Um bom roteiro faz toda a diferença. Praticamente um chavão repetido a esmo hoje em dia, essa máxima pode ser posta a prova atualmente nos cinemas quando se compara “Chacrinha: O Velho Guerreiro” (de Andrucha Waddington, Globo Filmes e Media Bridge, 2018), já em cartaz, com “O Grande Circo Místico” (de Carlos Diegues, Globo Filmes e outros, 2018), que fechou o Festival do Rio no último final de semana e entrou em circuito nesta quinta (15/11). A questão aqui é notória: trata-se de duas realizações criadas a partir de narrativas que andaram fazendo um baita sucesso nos palcos e agora chegam às telas em resultados irregulares. Isso por si só já faz valer a comparação. Como se não bastasse, ambas são produções mainstream voltadas para o grande público.

Vincent Cassel é o nome mais conhecido do elenco internacional de atores que compõe o panorama de personagens de “O Grande Circo Místico”, candidato do Brasil a uma vaga no Oscar 2019, que ainda inclui a francesa Catherine Mouchet e o polonês Dawid Ogrodnik (Foto: Divulgação)

“Chacrinha: o Velho Guerreiro” é a adaptação para a telona do sucesso do teatro musical criado pelo diretor Andrucha Waddington com o mesmo Stepan Nercessian no papel do apresentador que fez a história do rádio e da televisão no Brasil. O diretor retirou o verniz dos números coreografados e partiu para uma típica realização biográfica, gênero que costuma fazer bastante sucesso atualmente na cinematografia brasileira (Foto: Divulgação)

Se a primeira é fruto da experiência que Andrucha teve com o lendário personagem da TV na transposição de sua trajetória para um musical no Teatro João Caetano, Rio, o filme baseado na obra de Jorge de Lima que conta a saga de cinco gerações de uma família de circenses também virou espetáculo teatral, musicado por Chico Buarque e Edu Lobo, que rodou o país no início dos anos 1980. Duas empreitadas de sucesso. Os produtos cinematográficos, porém, são diversos: redondo do início ao fim, com um ritmo dinâmico, “Chacrinha” conta com o roteiro inspiradíssimo de Cláudio Paiva, (com colaboração de Carla Faour e Júlia Spadaccini), que obviamente tem a seu favor um personagem riquíssimo, cujo pano de fundo são tempos nada politicamente corretos que já garantem o riso.

O colorido kitsch dos programas de auditório dos anos 1960, 70 e 80 é ricamente reproduzido pela equipe de direção de arte de “Chacrinha: O Velho Guerreiro” (Foto: Divulgação)

A trinca de escritores não se acomoda com a fartura de histórias, imbróglios e bordões que marcaram o percurso do Velho Guerreiro no rádio, na televisão e na vida, mandando ver na costura das cenas, tudo sem um pingo de gordura e amparado pela presença fulminante de Stepan Nercessian.

Confira abaixo o trailer oficial de “Chacrinha” (Divulgação): 

No papel-título, o ator – que já havia impressionado a plateia com sua representação quase mediúnica do comunicador no João Caetano – repete a façanha de incorporar o Chacrinha, agora com os devidos recursos que a Sétima Arte possibilita: no caso, os closes que não existem na caixa preta do teatro.

Numa impressionante caracterização, Stepan Nercessian assume a casaca espalhafatosa do Velho Guerreiro no cinema em um resultado difícil de ser verbalizado. Do timbre de voz aos trejeitos faceiros, o ator se transmuta em Abelardo Barbosa e é pouco provável não abocanhe algumas estatuetas na próxima temporada de premiações (Foto: Divulgação)

Stepan está sublime, mas seria injusto dizer que só “dá ele”, ainda que tudo gire ao seu redor: a começar pelo excelente Eduardo Sterblitch (que vive o Aberlardo Barbosa jovem), o ótimo casting inclui valiosas atuações de Pablo Sanábio, Rodrigo Pandolfo, Telmo Fernandes, Laila Garin , Camila Amado e Carla Ribas, entre outros, abrilhantadas por piteus do naipe de Karen Junqueira (Rita Cadilac) e Gianne Albertoni (Elke Maravilha).

A reprodução fiel dos hábitos – e do ambiente das emissoras de rádio e televisão – das décadas de 1940 a 1980 faz parte do charme de “Chacrinha: O Velho Guerreiro”, cinebiografia que promete ser um dos destaques da produção audiovisual brasileira neste final de ano (Foto: Divulgação)

Sublinhando a narrativa impecável, a qualidade dos componentes visuais revela um time afiado: merecem menção o figurino de Marcelo Pies (ancorado por uma boa equipe de caracterização), a direção de Rafael Targat e a fotografia de Fernando Young, que contribuem para que “Chacrinha” possa ter uma boa carreira internacional.

Confira abaixo o trailer oficial de “O Grande Circo Místico” (Divulgação): 

Não se pode dizer o mesmo de “O Grande Circo Místico”, apesar de o filme ter tido exibição em Cannes (fora da competição) e ser o candidato do Brasil, entre 87 produções, a uma das cinco vagas a concorrer ao próximo Oscar de ‘Melhor Filme Estrangeiro’. O roteiro esquemático e as passagens abruptas de tempo, que procuram situar a história a partir das músicas conhecidas, descambam na falta amarração e provam que apenas dividir um filme em capítulos não é suficiente para contar uma saga. Isso talvez tenha engessado a narrativa, e a percepção disso é notória.

Aposta brasileira para a próxima corrida do Oscar, “O Grande Circo Místico” começa muito bem, dialogando com a atmosfera onírica do texto de Jorge de Lima, autor que transitou da prosa ao verso,  mas era conhecido como poeta (Foto: Divulgação)

Ou, quem sabe, demonstre  a natureza de Cacá Diegues, a despeito da respeitabilidade de sua cinematografia. Com os pés entranhados na essência de quem se fez sob a influência do Cinema Novo, falta nessa sua mais recente produção aquele acabamento de carpintaria que hoje se faz necessário na era da globalização, mas que não era valorizado pela turma de “uma ideia na cabeça uma câmera na mão”. Não que a plasticidade de superprodução precise ser regra. Óbvio que não, e o diretor já mostrou saber dar conta desse assunto em realizações esmeradas, no cinemão da retomada, como “Tieta do Agreste“, “Orfeu” e”Deus é brasileiro“. Aliás, com seu currículo, ele nem precisa provar isso. Ou será que deve, já a cada produção um cineasta está dando sua cara a tapa? Pode ser. Mas é evidente que em “O Grande Circo Místico” alguma coisa desandou. Em entrevista à Folha de São Paulo, Cacá entregou: “É meu filme mais megalômano, nunca mais quero repetir a experiência.”

Jesuíta Barbosa é o fio condutor de “O Grande Circo Místico”, que traz ao público a epopeia de um clã circense que atravessa no Brasil, do século 20 (Foto: Divulgação)

No elenco, Juliano Cazarré, Bruna Linzmeyer, Mariana Ximenes e Vincent Cassel saem na frente, mas Marina Provenzzano é boa surpresa. E, no papel de Celavi (corruptela de C’est la vie), o apresentador de circo que nunca envelhece, Jesuíta Barbosa é… Jesuíta Barbosa!

O figurino de Kika Lopes encontra, em “O Grande Circo Místico” sua melhor forma nas sequências ambientadas entre as décadas de 1910 e 1940, O ápice é o visual da contorcionista Beatriz art nouveau interpretada por Bruna Linzmeyer (Foto: Divulgação)

Como uma metáfora para o Brasil, o circo vai ficando decadente ao longo das décadas. A lona rasga, o público escasseia, a arquibancada vazia é ocupada por párias sociais, o picadeiro fica sujo, o entorno da tenda vira um mafuá. No cinema, os espectadores logo vão notar que se trata dos valores do país representados ali. Okay. Mas esse artifício não é suficiente para justificar um certo je ne sais quoi no que tange à queda de burilamento cênico de ” O Grande Circo Místico”  no transcorrer da projeção. Algumas pistas já vinham sendo dadas desde o início. Caso da fotografia escura para não precisar revelar detalhamento cenográfico e quase sempre em planos fechados para economizar na amplitude da produção de arte.

“O Grande Circo Místico”: o médico Fred abandona a carreira para seguir a vocação de artista, motivado pela paixão por uma hipnótica contorcionista. Graças a uma herança, ele funda a lona que dá nome ao filme e dá partida a cinco gerações de uma família dedicada à prática circense (Foto: Divulgação)

E é aí que surge outra percepção quando se confrontam os dois longas: se “Chacrinha” é uniforme de cabo a rabo, inclusive no quesito “direção de arte”, o mesmo não pode se dizer do candidato do Brasil a uma vaga no Oscar. Se,no início, a produção se mostra auspiciosa, com figurinos, maquiagem e cenografia caprichados, a queda de qualidade conforme os anos vão se passando na história é proposital ou faltou dinheiro ao longo das filmagens?

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