaram cult, mas perderam o impacto. Hoje em dia, ninguém assiste ao Drácula de Bela Lugosi, à Múmia de Boris Karloff e ao Lobisomem de Lon Chaney Jr. (só para citar três das aberrações) para sentir medo, mas para celebrar o exercício do cinema nos primeiros anos da Hollywood falada. E, quem confere ou estuda a Sétima Arte ou é cinéfilo, pois, fora o aspecto histórico-cinematográfico, as velhas produções de terror da Universal envelheceram mais que o botox de Vera Fischer.

No lumiar do cinema sonoro, a Universal ainda era um estúdio pobre que não fazia frente nem ao aparato tecnológico nem ao star system de grandes usinas de sonhos, como a MGM, Warner Bros. e Paramount. A solução foi investir em filmes de terror escapistas que se tornaram sua marca (Foto: Reprodução)

Com o visual de ponta e a transposição da ação para os dias de hoje, Kurtzman retira camadas de naftalina que se acumularam nestas narrativas originais, mas o resultado é uma faca de dois gumes: se o efeito fliperama sopra para longe a poeira do deserto, é justamente a atmosfera retrô que permitiu a esses clássicos sobreviverem como relíquias do passado tão valiosas quanto um tesouro da Primeira Dinastia. Coisa que “A Múmia” de 1999 – aquela que transformou instantaneamente Rachel Weisz em estrela e deu notoriedade momentânea a Brendan Fraser – soube explorar, mantendo a história nos anos 1930, mas convertendo-a ao paladar de um novo público sob a tecnologia da computação gráfica.

Na virada do milênio, a Universal retomou a “A Múmia” no encalço dos efeitos digitais. Deu certo: o longa-metragem rendeu duas continuações reciclando a pegada de aventura de época sob uma enxurrada de dólares, na mesma trilha “Classe B Premium” estabelecida nos anos 1980 pela franquia “Indiana Jones” (Foto: Divulgação)

Nesta nova encarnação de “A Múmia”, a Universal aposta na capacidade de Tom Cruise de levar multidões aos cinemas, após mais de 30 anos de batuta. Para contrabalançar, o longa traz a quase desconhecida loura Annabelle Wallis – sobrinha do ator Richard Harris -, que já havia dado expediente na telinha na série “Os Tudors” (2009) e na telona no terror “Annabelle” (2014). Com ela e com a morena renascida Ahmanet (Sofia Boutella), Cruise estabelece um triângulo que era para acontecer, mas que de fato não decola… (Foto: Divulgação)

Se a nova “A Múmia” reintroduz a trama para as novas gerações ao sabor que lhes agrada, a ausência do tempero histórico é ingrediente fusion que não colabora na receita. Apesar disso, várias cenas de ação são espetaculares e a iluminação sombria dá o tom lúgubre, aproximando-se do clima de Resident Evil“, que mescla RPG com anbientação soturna.

Império do pó: uma das marcas do remake noventista de “A Múmia” eram as tempestades de areia sobrenaturais. A nova produção de Alex Kurtzman mantém esse aspecto, quase soterrando Londres sob toneladas de poeira. Haja vassoura! (Foto: Divulgação)

E, o melhor: se os personagens da primeiríssima versão, como o explorador Rick O’Connell, o sacerdote Imhotep e a princesa Ank-Sun-Amun, agora dão vez aos novos Nick Morton, Jenny Halsey e à diabólica Ahmanet, Kurtzman transforma o exército de múmias que a princesa má vai arregimentando ao longo da projeção no maior sucesso cinematográfico do horror pós-11 de setembro: esqueça ataduras! Os os mortos-vivos são cópia escarrada dos assustadores zumbis de Walking Dead ou Guerra Mundial Z“, e isso por si só é suficiente para dar aquela sacudida na plateia.

A culpa é dos xiitas: nesta nova versão de “A Múmia”, o contrabandista vivido por Tom Cruise descobre a tumba amaldiçoada não no Egito, mas a milhares de quilômetros de distância, num Iraque fundamentalista (Foto: Divulgação)

Princesinha sadomasô: chegada a um ritual para imolar machos a fim de invocar do deus da morte egípcio Seti, a Ahmanet da nova “A Múmia” é bem mais descolada que seus antecessores, abdicando de “fazer a egípcia”. Além de beijos furiosos e até lambida na bochecha de Tom Cruise, ela ainda encontra tempo para sensualizar no bondage imposto por uma seita secreta de guardiões da civilização (Foto: Divulgação)

Em tempo: as novas gerações vão se deliciar com  a experiência da primeira sala 4DX no New York City Center. Comos e não bastassem as imagens que se projetam da tela, a UCI aposta na imersão sensorial, com confortabilíssimas 112 cadeiras que se movimentam como uma montanha-russa, em sincronia com as sequências projetadas do filme, mais uma série de efeitos sinestésicos – aromas, borrifadas d’água, goteiras, fumaça, ventanias, neblina e luzes que acompanham aquilo que se vê na telona. Parque temático na sala de projeção que vai agradar em cheio aos GenZers, para quem a multiplicidade de aplicativos abertos num smartphone só é inferior ao desejo ininterrupto de experimentar emoções. Coitada da turma da limpeza, que vai precisar mais que nunca  recolher a pipoca que, ao varejar das cadeiras, acabará se espalhando pelo cinema como uma praga egípcia…

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