* Por Bruno Muratori, direto de Lisboa

Se não existe pecado abaixo da linha do Equador, acima muito menos! Pelo menos na terrinha. Quando se pensa em Portugal, vem logo à mente o ferrenho passado católico dos tempos de Dom Manuel I – O Venturoso –, que instalou a Inquisição mesmo contra a vontade, e da melancólica Dona Maria, a louca. De tão carola, a rainha chegou a decretar nove dias de luto quando ladrões entraram em uma igreja e espalharam hóstias pelo chão, adiando negócios públicos e acompanhando a pé, com uma vela, a procissão de penitência que percorreu Lisboa inteira. Mas, o que poderia haver além dessa obsessão cristã, se o que predomina são as portentosas igrejas espalhadas pelo país? Muçulmanos circulando pela capital portuguesa não é algo comum de se ver como em outras metrópoles europeias. Depois de séculos de perseguição, judeus também não pululam por ali como em outras cidades do continente. E as religiões africanas… Bom, há uma boa quantidade de cidadãos de origem afro, mas a maioria foi colonizada pelos portugueses e abraçou a fé em Cristo. Na contramão disso tudo, existe Gislaine Silva, a Ialorixá, – ou simplesmente Mãe Gi – a brasileira que lidera um terreiro de candomblé além-mar. Curioso, ÁS foi conversar com a moça – uma simpática paranaense com bochechas proeminentes e sorriso aberto, que também gosta de pintar quadros e ama moda: seu sonho é criar uma grife e desenhar roupa até para o candomblé. Confira!

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Mãe Gi entre os quadros com croquis de vestidos que desenha todo dia de manhã: “Às 5h começo a receber a inspiração de cima” (Foto: Bruno Muratori)

ÁS: Gislaine, conta um pouco sobre você e esse seu percurso espiritual. Como você acabou chegando desse lado do Atlântico?

MG: Sou do Paraná, de uma cidadezinha chamada Mandaguari (centro-norte do estado). Meu pai já tinha ligação com a umbanda. Confesso que nunca me liguei nesse lado e até achava que era coisa negativa. Me preocupava com outras questões na minha vida. Esse caminho começou em 2001 quando eu vim do Brasil para Portugal. Chegando aqui, senti uma forte necessidade, uma angustia enorme de saber quem eu era e o porquê de estar nesse mundo. Tipo autodescoberta. Daí, conheci uma casa de candomblé e entrei na espiritualidade pela dor. Aprendi muito, fiquei por lá 11 anos e me tornei uma pessoa muito melhor, com equilíbrio para prosseguir e ajudar as pessoas. A dor acabou se transformando em amor!

ÁS: Aqui em Portugal tudo tende a ser mais prático. Não é comum nem ver a população consultando horóscopos, mapa astral. Superstições seguem ao largo. Ninguém liga se passa embaixo de escada e não é fato costumeiro na rotina dos habitantes olhar para alguém e dizer que o santo não bate. Podemos dizer que os europeus são céticos e que o candomblé tem pouco espaço por aqui?

MG: Eles não são céticos! Lá no fundo, eles acreditam, ainda mais quando a coisa aperta. O diferencial é que eles são muito mais reservados que os brasileiros, bem mais discretos. Não curtem aparecer. Os portugueses vão à igreja católica, fazem aquela linha e, quando vêm aqui, gostam do tambor, sim! (brinca) Mas, existe um receio de dizer que vão ao “bruxo” (como chamam o líder do ocultismo).

ÁS: E como você lida com esse aspecto? Dizem que Fernando Pessoa se interessava pelo misticismo de forma declarada em sua época. Um tanto fora do padrão por aqui…

MG: Ah, respeito o jeito deles e acho que tanto para aqueles cuja a vida é um livro aberto quanto para os que levam a fé na encolha, o que conta é a espiritualidade e o coração, as ações.

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Mãe Gi posa na mesa de trabalho: a moça abraçou a fé, substituiu a dor pela crença e hoje faz o bem, esperando a hora certa para lançar sua marca de alta costura (Foto: Bruno Muratori)

ÁS: E como se faz em certos trabalhos e oferendas para usar determinados produtos do Brasil? É fácil encontrá-los ou é preciso dar o jeitinho brasileiro?

MG: Sim, é possível adaptar. Por exemplo: certo dia eu tinha que fazer um trabalho e precisei de uma folha chamada tapete de Oxalá. Não havia. Tive que improvisar e usei o milho branco. Tem outra questão também: quando as coisas são feitas com fé e de coração, eles recebem. Quem são as entidades? São energias! O coração é o que tem mais valor.

ÁS: Então, predomina a caridade ou como funciona essa coisa de cobrar pelo trabalho?

MG: Ás vezes, com uma vela e um copo d´água eu posso resolver as coisas de acordo com a nossa fé. Eu mesmo trabalho muito na base da caridade, não vejo os Orixás como um meio de comércio. Eu vejo amor, tudo o que vou fazer falo com meu pai Oxóssi e minha mãe Iansã; peço que eles me guiem. Isso prevalece, mas penso que deve vir da pessoa, caso ela queira recompensar pelo bem recebido. Orixá é simples, eles são humildes e eu também tenho de ter. Há muito exagero, sim, mas eu não concordo e sei que há casos e casos. Não acho certo negar ajuda para quem precisa por não ter dinheiro porque ninguém pode descobrir o seu santo para cobrir o meu.

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À paisana: fora da casa de santo e sem os paramentos, Gislaine Silva parece apenas mais uma brasileira que foi tentar a sorte em Lisboa (Foto: Bruno Muratori)

ÁS: Sabemos que você tem certa paixão pela moda, além da pintura. Como consegue conjugar a carreira de estilista e Mãe de Santo?

MG: Esse dom foi um presente que eu recebi desde criança. Tive uma infância simples e com pouca beleza. Então, não tive incentivo de ninguém. Aos 10 anos comecei a desenhar para as minhas bonecas, fazia roupa com pedacinhos de tecido. Nunca fiz um curso, mas isso está forte em mim; sou uma estilista e artista plástica, eu vejo e desenho.

ÁS: E como isso acontece em paralelo à obra no terreiro?

MG: Ao longo da minha vida já contabilizo mais de 4 mil desenhos. Criei uma marca, já tenho tudo alinhado nesta cabeça aqui. Há alguns anos, optei pela minha missão espiritual, a de cuidar das pessoas. Mas a moda não está esquecida. Em alguma hora, isso vai acontecer. Digo mais: mesmo sem estar no meio, dentro das semanas de moda, sou avisada e sei quais são as tendências. De manhã, por volta de umas 5h, vêm as informações e começo a criar. Quando me dou conta, já tenho por aí uns 200 desenhos. Digamos que é quase uma psicografia da moda, rs. Além de vestidos de alta costura, quero produzir roupas para candomblé. Tudo tem seu tempo…

Nessa hora, uma das filhas da casa de Mãe Gi, a portuguesa Lena Madeira, entre no papo:

LM: Já tive em outra casa de candomblé e a experiência não foi muito boa, havia até pensado em desistir. No entanto, a espiritualidade me puxou para cá, onde finalmente estou muito bem, aprendendo coisas novas. Isso aqui é uma escola. Estou conhecendo coisas que não conhecia da religião e pronta para seguir minha vida. Não preciso fazer nada à base do grito e pressão, cheguei a ser muito humilhada na outra casa. Com a Mãe Gi, sou respeitada. Ela é muito diferente, uma mulher muito humana.

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Gislaine Silva – ou simplesmente Mãe Gi – roda a baiana na terrinha: a brasileira descobriu que os portugueses fazem a fezinha, “só são discretos e não abrem o jogo” (Foto: Bruno Muratori)

ÁS: Aproveitando a boa energia e a consulta de borla, há alguma carta para o Brasil e alguma previsão que a Mãe Gi possa fazer para 2016?

MG: Olha ainda não tive nenhuma informação, mas eu apelo muito para Xangô, que é o Orixá da justiça. Há muita ganância, egoísmo, um querendo se dar bem a todo custo, em cima do outro. Peço a Oxalá que confira equilíbrio às nossas vidas. Que Xangô venha a interceder pelo povo brasileiro nesse momento político, de tantas decepções e descrenças. O mundo está doente e a culpa é inteiramente nossa.

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Entidade na beca: Gislaine posa ao lado do quadro com o Zé Pilintra retratado. A moça também pretende criar roupa para santo (foto: Bruno Muratori)

* Carioca de nascença e cidadão do mundo, Bruno Muratori vive a saga da reinvenção. Em 2009, saiu do Brasil para morar em Paris e se tornou produtor de festas. Depois foi para Lisboa, desvendou a terrinha para os brazucas e renasceu como um porto seguro, fornecendo preciosas dicas da night na metrópole. Há dois anos, retornou ao Rio, trabalhou com publicidade, marcou presença e colaborou com sites de comportamento. Agora de volta à Europa, faz a ponte entre a cultura mainstream de lá e aqueles badalos com jeitinho de alcova.

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