*Por Alexandre Schnabl & Andrey Costa

É durante a Semana de Alta Costura de Paris que o menos deixa de ser mais. Dessa vez, na edição que terminou nessa semana, os fashionistas foram agraciados com uma alta costura “over“. Em todos os sentidos. Uma dádiva, considerando o quanto os desfiles ficaram boring nos últimos tempos. Vender, vender, vender, argh! Causar e aparecer nas mídias sociais, causar e aparecer nas mídias sociais, zzz… Dessa vez, ÁS quase sentiu na pele aquela sensaçãozinha de frisson, aquela eletricidade na espinha dos bons tempos em se assistia uma JerryMadame JaggerHall ou Nadja Auermann vestidas de motoca ou besouro num show de Mugler, Erin O’Connor bombando de modelo fetiche de Gaultier, Rossy De Palma fazendo a ponte entre o estilista e Pedro Almodóvar, com seu nariz de bruxa má do oeste surgindo na boca de cena antes mesmo da moça dar o primeiro passo iniciando a catwalk. Ou Galliano e McQueen recém içados ao patamar de enfant terrible que já havia sido de Yves Saint Laurent e JPG, representando o saladão multicultural da então recente globalização. Sem saudosismo, amor, isso também é tão tão tão chatíssimo!

Kaia Gerber para Chanel SS19 (Foto: Divulgação)

Pois bem, honey, tudo isso é para dizer que nessa temporada sonhos imergiram, desejos brotaram, grifes poderosas voltaram a desfilar coleções delirantes e a gente quase esqueceu que o mundo hoje é comandado por um punhado de fundamentalistas encabeçados por um bufão de cabelo Fanta. Teve de tudo: o cirquinho mágico da Dior, que homenageou uma das imagens mais icônicas da história da moda – a fotografia de 1955 na qual Richard Avedon imortalizou a super top da época -, as flores resinadas e pintadas à mão, uma a uma, nos bordados da Chanel e o surrealismo das criações 3D beirando a utopia da moderninha da vez, Iris Van Herpen. Sim, os ateliês da capital da moda efervesceram, oferecendo prazeres dignos de transformarem um jardim de Bosch num mero quintalzinho.

Valentino SS19 (Foto: Divulgação)

ÁS, óbvio, tem lá seus favoritos e pontua os principais desfiles da semana, um para cada um dos sete dias da semana. São sete pecadilhos capitais de que pretende seduzir o público, so so common com maravilhas tão sedutoras quanto uma irresistível promessa feita pelo cramulhão a Fausto. Aliás, Fausto é o que não faltou, e, de quebra, a gente ainda mostra alguns destaques. Voilà!

Valentino SS19 (Foto: Divulgação)

Valentino ganhou destaque por essa coleção. Num desfile com 65 looks, personalidades como Raf Simons, Clare Waight Keller, Giambattista Valli e Christian Louboutin estavam na primeira fila com bons motivos. Não se sabe se foi por reverência à grife favorita de Sophia Loren ou se estavam secando, para evitar a concorrência. Quem sabe? Celine Dion, 50, que também estava presente no desfile do amigo Pierpaolo Piccioli, se emocionou. Em vários momentos, diga-se de passagem. Coisas que a moda causa. Pierpaolo, que já pegou a mão da identidade que quer seguir na construção da marca, causou catarse ao trazer para a passarela volumes suntuosos com caimentos perfeitos.

Alek Wek para Valentino SS19 na Semana de Alta Costura de Paris (Foto: Divulgação)

A beleza certa feita por Pat McGrath nos fez acreditar serem as modelos ninfas de um jardim encantado. E – que vislumbre! – uma Naomi Campbell, 48, sem medo de triunfar num vestido transparente que se assemelhava à uma pintura. A primavera nunca esteve tão bem; floresceu lindamente! Por fim, o tableau vivant capotante do final, só com tops negras, pronto para dar um cala boca na turma tão tão mala que trucidou a label tempos atrás por uma campanha clicada na África só com tops brancas (leia mais aqui).

Valentino Paris Haute Couture SS19 (Foto: Divulgação)

Outro nome fortíssimo da vez foi a designer holandesa Iris Van Herpen, na batuta da Semana de Alta Costura desde 2011 e que sempre foge do convencional quando precisa repensar modelagens, dando vida a elas com seus tecidos tecnológicos impressos em 3D. A coleção intitulada “Shift Souls” é inspirada em exemplos de cartografia celestial e suas representações mitológicas e astrológicas – uma das referências é o “Harmonica Macrocosmica“, um atlas estelar publicado em 1600.

Iris Van Herpen Paris Haute Couture SS19 (Foto: Divulgação)

Tudo a ver quando se trata de uma criadora siderada. No frigir dos ovos, suas figuras parece delicadas ninfas, mulheres-flor que poderiam er saído de um viral ar nouveau, de uma ilustração de tomo decadentista do fin du siècle. Os volumes evocam corolas de hibiscos, de orquídeas. Banquete visual perde. O efeito que suas criações tem quando ganham alma no corpo fazem dela um destaque. Ou ainda um dos possíveis nomes que a definir o futuro da moda.

Iris Van Herpen SS19 (Foto: Divulgação)

Vai, vai, vai começar a brincadeira. O desfile da Dior foi mesmo um grande circo místico. Místico porque, convenhamos, a gente sempre espera que quem quer que esteja à frente da direção criativa da grife repita, na coleção e no show, os arroubos da fase John Galliano. Agora, no Museu Rodin, a temática feminista segue pertinente para que os looks feitos por Maria Grazia Chiuri, 54, saracoteiem em pleno picadeiro. A fonte de inspiração? A famosa foto “Dovima with elephants“, famosa ao retratar a modelo Dovima entre dois inesperados paquidermes no Cirque d’Hiver, em Paris, usando um vestido delezinho, Christian Dior.

Dior SS19 (Foto: Divulgação)

Aliás, Maria Grazia ama de carteirinha misturar suas coleções com um bom “sacode-esqueleto”, fazenda da dança uma animada forma de emoldurar aquilo que sua cabecinha privilegiadinha, esfuziantezinha cria para sua mulher Dior vestir. Nesse circo da moda teve arlequininha moderna com vestido curtinho de bolinhas, o “new look” revisitadinho em listrinhas, alfaiataria estruturadinha em tons levinhos, leveza nos tecidos salpicadinhos com o brilho dos bordados e até rufo de organza/gazar como elemento de styling no pescoço das bonitas. Rolou também palhaçada: uma pirueta, duas piruetas, bravo! Bravo! A cargo da turma acrobática da companhia britânica Mimbre, aliás, que arrasou! Só não teve mulher barbada. Mas sabendo o quanto Grazia gosta de empoderar mulheres, poderia super ter tido!

Dior Paris Haute Couture SS19 (Foto: Divulgação)

Outro que sabe chamar a atenção para o que faz é, óbvio, John Galliano, 58, hoje no comando da Maison Margiela. Se anos atrás ele já ouriçava a todos com seus apoteóticos desfiles na Givenchy, depois Dior, agora ele intriga mais uma vez. No Zeitgeist (espírito da época), os looks de sua mais recente coleção trouxeram uma imersão ao contexto social no qual estamos. Se em uma das suas últimas investidas o estilista retratou a imigração de refugiados, que são obrigados a saírem de seus países e, nas roupas, carregam tudo o que possuem, dessa vez a indagação veio entorno da saturação visual da cultura digital, da forma como consumimos qualquer coisa que nos ofereça a falsa promessa de inclusão, uma crítica direta à geração que destila seu tempo produzindo e assistindo vídeos como o do “outfit“, no qual jovens se vangloriam do valor gasto em roupas trendy. Uma coleção que propõe a fuga imediata da banalização da mediocridade.

Maison Margiela Paris Haute Couture SS19 (Foto: Divulgação)

Exuberância define Chanel. A temporada de alta costura da label francesa encabeçada por Karl Lagerfeld, 85, trouxe uma coleção luxuriosa no Grand Palais, sob uma atmosfera romântica e glamourosa. A inspiração veio do século 18, que ficou implícita no “topetões” das modelos, mas tinha também um je ne sais quoi de annés folles. Além das releituras de modelagens enxutas das silhuetas recriadas, foram a cereja desse nada naked cake os minuciosos bordados, daquela preciosidade que apenas os ateliês de alta costura podem trazer.

Chanel Paris Haute Couture SS19 (Foto: Divulgação)

O kaiser não para e, apesar da idade, segue na ativa rivalizando com Elizabeth II na longevidade arguta, criando para a Fendi, tocando colabs nas áreas das artes. Porém, dessa vez o estilista não deu o ar de sua graça na hora de agradecer os aplausos, algo que nunca dispensou. Mandou no seu lugar Virginie Viard, diretora do estúdio Chanel, causando um burburinho. Seria um esquenta para alguma mudança no comando marca? Ou ordens médicas dadas pelo bichano Choupette? Será que já temos o suficiente do Karl? ÁS só observa.

Chanel SS19 (Foto: Divulgação)

Ironia à toda prova é a tônica do desfile dos engraçadinhos Viktor & Rolf, que nunca dosam na hora de investir em gracejos. Dessa vez, investiram e investiram e investiram nos babados e plissados em camadas com mensagens divertidinhas impressas, tipo “menos é mais”, “Eu não sou tímido(a), eu só não gosto de você” e a que fez muita gente se identificar: “Desculpe, eu estou atrasada, eu não queria ter vindo”. É sabido que os moços tê orgasmos múltiplos com esses insights, e não é que o espetáculo é sempre bom, com modelagens pouco óbvias?

Viktor & Rolf Paris Haute Couture SS19 (Foto: Divulgação)

Sem dúvida, um dos destaques do agito que mostra que alta costura não precisa ser clássica. Na verdade, é o puro ensejo para a exploração da criatividade e do questionamento de padrões. É bobinho, tolinho e ingênuozinho quem pensa que a finalidade é só brilhar ou divertir: nas entrelinhas, temos uma das marcas mais relevantes do mercado fazendo a ligação da passarela com a autocrítica.

Viktor & Rolf SS19 (Foto: Divulgação)

Numa coleção com inspirações no pós-guerra, Bertrand Guyon revisitou os clássicos de um dos maiores desafetos de Coco Chanel, a “italiana” (como a enfezada estilista francesa apelidou) Elsa Schiaparelli. Na grife, que anda nua boa fase de revival, destaque para a brasileira sensação da temporada, Kátia André, que envergou uma belíssima peça que estampava a foto da estilista.

Schiaparelli Paris Haute Couture SS19 (Foto: Divulgação)

A coleção foi toda coloridinha, misturando pastel e neon conforme anda ultimamente a cartilha da moda. Muita pluma, muito paetê. Como diria Regina Guerreiro, a lantejoula apareceu de novo, de novo, de novo… Miraram na lua e aterrissaram numa constelação na qual Elsa, que amava as estrelas, provavelmente amaria estar.

Schiaparelli SS19 (Foto: Divulgação)

Seguem abaixo alguns destaques da Semana de Moda de Paris 2019:

A Chanel sempre apresenta um vestido de noiva em suas coleções, é tradição sempre esperada. Dessa vez, a proposta para a primavera-verão 19 foi um maiô de luxo vazado nas laterais, tipo engana-mamãe, com direito a touca de natação com véu e bordados. Meio Esther Williams. Será que, no calor da moda, essa favorita de Netuno pega? (Foto: Divulgação)

Sonho de valsa: “Menos é mais” é o recado debochado que Viktor & Ralf deixaram durante a temporada (Foto: Divulgação)

Hera Venenosa: beleza assinada por Pat McGrath para Valentino deu o tom lúdico ao desfile no mês em que, na boa e velha Hollywood, começam as filmagens de Aves de Rapina“, o longo de super-herói só estrelado por mulheres mega poderosas e vilãs (Foto: Divulgação)

Algumas tops brasileiras desfilaram na Semana de Alta Costura. Entre elas, Sarah Berger na Balmain, Katia André para Schiaparelli, Cris Herman para Chanel. O destaque máximo, porém, vai para Raica Oliveira, uma explosão no desfile de Jean Paul Gaultier. Agora que a morena de Niteroi está mais velha, está mais bonita que nunca. Detalhe: impressão de ÁS ou, olha a mandíbula! Está ficando a cara de outra morenacha brasuca que fez sucesso lá fora, nos anos 1990? Alguém duvida que Raica agora lembra a Luciana Silva, aquela top que fez até o clipe “Justify My Love” da Madonna? (Foto: Divulgação)

Filha da modelo e humorista Marlene Silva, Luciana Silva virou celeb na virada dos 1990 quando beijou Madonna no clipe “Justify my Love”. Seu carão forte impressionava nas passarelas internacionais e nos embriões dos eventos de moda no Brasil, as semanas Morumbi e Barrashopping, que virariam depois o Fashion Rio e SPFW (Foto: Reprodução)

Um brilho para segurar a noite! Calma, amor, é só um look da Armani Privé, que sapateou no metalizado! (Foto: Divulgação)

Givenchy SS19, que não está no nosso Top 7, mas foi lindo! O look pode ser uma baba, mas já economiza no laço se for dar de presente…  (Foto: Divulgação)

A “nêga veia” Naomi provou que continua panela boa causando ao usar um vestido transparente para Valentino SS19, confirmando a sua eterna relevância na moda. O tempo passa, modelos vêm, vão, e ela continua aí, com sua pele de nutella e carão privilegiado, que ninguém resiste…  (Foto: Divulgação)

Deixe seu comentário

Seu email não será publicado.