Chega a ser curioso: premiação que surgiu no mainstream fomentada pela Fundação Cesgranrio e a paixão pela arte de seu presidente Carlos Alberto Serpa, com 300 mil reais em prêmios divididos por 12 categorias e festa de celebração realizada ano após ano no Belmond Copacabana Palace, no Rio, a 5ª edição do Prêmio Cesgranrio de Teatro foi a voz de quem batalha duro para fazer do palco sua vida, sem depender de expedientes estatais.

Beth Serpa, Carlos Alberto Serpa e Christiane Torloni (Fotos: Eny Miranda / Divulgação)

Casal vipão: Luiz Fernando Coutinho e Liège Monteiro lotaram o Copa com sua lista de famosos (Fotos: Eny Miranda / Divulgação)

Além de homenagear Antonio Fagundes – 50 filmes, 40 novelas e 30 peças no currículo, várias encenadas a partir do esforço do ator em buscar recursos sem depender das leis de incentivo –, a noite levou à ribalta produções que se levantaram à margem do apoio do governo: baluarte da interpretação, Guida Vianna se consagrou ‘Melhor Atriz’ por Agosto e “Tom na Fazenda“, empreitada individual do ator e DJ Armando Babaioff, obra de temática gay que é sucesso de público na base do boca a boca e levou para casa quatro estatuetas: ‘Melhor Cenografia’ (Aurora de Campos), ‘Melhor Direção’ (Rodrigo Portella) e um duplo reconhecimento na categoria “Melhor Ator’, que o astro-produtor dividiu com seu colega de cena Gustavo Vaz. Outra peça independente, Mata teu pai“, dirigida por Inez Viana e encenada por uma surpreendente Debora Lamm deu a Grace Passô o prêmio de ‘Melhor Texto Nacional Inédito’.

Antonio Fagundes em dois momentos: recebendo uma honraria de Carlos Alberto Serpa… (Fotos: Eny Miranda / Divulgação)

…e beijando a amada Alexandra Martins (Fotos: Eny Miranda / Divulgação)

Armando Babaioff (esq.) e Gustavo Vaz (dir.) dividem o prêmio e celebram o sucesso espontâneo da peça de temática gay com produção independente (Fotos: Eny Miranda / Divulgação)

Recebido no palco pelos mestres de cerimônia – um espirituoso Du Moscovis e uma Christiane Torloni deslumbrante, envolta num dourado que nada devia aos red carpets dos Tony, Emmy ou Oscar, aliás, dupla em melhor sintonia nesses cinco anos de história da celebração –, Fagundes mandou na lata: “Nos últimos anos tivemos 38 teatros fechados no Rio, casas que não vão voltar. Essa arte hoje em dia é a de quem carrega a chama do fazer teatral. Por isso faço questão de não ficar preguiçoso, sem me acomodar com o patrocínio que já bancou a produção. Levanto a peça e ela fica em cartaz  até atingir 80, 90 mil pessoas, acabando quando o público perde o interesse”.

Noite do Oscar: Christiane Torloni e Du Moscovis brilharam no palco do Golden Room (Fotos: Eny Miranda / Divulgação)

O veterano foi ovacionadíssimo, assim como Tarcísio Meira, aplaudido de pé, que entregou o prêmio de ‘Melhor Espetáculo’ a Suassuna – o Auto do Reino do Sol“, o outro grande premiado da noite: levou também ‘Melhor Figurino’ (Kika Lopes e Heloisa Stockler), ‘Melhor Ator e Musical’ (Adrén Alves), ‘Melhor Direção Musical’ (Chico César, Beto Lemos e Alfredo Del Penho), empatando com “Tom na Fazenda”.

Da esquerda para a direita: Tarcísio Meira, Gloria Menezes, Monah Delacy, Liège Monteiro e Luiz Fernando Coutinho (Fotos: Eny Miranda / Divulgação)

A trupe de “Suassuna – O Auto do Reino do Sol”, melhor espetáculo da 5ª edição do Prêemio Cesgranrio de Teatro, sobe ao palco do Golden Room (Fotos: Eny Miranda / Divulgação)

Mas a noite foi de Guida Vianna – 63 anos, 42 de carreira – que, entre palavras contundentes, brincou: “Não tenho 12 milhões de seguidores no Instagram, sou daquela turma que o público não associa o rosto ao nome. Para montar uma peça peço empréstimo no Itaú, que só me dá 30 mil e fico pagando em prestações”.

O discurso da atriz foi inspiradíssimo, com ela se dirigindo a Fagundes: “Fafá, estamos todos do mesmo lado no ofício, na labuta, no amor ao teatro. Mas há diferenças, sou de quem faz Circuito Sesi para sobreviver. Me identifico com as outras onze pessoas do elenco de “Agosto”, essa meninada que faz três ou quatro peças ao mesmo tempo para manter sua arte. Para encher os 80 lugares do Sesi, passo o dia filipetando no metrô, faço o tal crowfunding, que é nome bacana para a velha vaquinha”.

Arlete Salles entrega a estatueta de ‘Melhor Atriz’ a uma verborrágica Guida Vianna no Prêmio Cesgranrio de Teatro (Fotos: Eny Miranda / Divulgação)

E, quando a plateia acreditava que não viria mais nenhum petardo, Guida não se fez de rogada disparando a língua como se fosse o guarda-chuva fuzil do Pinguim do Batman: “Temos mais um ano de Pezão e três de Crivella, que quer acabar com a arte. Temos um Estado falido e uma Prefeitura que não valoriza a cultura. Precisamos sobreviver a isso”.

O tom da noite foi mesmo político. Maitê Proença, recém-demitida da Globo, apresentou a categoria seguinte à Guida e se dirigiu a esta: “Estou desempregada. Posso entrar para o seu grupo?”. E, ao ser agraciado, Armando Babaioff segurava um cartaz de duplo sentido onde se lia “amar sem temer” para depois emendar: “A gente se endivida para por no palco aquilo que a gente ama. Estou até agora encalacrado com as despesas, mas quando li sobre os 347 assassinatos de gays no Brasil, em 2016, causadas pela intolerância, o esforço faz tudo valer a pena”.

Amir Haddad e Maitê Proença (Fotos: Eny Miranda / Divulgação)

“Tom na Fazenda” é uma inquietante denúncia sobre a violência contra os homossexuais. Por isso mesmo, o diretor Rodrigo Portella, heteroafetivo casado e pai de um garoto de 10 anos, emocionou todos ao subir no palco: “Quando eu era menino na minha cidade, vi o pai de um amigo dizer para ele que, se ele ‘virasse viado’, matava ou o aleijava. Anos depois, descobri que esse pai tinha um namorado. Essa peça não é sobre o ódio; é sobre o medo”.

Rodrigo Portella (Fotos: Eny Miranda / Divulgação)

Maneco Quinderé foi considerado ‘Melhor Iluminador’ por “Hamlet – som e fúria”, que concorreu em cinco categorias (Fotos: Eny Miranda / Divulgação)

É nesse aspecto que o Prêmio Cesgranrio de Teatro é tão moderno. Ele  pode parecer uma celebração formal, nos moldes do fomento privado à la Getty, à la Thyssen-Bornemisza. Se por um lado, Carlos Alberto Serpa demonstra ser adepto de um  mecenato old school, daquele que encontra parâmetros em humanistas do passado, patrocinadores da arte como Cosimo De’ Medici (1389-1464) ou seu filho Lorenzo De’ Medici (1449-1492), ele se mostra aberto às novas tendências de comportamento com o olhar de uma criança que quer enxergar o mundo. Por exemplo: instituiu um prêmio para o setor audiovisual e anda investindo em webséries, em canal o YouTube. E apresenta, ao mesmo tempo, o trailer de uma série tradicionalíssima, de cunho bíblico, nos moldes da produção da Record, enquanto exibe em sequência o de outra que explora o ambiente urbano contemporâneo jovem, tipo “Malhação“.

Hildegarde Angel, Paulo Betti, Antonia Frering e Carlos Alberto Serpa (Fotos: Eny Miranda / Divulgação)

Sua opinião demonstra estar afinadíssima com as vozes que se insurgiram no palco do Galden Room, na noite dessa terça, contra o descaso das autoridades cariocas e fluminenses quanto à cultura. Foi o que ÁS pode perceber em papo exclusivo com Serpa, quando ele falou sobre o Prêmio de Dança Cesgranrio que acaba de lançar, com coordenação de Ana Botafogo, abrangendo Balé Clássico, Dança Contemporânea e Street Dance, com prêmios de 12 mil reais para cada categoria. E com o seu segundo teatroque vai abrir no Rio Comprido, bairro degradado agora em recuperação: “Lamento que sempre se cortem prioritariamente as verbas da cultura, como se fossem desnecessárias, uma coisa menor. É um grave equívoco contra o qual lutamos com todas as nossas forças, e dentro das nossas possibilidades. Não há educação sem ambiência cultural”.

Ana Botafogo (Fotos: Eny Miranda / Divulgação)

Serpa ressalta a consolidação do Prêmio Cesgranrio de Teatro: “Veio para ficar e para fazer a diferença. Vamos, ao final de 2018, criar dois importantes espaços culturais: um teatro para 650 pessoas, no Rio Comprido, no prédio da antiga Casa de Festas Le Buffet, com toda a tecnicidade e modernidade que um teatro exige para abrigar produções até de grande porte. Em um espaço menor, com palco e espectadores sentados em mesas com cadeiras espalhadas no salão, como um mini Canecão ou o Golden Room de antigamente, teremos uma plateia de 300 pessoas. E neles abrigar tanto produções externas quanto próprias a preços populares”.

Beth e Carlos Alberto Serpa (Fotos: Eny Miranda / Divulgação)

Ele opina sobre a importância do fomento privado e público na arte, no Brasil e no Rio em especial: “A iniciativa privada é fundamental e necessita de maiores benefícios fiscais que os atuais que, como a Lei Rouanet, que tem ajudado e muito a produções culturais e ao atendimento sociocultural de plateias. Mas o Governo tem que privilegiar a cultura. Casos como o do Theatro Municipal jamais poderiam ocorrer”, afirma, se referindo ao atraso de salários e à produção artística da companhia supsensa por conta da falência do Estado do Rio”.

E termina como bom visionário, como a antiga família Médici: “Se desejamos sair da crise que nos assolou e enfrentar os desafios de uma nova sociedade do século 21, teremos que formar melhor as novas gerações. As variáveis socioemocionais do indivíduo devem passar a ser fundamentais para o exercício das novas atividades profissionais que estão surgindo e que velozmente ainda surgirão”.

Confira quem mais passou por lá (Fotos: Eny Miranda / Divulgação):

Da esquerda para a direita, Antonio Pitanga, Amir Haddad e Marcelo Calero (Fotos: Eny Miranda / Divulgação)

Armando Babaioff e Caco Ciocler (Fotos: Eny Miranda / Divulgação)

Alexandra Martins, Paulo Betti e Antonio Fagundes (Fotos: Eny Miranda / Divulgação)

Aline De Luna (Fotos: Eny Miranda / Divulgação)

Claudia Ohana (Fotos: Eny Miranda / Divulgação)

Fabio Júdice (Fotos: Eny Miranda / Divulgação)

Francis Bogossian, Hildegarde Angel e Heckel Verri (Fotos: Eny Miranda / Divulgação)

Jonatas Faro (Fotos: Eny Miranda / Divulgação)

José Fidalgo (Fotos: Eny Miranda / Divulgação)

Leona Cavalli (Fotos: Eny Miranda / Divulgação)

Malvino Salvador (Fotos: Eny Miranda / Divulgação)

Nelson Sargento (Fotos: Eny Miranda / Divulgação)

Renato Góes (Fotos: Eny Miranda / Divulgação)

Sheron Menezes (Fotos: Eny Miranda / Divulgação)

Stella Miranda (Fotos: Eny Miranda / Divulgação)

Totia Meireles (Fotos: Eny Miranda / Divulgação)

Deixe seu comentário

Seu email não será publicado.