Reza a lenda que, há exatos vinte anos quando Cacá Diegues filmava Tieta do Agreste” com Sonia Braga no papel-título, teria havido um desentendimento entre ela e Marília Pêra, sua antagonista na trama, que haveria proferido: “Sonia é a estrela e eu a atriz”. Conhecida por sua língua afiada, a talentosa Marília não poderia estar mais errada: Sonia é estrela sim. Mas, que atriz! Fato que pode ser confirmado pela sua nova incursão nas telas, Aquarius“, longa-metragem de Kléber Mendonça Filho (“O som ao redor“, 2012) que andou causando em Cannes e gerou fortes rumores de que a paranaense poderia arrebatar a Palma de Ouro de ‘Melhor Atriz’.

Aquarius Sonia Braga final

Sonia Braga em “Aquarius”: atriz mostra maturidade física nas telas em interpretação contida e soberba, que quase levou para a casa a Palma de Ouro em Cannes. Veículos de prestígio internacional como Variety e The Guardian elogiaram a presença da estrela no filme, enquanto o jornalista Tim Tobey, do Telegraph, especulou sobre a possibilidade de a brasileira ser indicada ao Oscar de ‘Melhor Atriz’ (Foto: Divulgação)

Aquarius Sonia Braga Festival de Gramado 2016 retrospectiva final

Seis momentos icônicos de Sonia Braga na telona e na telinha, da esquerda para a direita no sentido horário: como Gabriela (1975) na novela homônima que consolidou sua carreira, ao lado de Mauro Mendonça e José Wilker em “Dona Flor e seus dois maridos” (1976), como starlet no sucesso de Arnaldo Jabor “Eu te amo” (1981), enigmática no longa que a levou a Hollywood “O beijo da mulher aranha” (1985), em “Aquarius” (2016) e como a exuberante protagonista de “Tieta do Agreste” (1996) (Fotos: Divulgação)

Prestes a estrear dia 1º de setembro no circuito exibidor nacional, o filme teve pré-estreia no Rio nesta quarta-feira (24/8) numa filial carioca zero quilômetro da Reserva Cultural seguida de festança. E, seguindo sua trajetória ruidosa de produção financiada através dos mecanismos de incentivo fomentados pelo mesmo governo dilmista que seu diretor e elenco defendem, polemizou novamente nesta abertura do Festival de Gramado (26/8), quando foi exibido hors concours, com manifestantes bradando “Fora Temer!”.

Confira abaixo quem passou no badalo de lançamento de “Aquarius” no Brasil, que contou com viplist bacanuda da dupla Liège Monteiro e Luiz Fernando Coutinho (Fotos: Marcelo Prado / Divulgação):   

Aquarius Sonia Braga Festival de Gramado 2016 final

Fulgurante, a diva avança no red carpet sob os olhares atentos dos fotógrafos nesta última sexta-feira (26/8), na abertura do Festival de Gramado. Sonia, que já ganhou dos Kikitos de ouro no evento brasileiro, por “Eu te Amo” e “Memórias póstumas”, já concorreu também três vezes ao Globo de Ouro de ‘Melhor Atriz Coadjuvante’ e uma vez ao Emmy e outra ao Bafta (Foto: Reprodução)

Ovacionada antes e depois de receber o Troféu Oscarito das mãos de Bruno Barreto, Sonia contemporizou: “É um filme sobre amor. Sobre o amor de uma mulher pela cidade, pela família. E acho que isso cria certa polêmica. Porque na realidade a política é invisível no filme. A política no filme é sobre os direitos de uma cidadã”, sustentou, toda chique. E Mendonça Filho emendou: “É um filme sobre vida em sociedade. É um tema que me interessa. A vida em sociedade não é fácil. Não é inviável, mas não é fácil”.

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Dama de vermelho: Sonia Braga assume a divante no red carpet do Fesrtival de Cannes, em maio, quando foi uma dss sensações dessa edição do evento (Foto: Reprodução)

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Ao lado do diretor Kléber Mendonça Filho e elenco, o furacão Sonia irrompe no Festival de Cannes (Foto: Divulgação)

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Na época, em meio ao burburinho quanto à possível saída da presidente Dilma Rousseff do governo brasileiro, a trupe de “Aquarius” protestou diante do Palácio dos Festivais. Quase ao mesmo tempo, era revelado que o longa-metragem havia sido subsidiado sob os auspícios do governo petista (Foto: Reprodução)

Imbroglio político à parte, o filme é sensível, urbano e o fato de a narrativa se passar em Recife não o torna regional. Trata-se de uma trama universal sobre as instâncias do poder agindo no âmbito cotidiano, longe de esbarrar num daqueles pilares que constituem as realizações brasileiras que têm espaço no circuito exibidor. Nada de comédia ligeira com astros da TV, estética da miséria, enredo étnico ou trajetória de personagem histórico. Nem mesmo filme com temática gay, ainda que “Aquarius” explore um tiquinho esse assunto. Tudo isso já confere um charme extra à produção, que também procura se beneficiar da fotografia que passa ao largo do hiperrealismo digital que anda tomando conta até do cinema brasileiro.

Assista abaixo ao trailer (Divulgação): 

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Entrega em cena: sem se preocupar com a forma como o público a verá, Sonia Braga mostra em “Aquarius” um desprendimento da vaidade a favor de uma personagem que, apesar da dignidade, nem de perto arranha sua aura estelar (foto: Divulgação)

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Tipo crente: amargurada com a situação na qual é enredada, a contida Clara de “Aquarius” chega a emular o visual da ex-ministra e presidente do partido político REDE Marina Silva(Foto: Divulgação)

A história sobre uma jornalista e crítica musical que sofre assédio de uma empreiteira que pretende construir um arranha-céu sobre o terreno do predinho em que vive – personificada pelo engenheiro “coxinha” interpretado por Humberto Carrão – não é original, nem precisa ser. Esse tipo de trama sempre existiu até na televisão, e o clássico da Globo O Espigão (de Dias Gomes, 1974, da mesma época em que Sonia galgava sua fulminante escalada como mito das telas) é um exemplo notório na dramaturgia nacional.

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Arte imita a vida: tanto na ficção quanto na realidade, Sonia Braga revela a volta por cima nos dissabores da terceira-idade. O resultado, em ambos os casos, é esplêndido! (Foto: Divulgação)

Enquanto discute questões como os direitos civis e os limites corporativos que os ultrapassam, a história avança aonde interessa: aborda a milenar questão que é a do corpo que se habita. Conduz a narrativa a metáfora entre o câncer sofrido anos antes pela protagonista Clara e a invasão que ela sofre em sua rotina, quando a construtora decide fazer o diabo para fazê-la vender o último apartamento ocupado de um edifício semi-fantasma. O que importa mesmo é a analogia entre a doença que insiste em se instalar numa mama, como cupins que corroem a alvenaria, e toda a sorte de elementos externos que tentam invadir o dia a dia da personagem. No fundo, independente do fim, o que acaba valendo é a forma com que a personagem conseguirá ou não lidar com estes obstáculos, como se extirpa uma organismo indesejado do próprio corpo.

Nesse aspecto, corpo físico e psiquê se amalgamam com o corpo arquitetônico representado pelo apartamento ao qual a proprietária se apega, que por sua vez sintetiza a delicadeza com que uma recém-integrante da terceira idade necessita encarar a existência para se manter soberana de si.

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Dureza: a fotografia de “Aquarius” destitui as sequências de qualquer glamour e ainda revelam a passagem do tempo (Foto: Divulgação)

O elenco funciona, Irandhir Santos flui e Maeve Jinkings (“O som ao redor”, “Boa sorte, meu amor”, “Boi Neon”) aos poucos vai ocupando seu espaço na telona. Mas, indiscutivelmente, é um filme de atriz feito para uma atriz.

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Como Ana Paula em “Aquarius”, Maeve Jinkings abre espaço na cinedramaturgia nacional (Foto: Divulgação)

Aos 66 anos, Sonia engole as cenas do início ao fim e sua coragem em se exibir numa luz que evidencia as marcas da idade prova que ela nunca se rendeu às ciladas que vêm na rabeta de quem foi símbolo sexual um dia, no mesmo patamar de Cassia Kis Magro ou de Charlotte Rampling, Vanessa Redgrave ou Jacqueline Bisset, para citar três estrelas britânicas que não fizeram o jogo do botox. Ou de outra que, apesar de nunca ter sido ícone do furor sob lençóis, embarcou na mesma onda: Geraldine Chaplin. Aliás, nesse parâmetro, a nossa Dona Flor sai na frente, pois, mesmo com as rugas no canto da face, não perdeu encantamento nenhum e vale cada minuto de projeção.

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Não são de recém-nascido: rugas na expressão facial de Sonia Braga demonstram o cuidado com que a atriz cuida de sua aparência, sem abrir mão da naturalidade. Em 2003, foi divulgada uma intervenção cirúrgica que não afetou sua expressividade, sob a batuta de Ivo Pitanguy, morto recentemente  (Foto: Reprodução)

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Mais de vinte anos antes dessa plástica, no auge da beleza, Sonia Braga posava para a divulgação de “Eu Te Amo” (1981) em poster que marcou a história do cinema brasileiro (Foto: Reprodução)

Aquarius Sonia Braga desfile Adriaan Degreas final

Há alguns anos, Sonia Braga capitalizou atenções na São Paulo Fashion Week quando desfilou para Adriana Degreas. Não houve top model que ofuscasse seu brilho (Foto: Divulgação)

Confira abaixo a galeria de estrelas que surgiram na mesma época de Sonia Braga e que também renegaram a artificialidade dos processos de rejuvenescimento (Fotos: Reprodução) 

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