Ferveu neste final de semana, no Estados Unidos, a San Diego Comic Con, principal evento de cultura nerd do mundo patrocinado pela indústria cultural, no qual os principais lançamentos do cinema e TV são anunciados com alarde. Entre estandes painéis, simpósios, talk shows, exibições de trailers, barraquinhas com toda espécie de memorabilia e milhares de cosplays dando pinta pelos pavilhões do San Diego Convention Center, um dos grandes destaques foi o lançamento do primeiro comercial do longa-metragem de Mulher-Maravilha” (Wonder Woman, Warner Bros.) programado para ser lançado em junho de 2017. Tudo a ver em tempos nos quais se incensa o tal empoderamento feminino, tão em voga hoje em dia.

Confira abaixo o trailer de “Mulher-Maravilha” (Divulgação):

A data é significativa pois a personagem, um dos maiores ícones femininos da cultura pop global, comemora em 2016 seus 75 anos de estrada com direito a lançamento de selos especiais emitidos pelos correios norte-americanos.

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Foto: Reprodução

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Entre idas e vindas desde a década passada, o longa-metragem da Mulher-Maravilha (que nunca então havia chegado à telona) é capitaneado por Patty Jenkins, diretora que estreou no cinema com Monster: desejo assassino (2003), produção que concedeu o Oscar de ‘Melhro Atriz’ a uma Charlize Theron irreconhecível sob quilos de maquiagem que a transformaram numa horrenda serial killer lésbica.

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Charlize Theron em “Monster”: sul-africana passava por longa sessão de maquiagem para ser caracterizada como uma assassina homossexual no filme que revelou Patty Jenkins ao mundo (Foto: Reprodução)

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Patty Jenkins orienta Gal Gadot como Mulher-Maravilha no filme homônimo que estreia em 1 de junho de 2017 (Foto: Divulgação)

Com apenas um filme de cinema no currículo, Jenkins enveredou pela tevê após o sucesso de “Monster”, em episódios de séries aclamadas como Arrested Development“. Ela quase dirigiuThor: mundo sombrio” (Thor: The Dark World, de Alan Taylor, 2013), mas se afastou da produção por divergências artísticas com a Marvel. Portanto, é na heroína que a cineasta deposita todas as fichas.

A nova Mulher-Maravilha, interpretada pela israelense Gal Gadot, foi amplamente criticada pelos fãs xiitas, que não reconheciam nas suas linhas alongadas de top model o biótipo voluptuoso necessário para interpretar a guerreira amazona. Sua ideia fixa, digamos, estava mais para panicat que para Gisele. Com escarcéu na internet, o principal argumento era a ausência, em Gadot, de uma peitaria de responsa na contramão daquele avantajado par de seios que a Miss Mundo Lynda Carter exibia na famosa série de televisão setentista, até hoje padrão definido para a personagem nos quadrinhos.

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Novo shape: o produtor Zack Snyder concebeu o atual visual da guerreira amazona em parceria com os mandachuvas da editora DC Comics. A ideia é atualizar o mito da Mulher -Maravilha, preservando suas características essenciais (Foto: Divulgação)

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Vida imita a arte: no colorido clássico da bandeira norte-americana e com direito aos peitões de melancia e quadris avantajados, a Mulher-Maravilha de Lynda Carter se tornou parâmetro para sua reprodução nos quadrinhos…(Foto: Reprodução)

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…em obras de desenhistas como Alex Ross (Foto: Reprodução)

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Atualmente, alguns artistas optam por interpretar a princesa amazona das histórias em quadrinhos como uma espécie de bodybuilder anabolizada, como Frank Cho (Foto: Reprodução)

O début da nova Wonder Woman, contudo, calou a boca dos contestadores mais ferrenhos: a Mulher-Maravilha de Gal Gadot, apresentada em março deste ano no longa-metragem Batman vs. Superman” (idem, Warner Bros. 2016) foi a única unanimidade do filme, com sua presença no longa celebrada aos quatro ventos.

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“Batman vs. Superman” (2016): Diana Prince era só coadjuvante no controverso longa-metragem de Zack Snyder que prepara terreno para a Liga da Justiça no cinemão, mas acabou engolindo tanto o Cavaleiro das Trevas quanto o o último filho de Krypton (Foto: Divulgação)

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Cartaz divulgado este final de semana na SDCC, durante o painel do filme “Liga da Justiça” (Justice Legue, de Zack Snyder), programado para estrear no final de 2017: Mulher-Maravilha assume a pole position na dianteira de ícones masculinos da DC Comics como Flash, Superman, Ciborgue, Batman e Aquaman (Foto: Divulgação)

Todo esse burburinho da pré-produção do filme se amplia com a notícia de que a indústria de brinquedos e afins anda em polvorosa com o fato de bonequinhos femininos estarem começando a subverter a regra de que só personagem homem vende bem. Realmente, está provado em pesquisas que o público infantil feminino prefere as Barbies e Monsters High às representações das super-heroínas. O vasto mercado de colecionáveis de super-heróis é essencialmente formado por meninos e marmanjos que escolhem consumir Hulks, Batmans e outros arrasa-quarteirões de calças, ao invés de mocinhas superpoderosas.

Mas, os mais recentes lançamentos de produtos atrelados aos filmes têm revelado que esse dogma pode estar mudando, assim como as delimitações nas novas gerações daquilo que é masculino e feminino. As vendas mundiais de action comics de criaturas como a Viúva Negra (“Os Vingadores”) andaram provando o contrário com suas curvas crescentes e, diante de uma demanda imprevista, a Disney precisou montar uma operação de emergência para suprir as prateleiras das lojas com um fornecimento não programado de bonequinhos da mocinha Rey (Daisy Riley), de “Star Wars: O Despertar da Força. Tudo indica que o ápice dessa nova onda de consumo pode se consolidar com “Mulher-Maravilha”, que pressupõe um grande esforço de merchandising.

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A action figure da protagonista Rey, de “Star Wars: O Despertar da Força”: sucesso comercial e surpresa para a Disney (Foto: Reprodução)

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Barbie Wonder Woman lançada pela Mattel: gigante da indústria de brinquedos aposta na forte ligação entre sua franquia mais rentável e a heroína mais famosa dos gibis (Foto: Divulgação)

Concebida pelo psicólogo feminista William Moulton Marston – inventor do polígrafo, o detector de mentiras que inspiraria o laço da verdade da heroína –, a amazona foi a primeira super-heroína das história em quadrinhos. Marston acreditava no enorme potencial educador dos comics e, influenciado pela sua mulher Elizabeth e pela amante, a estudante Olivia Byrne, com quem viveu uma relação de poligamia, criou a amazona Diana para a All-American Publications, depois vertida na toda poderosa DC Comics, hoje um braço da Warner Bros.

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Modern family: o clã Moulton Marston com William e suas duas mulheres posa para uma foto em família. De pé da esquerda para a direita, Byrne Marston, Moulton (Pete) Marston, a amante Olive Byrne, Richard. Sentados da esquerda para a direita: Marjorie Wilkes, Olive Ann Marston. William Moulton Marston, Donn Marston e Elizabeth Holloway Marston. Elizabeth e Olive continuaram morando juntas mesmo após a morte do marido em 1947 e até a morte da segunda, no final dos anos 1980. Elizabeth faleceu em 1993 (Foto: Reprodução).

Era 1941 e a data da criação da Mulher-Maravilha coincidia com a entrada dos Estados Unidos na 2ª Guerra Mundial. As mulheres mal começavam a ocupar os postos de trabalho deixados em aberto por aqueles homens recrutados pelas forças armadas. William Marston então afirmaria: “A Mulher-Maravilha é a propaganda psicológica para o novo tipo de mulher que, creio eu, deve governar o mundo”.

De fato, a Mulher-Maravilha sempre esteve associada ao feminismo. Apesar disso, é curioso vê-la, nos primeiros tempos como integrante da antiga Sociedade da Justiça (precursora da Liga da Justiça), exercendo a função de secretária do time de heróis que partiam para salvar o planeta, entre eles Flash, Lanterna-Verde, Átomo e Gavião Negro.  Mas, isso durou pouco e ela logo cresceu em participação e estatura. O mundo mudava…

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Bonde das poderosas: com a Mulher-Maravilha à frente, o elenco feminino da DC Comics se expandiu a um patamar visto nem na concorrente Marvel (Foto: Reprodução)

Em plena contracultura. a Mulher-Maravilha ganhou vulto global com a queima dos sutiãs em praça pública, se tornando um dos símbolos da nova fêmea emancipada que surgia. As feministas viram na personagem uma forma de conciliar o female power com a manutenção do sex appeal, mesmo com Diana envergando o modelito fetichista de pin up nas cores da bandeira estadunidense. Convenhamos, qual vilão resistiria ao golpe de uma babe in tights?

Nessa época a amazona deixava de ser retratada nas tiras e desenhos animados com a bermudinha ciclista colada do pós-guerra para assumir suas minúsculas hot pants. Minúsculas pelo menos para os padrões dos seventies. Afinal, vale lembrar que, no início dos 1970’s, a lycra mal começava a substituir a helanca na moda praia e o Rio só viria a se configurar como a capital mundial do beachwear, já na década seguinte. Invenções salientes como o asa-delta e o fio dental ainda não haviam sequer saído do papel, mas foram sendo aos poucos incorporadas ao visual da heroína por desenhistas como George Perez e o brasileiro Mike Deodato.

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Mulher-Maravilha, por John Byrne: na concepção do quadrinista, a amazona tem bíceps tão proeminentes quanto o busto (Foto: Reprodução)

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A guerreira amazona sob o traço longilíneo de George Pérez: convocado para reciclar a personagem na segunda metade dos anos 1980, o desenhista uniu o melhor das curvas de Lynda Carter à sua visão altiva da Mulher-Maravilha, e ainda adicionou o biquinão asa delta (Foto: Reprodução)

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Evolução: desde sua concepção, em 1941, a Mulher-Maravilha foi passando por atualizações em seu design, acompanhando a direção do vento (Foto: Reprodução)

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Fetiche: sempre houve liberdade artística na editora para reinterpretar a Mulher-Maravilha conforme códigos masculinos de exaltação da feminilidade, como nessa versão anacrônica em que ela assume ares de corista de saloon no Velho Oeste (Foto: Reprodução)

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Recentemente, o quadrinista Frank Cho, incumbido até pouco tempo de representar a princesa amazona nos gibis, abandonou o barco alegando patrulha ideológica da DC Comics que, segundo ele, considerava que a personagem andava despida além do necesaário (Foto: Reprodução)

Identificada com os novos valores da revolução cultural, Diana virou sucesso total, a ponto de a jornalista Jill Lepore, da New Yorker Magazine, escrever na edição que trazia a heroína estampada na capa: ‘Mulher-Maravilha foi concebida pelo Dr. Marston para criar um padrão entre as crianças e jovens de uma feminilidade forte, livre e corajosa; para combater a ideia de que as mulheres são inferiores aos homens, e para inspirar as meninas a terem auto-confiança e a se realizarem no esporte e nas ocupações e profissões monopolizadas por homens, porque a única esperança para a civilização é a maior liberdade, desenvolvimento e igualdade das mulheres em todos campos da atividade humana”.

A previsão de Lepore de fato se cumpriu. Pouco depois, a CBS se uniria a DC Comics para produzir a série que se tornou um clássico da TV, Wonder Woman (1974-1979), estrelada por Lynda Carter, cuja perfeição no physique du rôle a tornou atriz de uma papel só, influenciando definitivamente a percepção dos fãs mundo afora em relação à amazona. Sim, dentro do mesmo balaio, Wonder Woman, Giorgio Armani e ombreiras em breve desembocariam num dos principais fenômenos dos eighties: as yuppies varrendo os homens das funções de comando nas corporações. Mas isso é outra façanha, talvez pouco propensa a virar quadrinhos.

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