O Brasil é uma corrente, a natureza uma rede intrínseca, o globo um só. Anote essa palavra: planetário. Ou esse termo: identidade planetária. Num curto espaço de dias, esse termo foi bastante mencionado em duas entrevistas distintas, sobre assuntos diversos, o que levou ÁS a refletir sobre do que se tratava e transformar o que seriam duas entrevistas neste único artigo, muito mais pessoal. Em primeira pessoa até, o que é incomum aqui, mesmo se tratando de um veículo opinativo. O estalo veio num papo-cabeça com a atriz e ativista ambiental Christiane Torloni sobre o seu documentário “Amazônia O despertar da Florestania” (Descoloniza Filmes, 2018), dirigido junto com Miguel Przewodowski, que acaba de estrear em circuito nacional. Uma porrada. O outro get together aparentava ser muito mais ameno que aquele em torno da preservação das nossas florestas. Acabou se mostrando uma grata surpresa, tão contundente quanto: aquilo que poderia ter sido apenas o testemunho de um genial exercício de ego, tão comum quando o assunto é design (dos bons), se revelou uma epifania sobre a mesma questão que enxerga a Terra como um único grão de poeira cósmica, imenso quando se pensa nas consequências de atitudes capazes de impactar bilhões de habitantes mundão afora. Foi igualmente uma viagem seríssima, ainda que lúdica, esse encontro com o arquiteto Guto Requena, responsável pela ambientação da 47ª edição do São Paulo Fashion Week, para quem questões como sustentabilidade estão longe de ser firula ou palavrinha da moda para impulsionar o consumo, render likes e faturar uma nota preta.

Christiane Torloni e Miguel Przewodowski: foram sete anos para por de pé o documentário “Amazônia – O despertar da Florestania “. Detalhe: segundo o Imazon (Instituto do Meio Ambiente), entre agosto de 2017 e julho de 2018, 1,18 bilhão de árvores foram derrubadas na floresta Floresta Amazônica, ou seja, nesta proporção, em média, pelo menos cerca de 8,26 bilhões de árvores vieram abaixo desde que a produção do filme começou! (Foto: Divulgação)

Confira abaixo o trailer oficial de “Amazônia – O despertar da Florestania”  (Divulgação): 

Shakespeare que perdoe a falta de imaginação, mas ÁS vai ser a milionésima criatura (só um milhão?!?) a pegar emprestado uma de suas mais populares frases e usá-la num chavão mais batido que a dupla coque & camafeu em figurino de governanta vilã de novela mexicana.  Aqui, a expressão faz mesmo sentido: existem mais coisas entre a estrela engajadíssima – 16 filmes, 14 peças de teatro e 27 novelas de uma carreira que explodiu quando ainda era adolescente, entre 1976/77 com “Duas Vidas“, de Janete Clair – e Guto – formado em 1999 pela USP e arquitetura e urbanismo, beirando os 40, amante de música eletrônica e por pouco milliennal, com direito a um bigodinho neo setentinha que entrega a sua tribo – do que supõe a vã filosofia do atual governo do Brasil. Ambos são da mesma cepa, gente que arregaça as mangas porque não está disposta a se conformar com decretos que, no fundo, são salvo-conduto para justificar a caça de espécimes ameaçados pela natureza, o aniquilamento de populações indígenas ou a extração desenfreada de recursos para gerar mais e mais produção industrial desnecessária num planeta em vias de agonizar.

Guto Requena: “o planeta está em vias de extinção e o prazo para se reverter isso é curtíssimo. Se algo não for feito neste século, o homo sapiens vai entrar em declínio porque, no fundo, a Terra sempre sobrevive, quem sucumbe são as espécies (Foto: Reprodução)

Na verdade, quando Guto nasceu, Christiane já tinha dois anos de estrada na tv, o que levou este jornalista a concluir, num primeiro brainstorm, o quanto esses dois assuntos aparentemente aleatórios sobre os quais falaram se entrelaçam, extrapolando gerações, num emaranhado supostamente único que avança o tempo. Ainda que se considere a pluralidade do país, são dois temas que vão de encontro, como um todo, a um poder executivo cujo assunto da semana – o decreto sobre a ampliação do direito ao porte de arma, – caiu como um petardo, bem na contramão das causas que os dois defendem: a defesa da floresta e a cidade como cenário pleno para o desenvolvimento sustentável.

A edição de abril do SPFW, sob a visão do arquiteto Guto Requena e do diretor criativo do evento, Paulo Borges: uso da área de convivência do galpão que sediou a semana de moda como espaço interativo promotor de estímulos sensoriais  (Foto: Divulgação)

“É impressionante como nossa floresta tem sido tratada com desdém. Sua preservação transcende a questão partidária, não se vincula a ideologia. Por isso, fiz questão de começar o documentário com as ‘diretas já’ [1984] e terminamos com os movimentos de rua de 2013”, dispara logo de cara Christiane sobre ‘Amazônia – O despertar da Florestania’, que traz depoimentos de, entre outros que lutam para a sua preservação, André Trigueiro, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, Marina Silva, Lucélia Santos, Frans Krajcberg, Juca de Oliveira, Miriam Leitão, Victor Fasano, Caetano Veloso e Milton Nascimento. “Nesses 30 e poucos anos, nada mudou. Pelo contrário: algumas medidas aprovadas no governo FHC estão sendo derrubadas como árvores postas a pique”, arremata.

Em cartaz, “Amazônia – O despertar da Florestania” alerta para a urgência em estancar a derrubada de árvores na maior floresta do planeta (Foto: Divulgação)

“A Florestania é o DNA de uma nova identidade que extrapola nossas próprias fronteiras. Uma identidade planetária, onde nossa ‘casa comum’, a Terra, chora por suas florestas arrasadas pela ganância de um século devastador, industrial e desumano”, se emociona a Christiane ecologista, para completar: “O século 21 chegou e muitos países já despertaram para a necessidade urgente de reflorestar seus campos, salvar seus rios, preservar espécies ameaçadas e, acima de tudo, criar meios para que seus habitantes possam viver e se desenvolver de forma sustentável. Apresentamos questões, mostramos caminhos. Eu e Miguel deixamos o final aberto para que se possa ir adiante. Há soluções, mas o tempo urge. É preciso educar. Por exemplo: a garotada que protestou nas ruas de São Paulo, em 2013, contra o aumento das passagens de ônibus e sobre a situação dos hospitais e escolas, mas que afirma, quase no final da projeção, que, embora a questão ecológica seja importante, é preciso ir passo a passo. Essa nova geração precisa se conscientizar de que não há mais tempo. Essas chuvas avassaladoras que andam atingindo o Brasil e causando tanta destruição têm origem no desmatamento da Amazônia que, com a persistência das queimadas, contribui para o aquecimento global.” Miguel Przewodowski completa: “Não se discute nossa soberania sobre a floresta, nosso território, mas as ações de depredação afetam todo mundo. É uma questão de ordem mundial, planetária.”

O ambientalista, líder indígena e jornalista Ailton Krenak é cumprimentado por Christiane Torloni (Foto: Divulgação)

Para Christiane, o doc é uma reflexão que procura resgatar o código genético de nossa identidade. “Precisamos nos conectar com nossa essência. Quando foi que nós esquecemos que o Brasil tem o nome de uma árvore? Que o que corre em nossas veias não é sangue, é seiva?”, questiona, num libelo que insere poesia na crueza com que a exploração desenfreada da Amazônia é revelada. Em alguns momentos dos 111 minutos do filme, a exposição da destruição chega a causar aquele mesmo mal-estar que algumas produções de ficção sobre a devastação induzem, como “Avatar” (2009) e o drama nuclear “O dia seguinte” (1982). Filme-catástrofe.

Responsável por algumas das passagens mais emotivas de “Amazônia – O despertar da Florestania” ,  o artista plástico e fotógrafo polonês naturalizado brasileiro Frans Krajcberg (1921-2017) ganha um chamego de Christiane Torloni (Foto: Divulgação)

O codiretor dá a deixa: “Foi preciso lidar com muito material de arquivo editado junto com as tomadas que capturamos nesses sete anos que levamos para por de pé a produção. Sempre que víamos algo novo surgindo, de tão atual, queríamos acrescentar. Refazíamos o roteiro.”

Cândido Mariano da Silva Rondon, o Marechal Rondon (1865-1958), entrou para a história não apenas pelo mapeamento de regiões inexploradas do Brasil como pela forma amistosa com que lidava com os povos indígenas e respeitosa para com a sua cultura, numa época em que se desconhecia o “politicamente correto” e a consciência da diversidade ainda não estava na agenda das questões globais (Foto: Reprodução)

Sobre a estética, que em algumas passagens consegue ser tão pungente quanto a série de fotografias de Sebastião Salgado sobre Serra Pelada, Miguel acentua: “Enfatizamos o colorido da floresta em contraponto ao marrom da terra estéril, dos dejetos, até da lama, do barro poluído de Mariana. É impressionante o quanto tanto as imagens antigas, de arquivo, quanto as novas têm o mesmo teor de hecatombe, em contraste com a exuberância, mesmo capturada  em preto & branco, das sequências das expedições do Marechal Rondon, antes do início da depredação. Aliás, até pela sua ascendência indígena, ele sempre lidou com essa questão tão premente hoje da diversidade. Ele viveu além do seu tempo.”

Em expedição pelo Mato Grosso do Sul, Darcy Ribeiro posa ao lado dos índios Kadiwéu, 1947 (Foto: Berta Ribeiro / Reprodução)

“Precisamos resgatar a postura de Rondon, assim como a visão de Darcy Ribeiro acerca da civilização tropical, que afundou”, finaliza Christiane Torloni, ressaltando a importância do antropólogo: “Ele é uma ferramenta crucial que foi dispensada. Por que ele não está sendo ensinado nas escolas? Sua obra seminal, ‘O povo brasileiro – a formação e o sentido do Brasil‘ (1995) deveria ser livro de cabeceira para os pais lerem para crianças de três anos. Essa percepção do diverso ajudaria inclusive, desde cedo, a não estimular discursos de ódio. Ele conta para nós nossos afluentes de ancestralidade. Percebi isso quando vi que todos os entrevistados chegavam em Darcy. Ele é o cara.”

Décadas depois, Christiane Torloni e Miguel Przewodowski ladeiam o índigena Benki Piyãko, entrevistado que também aparece criança em registro de uma expedição capitaneada por Darcy Ribeiro presente no documentário (Foto: Divulgação)

Na outra ponta, direto do estúdio que leva seu nome, o inquieto Guto Requena iniciou o prosa por onde seria menos provável, mas aquilo que considera essencial: “70% da vida no oceano foi extinta. 90% da população de tubarões acabou. E, se entre 20 e 40 anos não fizermos nada, o estrago será irreversível.” Antes mesmo de falar de design – e do projeto que criou para ambientar essa edição da SPFW, no final de abril, “Utopia” – o rapaz faz coro com Christiane: “O planeta está em extinção. O mundo precisa de mais uma cadeira linda? A gente precisa calçar um novo sneaker super xuxuzinho? Para quê? O consumo deve ser pensado, a moda também” Ele afirma que pode parecer estranho alguém que lida com desenho industrial considerar a hipótese de que existe muito mais coisas no mundo do que o necessário. Mas é verborrágico: “O lar hoje está numa mochila, num notebook. O mundo é nossa casa. E a percepção precisa ser planetária. Se investirmos na cultura do trocar, fazer, consertar, a perspectiva de futuro é muito rica. Estamos numa era em que não há como se furtar ao ativismo digital, as manifestações de 2013 são reflexo disso.”

Grama está na moda: o mobiliário urbano que compõem o “P” da palavra “Utopia”, na 47ª edição da SPFW foi composto por um banco em madeira que engloba um jardim (Foto: Divulgação)

Confira abaixo o vídeo que mostra o projeto interativo do WZ Hotel que Guto Requena criou para o retrofit de um antigo prédio na capital Paulistana (Youtube / Reprodução):     

Da mesma forma que Christiane e Miguel insistem que se dirija a percepção em direção à floresta, Guto aposta na sustentabilidade rumo a um espaço igualmente exterior, na cidade, mas fora de casa: “Olhar para a rua é oportunidade. É design de dentro para fora. Projetos de design que visem o espaço público geram empatia.”

Conheça abaixo o projeto autossustentável, com uso de energia solar, desenvolvido pelo Estúdio Guto Requena para um pavilhão de música eletrônica no Parque Olímpico da Cidade Maravilha, durante a Rio 2016 (Youtube / Reprodução): 

Ele aposta no que chama de arquitetura interativa e híbrida: “São movimentos de empoderamento através do design. A tecnologia não é algo que esfria, mas aquece. 90% da arquitetura de São Paulo é horrível. Penso em sustentabilidade. Ao invés de construir tanto prédio novo, plugar os que já existem com dispositivos que estimulem a troca de experiências. Nas ruas, nas praças. A nova geração já é cibernética. Somos ciborgues, com apêndices grudados ao corpo, fones de ouvido, de celulares, câmeras. Por que não promover a sustentabilidade a partir do afeto, e não da materialidade? Usar sensores de biofeedback para criar sensações sinestésicas, envolvendo os sentidos e trazendo a informação para perto da gente, via os devices que acessamos, para que o ser humano interaja com o espaço exterior? Se houver uma menor possibilidade de sobrevivência para o homem no planeta é usar a tecnologia de forma afetiva.”

Saiba abaixo tudo sobre “Empatias Mapeadas”, célula interativa que promove a interação e que pode ser usada em espaço público (Youtube / Reprodução):      

Para este último SPFW, o projeto de Guto convocou os fashionistas a refletirem sobre o conceito de utopia. “Vivemos numa sociedade distópica, para início de conversa”, ressalta. Os 5.000 m2 do galpão da Arca, que sedia o evento desde outubro ganhou uma praça cujo objetivo era promover o encontro entre os visitantes. A partir das letras da palavra ‘utopia’, Guto Requena criou seis mobiliários desenhados para diferentes funções – sentar, assistir aos desfiles nos grandes telões que circundam a praça, tomar um drinque no bar, buscar privacidade dentro de um pequeno jardim ou brincar nas gangorras. Suas posições foram desenvolvidas de forma que os usuários estivessem sempre próximos uns dos outros, permitindo trocas e conversas. O banco da letra “U” foi acoplado com sensores que reconhecem quando as pessoas sentam em grupos, acendendo luzes em seu interior que pulsam, sinalizando visualmente as potencialidades desses encontros (Foto: Divulgação)

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