O mais recente fenômeno de audiência neste país de noveleiros é fruto de uma paciência e de uma persistência verdadeiramente bíblicas, dignas de Jó, que finalmente acontece após uma série de projetos televisivos assemelhados cujos resultados foram incertos e vacilantes, começando pela minissérie A história de Ester (2009), passando por Sansão e Dalila (2011), Rei Davi (2012), José do Egito (2013) e Milagre de Jesus(2014-2015). Esse conjunto de títulos foi o responsável por duas proezas: ao mesmo tempo em que inaugurava um gênero inédito na teledramaturgia brasileira, garantia à Record a hegemonia incontestável nesse novo filão bíblico. A autora-principal e figura-chave desse longo processo de tentativas, de erros e de aprendizagens, é a escritora paulista Vivian de Oliveira que deu uma concorrida palestra no RioMarket, seção de tendências de mercado do Festival do Rio 2015 que se encerrou nesta segunda-feira (12/10).

Vivian de Oliveira, autora principal das telenovelas bíblicas da TV Record, no RioMarket 2015 (Foto: Flávio Di Cola)

Vivian de Oliveira, autora principal das telenovelas bíblicas da TV Record, no RioMarket 2015
(Foto: Flávio Di Cola)

Quando começa a explicar as condições que conduziram ao êxito de Os Dez Mandamentos – expresso no índice médio nacional de 20% do share de audiência no horário nobre e que ajudou a acelerar o fracasso da finada novela Babilônia da TV Globo –, Vivian é taxativa, mas sem perder a sua natural serenidade: “A crença no valor das narrativas bíblicas é fundamental para escrever com autenticidade e obter um resultado satisfatório, principalmente num contexto em que elas são alvo de preconceitos. Outro fator importante: não ter vergonha do melodrama e trabalhar com força os dilemas profundos, as paixões proibidas e as reações extremadas dos personagens. Embora a fonte bíblica seja o princípio de tudo, estou animando figuras históricas, seres humanos que de fato existiram, e que – diferentemente da superficialidade de hoje – iam fundo nas suas crenças e nos seus ideais, fossem egípcios ou hebreus”.

Cena do nascimento de Moisés, no início da trama: tentatica de inserir passagens bíblicas em contexto coloquial típico das telenovelas brasileiras (Foto: Divulgação)

Cena do nascimento de Moisés, no início da trama da Record: tentativa de inserir passagens bíblicas em contexto coloquial típico das telenovelas brasileiras (Foto: Divulgação)

Aliás, é esse vínculo umbilical com os relatos da Bíblia que tem garantido a atenção, a adesão ou a curiosidade do público – dependendo dos nichos da audiência –, mas que também vem provocando algumas dificuldades de reconstrução dramatúrgica nos termos industriais de um produto cujo projeto inicial era uma mini novela com 40 capítulos, pulando sucessivamente para 100, 140, 150, até finalmente espichada para os atuais – e aparentemente definitivos – 170 episódios, com data de término prevista para meados de novembro a fim de dar lugar a outro folhetim de época, Escrava Mãe”, cujos personagens terão como pano de fundo o movimento abolicionista brasileiro do século 19.

Hollywood ou Cinecittà? Nenhum dos dois: é o RecNov, núcleo de produção teledramatúrgica da Rede Record, em Vargem Grande, zona oeste do Rio de Janeiro (Divulgação)

Hollywood ou Cinecittà? Nenhum dos dois: é o RecNov, núcleo de produção teledramatúrgica da Rede Record, em Vargem Grande, zona oeste do Rio de Janeiro (Divulgação)

Nesse quadro de produtividade industrial, Vivian é bem clara sobre como tem escapado das armadilhas que vem sistematicamente encontrando como “rainha das narrativas bíblicas”, desde a precária experiência de A história de Ester”: “Tenho emendado uma novela bíblica atrás de outra, e com a ajuda de historiadores e consultores se intensificando na mesma medida, sinto-me cada vez mais à vontade para não levar tão ao pé da letra as passagens da Bíblia que exploramos, até porque elas se contradizem ao longo dos vários livros que a compõem, ou simplesmente são omissas e incompletas nas descrições da aparência e das ações dos seus personagens. Na condição de autora, sinto-me livre para exercer o direito à licença poética. Assim, eu e a minha equipe de cinco roteiristas preenchemos os vazios, resolvemos as contradições, tiramos conclusões próprias, desenvolvemos possibilidades a partir do que está apenas mencionado numa linha das Escrituras, ou procuramos amparo nas oportunidades históricas visando a uma coisa só: o melhor rendimento dramatúrgico possível que é o único fator que, de fato, segura a audiência”.

Guilherme Winter emprestou o seu corpão para recriar um Moisés de academia que certamente agradaria a Michelangelo cuja famosa e musculosa escultura do profeta data do final do século 16 (Divulgação)

Guilherme Winter emprestou o seu corpão para recriar um Moisés de academia que certamente agradaria a Michelangelo, cuja famosa e musculosa escultura do profeta data do final do século 16 (Divulgação)

Entretanto, todo esse arsenal de recursos para movimentar a trama não tem evitado as críticas dos próprios seguidores fiéis da novela que não param de reclamar nas redes sociais dos efeitos negativos dos sucessivos espichamentos da história sobre o ritmo da novela. Nada de novo no front se lembrarmos que o primeiro fenômeno de audiência da teledramaturgia brasileira – O Direito de Nascer”, cujos 160 capítulos atravessaram os anos de 1964 e 1965 – foi um dos casos mais extremos de esticamento escandaloso de uma trama cuja densidade dramática era de um algodão doce. Embora este não seja propriamente o caso de “Os Dez Mandamentos”, a novela, além de ser alvo desse tipo de impaciência do público, ainda é alvejada por críticas a alguns pontos tão falhos como previsíveis: imprecisões históricas ou religiosas, atuações radiofônicas e exageradas, iluminação chapada e, eventualmente, gafes cabeludas de produção que acabam por divertir os haters da “fábrica de lágrimas” da Record.

Confira os detalhes que tornam a produção da TV Record um produto requintado para os padrões da televisão brasileira:

Quando o repórter de ÁS perguntou a Vivian de Oliveira qual foi a sua maior fonte de inspiração depois da própria Bíblia, ela não hesitou: “Os épicos bíblicos de Cecil B. DeMille, claro. Eles me ajudaram a encarar com mais naturalidade e leveza as questões humanas que estão por trás da mensagem religiosa. Apoiada nos filmes dele, eu também sugeri que a cenografia e o figurino de “Os Dez Mandamentos” fossem mais coloridos e vibrantes”. E eróticos também, complementamos. Mas, Vivian – diante da menção do ingrediente sexual – fez imediatamente uma ressalva: “Exponho o erotismo e a sexualidade que estão também presentes na Bíblia na medida das necessidades lógicas das tramas, sem gratuidades e sem ferir ninguém, principalmente as crianças, parcela importante da audiência da novela”.

DE HOLLYWOOD À TV RECORD: O “NOVO” ANTIGO EGITO ATRAVÉS DAS GAFES:
A aparição de um extintor de incêndio em meio a uma cena de "Os dez mandamentos" que foi ao ar na semana passada com Luciano Szafir (Meketre) e Babi Xavier (Tais) serviu para aumentar ainda mais o ti-ti-ti em torno da novela que caminha para o seu ápice (Reprodução)

A aparição de um extintor de incêndio em meio a uma cena de “Os Dez Mandamentos” que foi ao ar na semana passada com Luciano Szafir (Meketre) e Babi Xavier (Tais) serviu para aumentar ainda mais o ti-ti-ti em torno da novela que caminha para o seu ápice (Reprodução)

O zíper que fecha o colo do traje de ouro de Elizabeth Taylor na superprodução "Cleópatra" (1963) não impediu que o filme mais caro da história recebesse o Oscar de Melhor Figurino (Reprodução)

O zíper que fecha o colo do traje de ouro de Elizabeth Taylor na superprodução “Cleópatra” (1963) não impediu que o filme mais caro da história recebesse o Oscar de Melhor Figurino (Reprodução)

Falar em Cecil B. DeMille (1881-1959) é simplesmente invocar o nome de um dos Pais Fundadores de Hollywood e do estúdio Paramount, cuja fabulosa carreira marcou a primeira metade do século 20 com sucessos estrondosos que o transformaram no diretor-produtor comercialmente mais bem-sucedido de toda a história do cinema. Este êxito se deveu particularmente ao aproveitamento extensivo que ele fez das possibilidades cinematográficas sensacionais oferecidas pela Bíblia. DeMille e suas superproduções foram os responsáveis pela construção no imaginário de gerações inteiras do conceito de “épico” em que estão embutidas toda a extravagância, a grandiosidade e a volúpia só concebíveis na Hollywood de sua época, através de “arrasa-quarteirões” como Os Dez Mandamentos (versões de 1923 e 1956), O rei dos reis (1927), O sinal da cruz (1932), Cleópatra (1934), As cruzadas (1935), Vendaval de paixões (1942), Sansão e Dalila(1949) ou ainda O maior espetáculo da Terra (1952).

O lendário Cecil B. DeMille dirige Yul Brynner (Ramsés II) e Anne Baxter (Nefretiri) na versão até hoje imbatível da saga de Moisés (Reprodução)

O lendário Cecil B. DeMille dirige Yul Brynner (Ramsés II) e Anne Baxter (Nefretiri) na versão até hoje imbatível da saga de Moisés (Reprodução)

Falar em DeMille também é lembrar a sua habilidade em transformar em espetáculo visual toda a violência, sexo e vilania narrados na Bíblia sem ferir o decoro da América conservadora que sempre viu com péssimos olhos o poder erotizador do cinema, e obtendo um resultado artístico frequentemente taxado de distorcido, apelativo e supra-sumo do kitsch. Usando habilmente a sugestão como estratégia estética para escapar da vigilância dos setores mais moralistas, DeMille conseguiu entregar ao público tudo a que este esperava ter direito quando ingressava num cinema, ou seja, um prato cheio de sabores e sensações ambíguos, ao mesmo tempo suculentos e piedosos. Afinal, a própria Bíblia na sua missão de elevar espiritualmente os homens não deixou de ilustrar muitos dos seus episódios com fortes descrições de adultério, bestialidade, canibalismo, infanticídio, desmembramento, escatologia, necrofilia, homossexualismo, pedofilia, prostituição, violação e incesto, entre outros comportamentos.

Charlton Heston imortalizou a imagem de Moisés como um gigante atlético, coerente com o espertíssimo recurso do "sexless sex" (sexo sem sexo) utilizado por DeMille para erotizar suas narrativas bíblicas enquanto enganava a censura (Reprodução)

Charlton Heston imortalizou a imagem de Moisés como um gigante atlético, coerente com o espertíssimo recurso do “sexless sex” (sexo sem sexo) utilizado por DeMille para erotizar suas narrativas bíblicas enquanto enganava a censura (Reprodução)

Foi Martin Scorsese quem sintetizou belamente o legado de DeMille para aquela última geração que amou o cinema exclusivamente dentro das grandes salas, fazendo uma avaliação que talvez nos dê uma pista para explicar o poder imperecível das suas narrativas bíblicas: “Em DeMille, o maravilhoso superava o sagrado. Ele elaborou um tipo de fantasia luxuriante que se você visse na infância, ficava na sua cabeça para o resto da vida”.

Nesta nossa época dos dispositivos eletrônicos e suas telinhas minúsculas – e que talvez estejam nos forçando a pensar e a sentir pequenos também, como intuiu a ensaísta Camille Paglia – seria injusto esperar que os esforços da TV Record substituam, mesmo que palidamente, a arte daquele diretor que mereceu de Norma Desmond, a ex-estrela enlouquecida e para lá de decadente do clássico Crepúsculo dos Deuses”, o desesperado e derradeiro apelo de quem sabe que o cinema morreu: “Estou pronta para o meu close, Sr. DeMille”.

DA GELATINA AOS EFEITOS DE COMPUTAÇÃO: A TRAVESSIA DO MAR MORTO EM TRÊS ATOS:
Enquanto o momento culminante da telenovela da TV Record não chega, 
ÁS faz uma retrospectiva de como o cinema representou a famosa passagem bíblica nos últimos 92 anos, e de como os efeitos visuais evoluíram:
Na primeira versão de “Os  Dez Mandamentos”, dirigida DeMille em 1923, o Mar Morto virou uma cascata de gelatina (Reprodução):

Parting of the Red Sea from 1923 The 10 Commandments from Randy Wilharm on Vimeo.

Em 1956, DeMille revisita a epopéia de Moisés em technicolor e tela larga. Sem a ajuda da gigantesca piscina construída no estacionamento da Paramount, em Hollywood, e da música de Elmer Bernstein a travessia dos hebreus seria ainda mais desagradável (Reprodução):

A travessia do Mar Morto em “Êxodo: Deuses e Reis” (2014) na versão psicologizada de Ridley Scott foi filmada nas Ilhas Canárias e decepcionou ao tentar fugir da encenação de 1956 que ainda predomina no imaginário do público (Reprodução):

 Assista abaixo a este curioso documentário que narra a evolução da famosa cena do Mar Vermelho me Hollywood (Reprodução): 

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