* Por Bruno Muratori, direto de Lisboa

É uma casa Portuguesa, com certeza! A canção eternizada pela eterna fadista Amália Rodrigues está mais viva do que nunca, sobretudo quando se adentra o lar de Claudia Caseira, a lisboeta que anda causando burburinho na capital portuguesa por promover almoços e jantares by herself para ilustres desconhecidos. Como assim? Decoradora, ela encontrou novo alento justamente abrindo as portas de sua residência para os viajantes, resgatando costumes e tradições locais nesse get together e oferecendo esperiência única para quem vem de fora.

Claro que tudo é questão de oportunidade. Lisboa vive um momendo de turismo forte e se tornou a coqueluche de muitos turistas, europeus ou brazucas. Quem já conhece sabe o motivo: uma cidade extremamente barata, além de linda – Ora, pois! Esse equilíbrio entre preço e belezura tem dado certo, ainda mais nesse momento de crise econômica de proporções planetárias. Culturalmente rica, acolhedora e visualmente deslumbrante, a principal cidade de Portugal é autêntica, traz patrimônio vastíssimo e ainda se modernizou nos últimos anos, indo na contramão da recessão global em vários aspectos. Nela, o visitante encontra tanto a modernidade da mistura de tribos e gerações quanto séculos de história numa urbe com as quatro estações do ano bem definidas. No ranking deste ano do Global Destinations Cities Index de cidades com maior procura por parte de visitantes internacionais, da Mastercard, a metrópole ocupa o 35º lugar da tabela geral e subiu um lugar na tabela europeia, indo para a 14ª posição. É nesse contexto que Claudia anda fazendo fama à boca miúda. Ou melhor, graúda.

Numa urbe que tem estado lotada de janeiro a dezembro, procurar um lugar para jantar pode ser um martírio digno da inquisição. Um dos atrativos de Lisboa, os restaurantes de comida típica são espaços antigos que não conseguem dar conta do recado, mesmo os que foram remodelados. E tem outra questão: o barulho intenso, com ‘a malta’ (termo que equivale à “galera” para os portugueses) falando pelos cotovelos. Gente desconhecida que, pela proximidade de uma mesa à outra, tagarela sem parar, dando para ouvir a conversa alheia. Resultado: há quem diga que pode-se até opinar sobre quem é ou não o pai da criança vizinha ao lado que faz malcriação bem ali do lado. Pensando nisso – e nessa pulada de galho em galho em busca do prato perfeito que se tornou rotina para os turistas em Lisboa –, que a decoradora resolver promover uma verdadeira bocada: o projeto My Lisbon Family.

Quitutes da terrinha: Claudia Caseira (à direita) recebe um grupo de visitantes na sua casa em Lisboa (Foto: Divulgação)

Quitutes da terrinha: Claudia Caseira (à direita) recebe um grupo de visitantes na sua casa em Lisboa (Foto: Divulgação)

Como uma deliciosa ironia da vida, Claudia Caseira não veio ao mundo à toa com esse nome. Seguiu sua intuição e gritou alto o gosto de ver a casa cheia com todos ao redor da mesa: ela teve o que poderia ser chamado de epifania quando resolveu alargar as experiências vividas e levar a comfort food a outras pessoas, abrindo sua casa para almoços e jantares para turistas, que podem vivenciar in loco degustando os sabores típicos da terrinha em um ambiente hospitaleiro. Nesse último verão – o agito chez Claudia – foi sucesso! De olho nessa iguaria fina que se tornou sua empreitada, ÁS foi até o bairro do Príncipe Real, região central de Lisboa onde mora para bater aquele papo com a sorridente Claudia. Confira!

Mesa bem posta: vivência como decoradora contribui para Claudia Caseira imprimir seu toque no projeto My Lisbon Family, no qual recebe turistas interessados na boa mesa lusitana (Foto: Divulgação)

Mesa bem posta: trajétória como decoradora contribui para Claudia Caseira imprimir seu toque no projeto My Lisbon Family, no qual recebe turistas interessados na boa mesa lusitana (Foto: Divulgação)

ÁS: Claudia, conta para a gente um pouco sobre você e seu percurso. Quem é a Claudia Caseira?

CC: Nasci em Lisboa, cresci entre Sintra, Oeiras e Lisboa; tive uma infância na qual brincava na rua, fui adolescente rebelde, mas era boa aluna, rs. Estudei Recursos Humanos, o que me proporcionou ferramentas técnicas para fazer uma coisa que me é natural – criar empatia e gerir pessoas. Mas, no segundo ano da faculdade comecei a trabalhar em decoração e descobri uma nova profissão. Após terminar o curso trabalhei para um ateliê onde pude concretizar projetos de interior design que ainda hoje existem.Nos últimos anos, fiz variadas coisas e trabalhei até com uma designer de alta bijuteria, fui consultora de moda; viajei por aí…

Além da Torre de Belém: decoradora dublê de cozinheira se esmera em produzir as mesas para os jantares que oferece in loco (Foto: Divulgação)

Além da Torre de Belém: decoradora dublê de cozinheira se esmera em produzir as mesas para os jantares que oferece in loco (Foto: Divulgação)

ÁS: Quando e como surgiu esse desejo de aventurar-se nas panelas e, ainda por cima, para turistas?

CC: Aprendi a cozinhar com a minha melhor amiga e receber sempre foi um gosto! Os almoços de família tinham grandes mesas, lindas, decoradas. E quando fui morar sozinha comecei a dar jantares. Simplesmente adoro! Vem mesmo do coração.

ÁS: Como surgiu o projeto My Lisbon Family?

CC: De uma ideia de tornar a experiência do turista mais rica: jantar em casa de uma lisboeta. Quando viajo, sempre tenho a vontade de tocar a campainha de alguém e perguntar se posso entrar. Inverti o conceito e abri a minha casa para o mundo.

Savoir-vivre: a decoradora Claudia Caseira usa a expertise de vida para proporcionar Festa de Babette a quem chega em Lisboa (Foto: Divulgação)

Savoir-vivre: decoradora Claudia Caseira usa sua expertise para proporcionar Festa de Babette a quem chega em Lisboa (Foto: Divulgação)

ÁS: De onde vem a sua inspiração para criação do cardápio e o que pretende passar a todos aqueles que desejam vivenciar uma experiência única através do paladar?

CC: Primeiro, o conceito passa por adorar cozinhar para os amigos e caprichar no que faço, como se fosse para eles. E passar para outras pessoas essa boa energia através da minha casa, do meu pátio e minha música nesse ótimo ambiente, em um dos bairros mais emblemáticos de Lisboa. Os meus pratos são simples, mas típicos de uma casa portuguesa: bacalhau a Brás, ervilhas com ovo escalfado, empadão, ovos verdes, arroz doce de sobremesa. Especialidades da minha mãe, rs.

Iguarias com tempero íntimo: o Bacalhau a Brás faz parte do cardápio disponibilizado por Claudia Caseira no My Lisbon Family (Foto: Divulgação)

Iguarias com tempero íntimo: o Bacalhau a Brás faz parte do cardápio disponibilizado por Claudia Caseira no My Lisbon Family (Foto: Divulgação)

ÁS: E se você pudesse acrescentar uma comida brasileira nesse cardápio hospitaleiro, qual seria?

CC: Humm, adoro o vosso churrasco e os acompanhamentos com aquela farofa deliciosa. Pode ser uma ideia…

O papo segue com direito à prova do famoso arroz doce, que esse repórter recomenda. Ela continua a conversa e manda na lata: “Venham conhecer onde tudo começou, de onde partimos para a descoberta do Mundo e do Brasil; e também sentir o gostinho da Lisboa atual, europeia e cosmopolita. Terei todo o gosto em vos receber em minha casa, sejam bem-vindos!”

Paladares numa tarde de verão: Claudia Caseira também disponibiliza o pátio da casa para servir acdpipes dignos da antiga corte lusitana (Foto: Divulgação)

Paladares numa tarde de verão: Claudia Caseira também disponibiliza o pátio da casa para servir acepipes dignos da antiga corte lusitana (Foto: Divulgação)

* Carioca de nascença e cidadão do mundo, Bruno Muratori vive a saga da reinvenção. Em 2009, saiu do Brasil para morar em Paris e se tornou produtor de festas. Depois foi para Lisboa, desvendou a terrinha para os brazucas e renasceu como um porto seguro, fornecendo preciosas dicas da night na metrópole. Há dois anos, retornou ao Rio, trabalhou com publicidade, marcou presença e colaborou com sites de comportamento. Agora de volta à Europa, faz a ponte entre a cultura mainstream de lá e aqueles badalos com jeitinho de alcova.

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