Em cartaz no Rio, Puro Ney é uma pequena pérola musical que vai ao encontro da obra de Ney Matogrosso. Tão intimista quanto visceral – como o próprio artista –, faz parte da cepa de “grandes pequenos musicais” que têm ocupado o palco do Teatro dos Quatro, sem a parafernália dos produções à la Broadway, com elenco estelar de cantores-bailarinos, trocas nababescas de cenário ou banda ao vivo composta por trocentos integrantes.

No Teatro dos Quatro, Rio, “Puro Ney”  oferece ao público um requintado cardápio da obra e alma de Ney Matogrosso num espetáculo-tributo encenado por Marcos Sacramento (esq.) e Soraya Ravenle (à dir.), na medida exata entre a exuberância e a delicadeza (Foto: Leo Aversa / Divulgação)

Com apenas dois atores-cantores em cena, a sempre celebrada Soraya Ravenle e o ótimo Marcos Sacramento, o iluminado light design de Paulo César Medeiros e um cenário eficiente criado por Rico Vilarouca e Renato Vilarouca, o espetáculo mostra a que veio sem apelar, num primor de concisão e roteiro enxuto que percorre, ao contrário da maioria dos musicais que atualmente incensam os grandes talentos da MPB, não a cronologia do artista, mas a plêiade de emoções que envolvem seu repertório.

“Puro Ney” equilibra interpretações hipnóticas com projeções e comedimento nos recursos, tudo sem gordura, trazendo a essência de Ney Matogrosso à plateia (Foto: Cristina Granato / Divulgação)

Os paineis irregulares combinados com a iluminação precisa impregnam “Puro Ney” de um clima sofisticado e cerebral, sem ostentações desnecessárias (Foto: Cristina Granato / Divulgação)

Vale destacar os bons efeitos de videoprojeção, também desenvolvidos pela dupla da cenografia, que imprimem tridimensionalidade em primoroso efeito interativo com os atores em cena, funcionando muitas vezes como uma espécie de close digital destes, de sobreposição dos dois talentos no palco ou como espectros da densa personalidade do retratado, num resultado quase cinematográfico. Cabe perfeitamente esse arroubo de tecnologia num espetáculo tão particular, se considerarmos a eterna modernidade de Ney, apesar de nos últimos tempos expoentes da nova cena musical, que se pretendem o alcance ao supremo estrelato mas ainda são wannabes, haverem criticado na mídia a postura do artista diante da vida, sem compreender direito sua importância histórica e comportamental.

Ao centro, Ney Matogrosso encabeça o trinca de “Secos & Molhados” em imagem de 1973, quando o grupo estouro com “O Vira” e escandalizou o Brasil da ditadura militar com seu visual que mesclava a Tropicália com a estética do glam rock (Foto: Reprodução)

“Puro Ney” lida com as questões do masculino & feminino que engloba a persona do cantor de acordo com aquilo que ele mesmo é, ou seja, apenas sendo, sem fazer alarde, sem levantar bandeira na base do megafone, simplesmente se mostrando e causando somente porque é. Naturalidade que, para o establishment, é uma porrada muito maior que bater no peito urrando, bradando e exibindo turbantes, não porque gosta do estilo, mas para afrontar.

Muita maquiagem, olhos e bocas marcados numa versão tropical do grupo Kiss, com a levada andrógina de um David Bowie, mas dotada de expressão única: além do inegável talento vocal,  Ney Matogrosso conquistou o público com o comportamento que trazia à tona questões de gênero que haviam emergido recentemente na Swinging London do glam rock, mas numa lufada e trajetória singulares. Nada poderia ser mais brasileiro (Foto: Reprodução)

Seja na sua fase glam-hippie-desbunde quanto na maturidade, Ney Matogrosso sempre soube usar artifícios de make e figurino como extensões do seu próprio eu, nunca como elementos alienígenas ao seu corpo, sua alma. E “Puro Ney” é exatamente isso, celebra o essencial que nunca foi supérfluo na sua vida e carreira, mesmo quando usava toneladas de sombra e cajal nos olhos, cabeças de penas espalhafatosas ou quando soltava um agudo, tudo sinceríssimo.

Os figurinos exóticos de Ney Matogrosso são substituídos pelo pretinho neutro na composição visual dos atores de “Puro Ney”. Opção perfeita, que teve consultoria do premiado figurinista Marcelo Maarques. Se as vestimentas de Soraya Ravenle e Marcos Sacramento não impressionam como os efeitos de luz e vídeo, cumprem a função de ser “massinha de modelar” para as atuações magnéticas do par em cena (Foto: Reprodução)

(Foto: Reprodução)Nesse aspecto, a direção segura de Luís Felipe de Lima, a partir de ideia da produtora Cinthya Graber e da concepção original em parceria com Luís Erlanger, é um acerto. Soraya Ravenle e Marcos Nascimento vão de A a Z em atuações que permeiam a dualidade sexual sem caricatura, sem adereços, somente com figurinos simplíssimos, suas máscaras cênicas, seus gestos e, sobretudo, as assombrosas nuances de vozes, amplificadas pela direção de movimento de Lavinia Bizzotto.

A ideia não é ser literal, mas submergir na alma. Se Marcos às vezes até apela, bastante satisfatoriamente, para ombrinhos e olhares faceiros que lembram o gestual de Ney, mais adiante se despe de intenção de reproduzir ipsis literis a postura original do artista para encontrar seu próprio caminho interpretativo.

Entoando hits como “Bandido Corazón” , Marcos Sacramento investe em trabalho de corpo que mescla trejeitos de Ney Matogrosso e seu olhar pessoal acerca do ator. No final, a plateia vai ao delírio com o talento musical do intérprete (Foto: Cristina Granato / Divulgação)

Já Soraya pinta e borda trazendo um misto alternante de masculinidade e feminilidade através do seu poderoso timbre vocal e de um jogo corporal que ora revela força, ora fragilidade. É de arrepiar sua interpretação para Viajante“, sucesso do início dos oitenta que fez parte da trilha sonora da novela Baila Comigo“, de Manoel Carlos, numa época em que as o conjunto musical dos folhetins globais era muito mais sofisticado.

Ardida como pimenta: dessa vez com cabelos curtinhos cor de fogo, Soraya Ravenle impressiona até mesmo quem já está acostumado com seus dotes vocais. Cenas vulcânicas como aquela na qual interpreta verborragicamente “Rosa de Hiroshima” por si só já valeriam o ingresso de “Puro Ney” (Foto: Cristina Granato / Divulgação)

Por fim, vale destacar outra boa sacada: a maneira como os sucessos se compõem em blocos, desde aqueles mais profundos, passando pela série transgressora de hits da época da ditadura, até pelo grupo das músicas faceirinhas, como “Vereda Tropical e Folia no matagal. Imperdível.

Serviço:

“Puro Ney”

Local: Teatro dos Quatro – Shopping da Gávea

Endereço: Rua Marquês de São Vicente, nº 52, Gávea, Rio de Janeiro

Dias: terças, quartas e quintas-feiras

Horário: 20h30

Ingressos: R$ 70

Telefone: (21) 2239-1095

Horário da bilheteria: segunda e terça: das 14 h às 20 h

Quarta à domingo: das 14 h até o início da última sessão do dia

Até 30 de novembro

Venda pela internet: www.ingressorapido.com.br

Cartões: todos

Indicação etária: 12 anos

Duração: 90 m

Capacidade de público por sessão: 402 pessoas

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