* direto de Nova York

Uma poderosa voz nasalada interrompeu subitamente os murmúrios que ressoavam no centenário Teatro Palace, no coração das Broadway, poucos minutos antes da cortina subir para a récita desta última quinta-feira  (11/05) da versão musical de Sunset Boulevardde Andrew Lloyd Webber com o seguinte anúncio: “Senhoras e senhores, boa noite. Quem fala é Glenn Close. Peço-lhes que nesta noite tenham paciência comigo, pois vou atuar mesmo gripada. Não consigo imaginar outro lugar melhor para estar agora. Espero que consigam aproveitar o espetáculo”.

“Dá um close que eu estraçalho”: o bordão de um programa de TV se encaixa perfeitamente no retorno de Glenn Close à Broadway, 23 anos após interpretar a Norma Desmond de “Sunset Boulevard” pela primeira vez. Na época, a atriz tinha 47 anos e não precisou forçar nem o carão nem  a make para fazer todo mundo acreditar que ela era de fato uma vetusta atriz do cinema mudo em pleno ostracismo. Agora, aos 70, seu physique du rôle está mais adequado que nunca ao papel, e a estrela é como um vinho de ótima safra que não perde o paladar. Nem quando está gripada em cena… (Foto: Divulgação)

Após temporada londrina, o musical criado por Andrew Lloyd Webber nos anos 1990 continua magnífico e reestreia em NY com produção impecável. À época da primeira versão, Glenn Close ainda disputava com Meryl Streep o papel de grande dama das telas, e costumava se sair bem sobretudo nos papeis de vilã, mesmo com a resistência da Academia em premiá-la. Ela teve seis indicações ao Oscar e nunca levou nada, mas já ganhou o Tony – o equivalente à estatueta no teatro – três vez, por “Sunset Boulevard”, em 1995 e, nos anos 1980, por “The Real Thing” e “A morte e a donzela” (Foto: Divulgação)

O sombrio musical “Sunset Boulevard” concorre bravamente com mega-produções muito mais vistosas como “Hamilton”, “Cats”, “Waitress”, “Miss Saigon”, “Wicked” e “Charlie and the chocolate factory” que fazem a fortuna da temporada atual da Broadway (Foto: Flávio Di Cola)

O público que lotava a casa, tomado por um misto de apreensão com admiração pelo espetacular gesto de “sacrifício” que significava interpretar e cantar durante mais de duas horas seguidas e no limite das suas energias a patética decadência e a extinção final da ex-estrela do cinema mudo imortalizada na tela por Gloria Swanson, em 1950, respondeu com uma estrondosa salva de palmas que – se não curou a gripe de Glenn Close – pelo menos deve ter-lhe propiciado uma providencial injeção de ânimo para enfrentar o desafio que ela mesma se impusera em nome do “seu público”, o mesmo que Norma Desmond tentou em vão vencer quando se submeteu a todas as humilhações inúteis pela busca da beleza e das glórias perdidas.

“Now, Mr. DeMille, I’am ready for my close-up.” Proferida por Gloria Swanson, a famosa frase que encerra a projeção de “Sunset Boulevard”, (“Crepúsculo dos deuses” no Brasil), entrou para os anais de Hollywood como o epíteto de uma das cenas mais emblemáticas do cinema mundial, na qual a Fábrica de Ilusões revela suas próprias entranhas. Quase 7o depois, não poderia ser mais atual o trágico e insano fim da estrela de outrora Norma Desmond em sua eterno périplo pelo retorno aos holofotes. Lição perfeita para esses novos tempos midiáticos de vaidade sem limites, quando a fama é incessantemente perseguida por quem está no topo,  quem quer brilhar ou um dia brilhou e agora está na penumbra (Foto: Reprodução)

Ao posa diante da imagem de divulgação da nova temporada de “Sunset Boulevard” com cabelos curtíssimos e grisalhos, Glenn Close segue os passos de outras damas da interpretação que preferem estar neutras para se tornarem massinha de modelar no palco e diante das câmeras, como Judy Dench. Na nova versão do musical da Broadway, o turbante usado no figurino seria até dispensável, tal a facilidade da atriz para convencer o público de que ela é realmente uma estrela decadente (Foto: Repodução)

Mas, muito além dessa sensação de reverência por uma grande atriz que preza a sua profissão e que pelo seu ofício não mede investimentos físicos e emocionais, o que passou mesmo na cabeça daquela audiência “maravilhosa, sentada na escuridão”, como diria a própria Norma Desmond, foi a certeza de que a apresentação daquela noite seria única e especial na temporada novaiorquina, depois da estréia no English National Opera Orchestra de Londres, no ano passado.

O 1743 lugares do venerável Teatro Palace, inaugurado em 1913, têm sido insuficientes diante da demanda de público da temporada novaiorquina de “Sunset Boulevard” que se encerra em 25 de junho. Este teatro é famoso por ter recebido grandes nomes do showbiz como Judy Garland e Liza Minelli (Foto: Reprodução)

Há diferenças notáveis entre a produção londrina e a novaiorquina de “Sunset Boulevard”: na Broadway a orquestra de 40 integrantes – um recorde – foi colocada no centro do palco, valorizando a dimensão musical, e a ação dramática verticalizada através de uma estrutura engenhosa de escadas e rampas (Foto: Reprodução)

Afinal, os 1743 espectadores que acorreram ao teatro naquela noite teriam o inesperado privilégio de encenar juntamente com Glenn Close mais uma atualização do ritual sagrado de ascensão de uma “estrela” ao seu ápice, qual seja, o de “doação” incondicional e irrenunciável do seu “brilho” – mesmo que empanado por uma gripe prosaica – à sua legião de fiéis seguidores. Mas não um brilho fútil e efêmero, mas uma emanação radiante que tem a faculdade de nutrir e de proporcionar sentido e elevação à vida dos meros mortais. Para esse tipo de fenômeno os italianos forjaram uma palavra definitiva: divismo.

Com figurino deslumbrante, uma inesperada Glenn Close ruiva saúda a plateia ao término da reestreia de “Sunset Boulevard” no palco novaiorquino em fevereiro, 23 anos após a última vez. A direção musical é de Kristen Blodgette e a direção geral de Lonny Price (Foto: Divulgação)

A Glenn Close/Norma Desmond sob a marquise do Teatro Palace tornou-se ponto obrigatório dos turistas que pululam no Times Square (Foto: Flávio Di Cola)

E foi nesse plano etéreo que Glenn Close, Gloria Swanson e Norma Desmond repentinamente se misturaram ao longo dos 150 minutos de duração de um espetáculo que – na verdade – transformava-se numa cerimônia religiosa a cada linha de diálogo, a cada cena e a cada canção em que Glenn Close despendia visivelmente um esforço descomunal para entregar, a cada um de nós, uma porção do calor da chama sagrada que o público busca nas autênticas divas da tela ou do palco. Para a assistência daquela noite pouco importaram as técnicas e os segredos do ofício que essa atriz consumada deve ter empregado para modular e poupar a voz a fim de conseguir chegar inteira até o fim do espetáculo.

O bonitão Michael Xavier (à esq.) interpreta nesta nova versão de “Sunset Boulevard” o interesse romântico de Norma Desmond (Glenn Close) – o roteirista de cinema endividado que vira gigolô nas mãos de uma estrela no ostracismo. Na versão cinematográfica de Billy Wilder, o personagem Joe Gillis foi vivido por William Holden (Foto: Divulgação)

Em 1994, uma Glenn Close quarentona deu vida a Norma Desmond no palco, ao lado de Allan Campbell. O musical foi um tremendo sucesso na Broadway e, entre 1994 e 1995, nada fez mais burburinho na cena teatral novaiorquina que a presença avassaladora da atriz num papel tão marcante. O turbante se tornou sua marca registrada nessa encenação, e qualquer semelhança do visual da estrela com o de Joana Fomm em “Dancing Days” é mera coincidência. Mas, quem nega? (Foto: Reprodução)

O que o público esperava de fato receber como graça, prêmio e recompensa pela sua assistência era outra coisa: era estar ali, na presença da diva, para vê-la descer a escada – símbolo simultâneo da antiga glória de Norma Desmond e da sua prisão no passado – parecendo uma mistura de Salomé com Imperatriz Teodósia de Bizâncio, para a última canção, a belíssima As if we never said goodbye e a última frase que carimba irremediavelmente seu passaporte para a loucura: “Now, Mr. DeMille, I’am ready for my close-up”. Sim, gripada, exaurida e pronta para entrar num camburão da polícia de Los Angeles, mas ainda sim, pronta para um close-up. Essa era deixa tão esperada para que o teatro viesse abaixo em aplausos super aditivados que marcaram o cruzamento da linha de chegada por Glenn Close/Norma Desmond, como fossem duas maratonistas animadas pelos deuses.

Os looks exibidos por Glenn Close em “Sunset Boulevard” foram concebidos pelo figurinista Anthony Powell, oscarizado três vezes, e pelos veteranos da Broadway Andrew Simonin (perucas) e Charlotte Hayward (maquiagem) (Foto: Reprodução)

“Sunset Boulevard”, versão novo milênio: quase um quaro de século depois da primeira temporada, Glenn Close continua deslumbrante (Foto: Divulgação)

Ninites: cartaz da primeira montagem de “Sunset Boulevard”, de Andrew Lloyd Webber, na Broadway (Foto: Reprodução)

Quase 70 anos depois da sua aparição nas telas, o espírito de Norma Desmond continua mais vivo do que nunca, assegurando a imorredoura aliança entre as divas e seus séquitos imersos na penumbra.

Deixe seu comentário

Seu email não será publicado.