Um dos méritos de uma semana de moda é, sem dúvida, apresentar novos talentos, fomentando o mercado. Desde os anos 1990, quando esse tipo de evento começou a se consolidar no país ainda sob a chancela de shopping centers, houve a preocupação em rejuvenescer o panorama fashion, mas também criar estruturas que viessem a possibilitar o estabelecimento desse sangue novo no mercado. Algumas viraram símbolo da explosão da moda vista no Brasil nos últimos vinte e poucos anos, como Alexandre Herchcovitch e a Reserva. Outros surgiram, cresceram, mas não puderam se manter na superfície da piscina, naufragando depois do sucesso. Gente como Santa Ephigenia, Complexo B, Filhas de Gaia, Ausländer, Erika Ikezili e Jefferson Kulig, entre muitos outros.

E uma turma boa como Fábia Bercsek, Simone Nunes e o competente Luciano Canale (Santa da Ephigenia) acabou absorvida pelos departamentos de estilo de grifes comercialmente fortes. Já em sua 19ª edição, o Minas Trend leva a sério a função de atuar no palco da moda mineira e, dessa vez, apresentou no seu READY TO GO um conjunto de novos atores capaz de deixar a plateia em polvorosa.

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Vencedora da 8ª edição do READY TO GO, Valéria Mansur mostra um vestido-quimono da nova safra de peças minimalistas da sua marca homônima: “Aqui não entra matéria-prima chinesa. Minhas sedas mistas são 100% brazucas” (Foto: Alberto Wu)

Em sua oitava rodada, o READY TO GO  mostrou um inverno de responsa com novos designers – a maioria com cerca de um a um ano e meio de estrada solo – que, em sua maioria, fogem da tradicional roupa de festa mineira, enveredando por outros caminhos que passam ao largo do barroco. O mais visto (em sintonia com o line up de desfiles oficiais do MT), foi a minimalismo noventinha, daquele que flerta com a trilha desbravada por nomes que fizeram história no Grupo de Moda Mineiro, como Sonia Pinto, Renato Loureiro e Alphorria.

Dessa vez, a vencedora do concurso foi Valéria Mansur, em sua terceira coleção apenas, que mostrou a coleção “Fios”, que traz fibras naturais em peças com caimentos irregulares, assimetrias, repuxados e amarrações. Ela conversou com o ÁS após a vitória e ressaltou: “A gente nem imagina, mas não tem como ganhar um concurso desses e não ver seu trabalho ser impactado. Já estou sendo procurada por compradores e percebendo que vou precisar incluir peças bate-caixa, simplificando minhas camisas em tricoline branca, por exemplo”.

Ela afirma a importância de trabalhar com tecelagens brasileiras: “Aqui a China não entra. Usamos fibras naturais fornecidas por aquilo que restou dessa indústria nacional. O tingimento também é ecológico: infusões com chá e açafrão. O jeans já é pré-lavado. E um segredo vital: mão de obra bem remunerada para trabalhar feliz e render”.

Na véspera, Valéria havia sido devidamente sabatinada pelo ÁS, que percebeu que a moça entende do riscado. Com influências que passam pelos anos 1980/90, seu trabalho vai do minimalismo de construção rebuscada ao japonismo, passando pelo efeito inacabado da escola belga noventista: “Amo Iohji [Yamamoto]”, entrega a estilista, numa época em que, quando se menciona os designers japoneses, é mais comum falar que se reverencia Issey Miyake. “Mas respeito as inovações da turma do destroy, como Ann Demeulemeester“.

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Curadora do READY TO GO, Tereza Santos celebra os moletons com aplicações de Denise Valadares – terceira colocada nesta edição do projeto – como uma via que concilia o melhor da tradição decorativa mineira e as novidades do mercado (Foto: Alberto Wu para Ás na Manga)

À frente da curadoria do READY TO GO, é Tereza Santos, que fez história com sua Patachou, quem ensina o pulo do gato na hora de filtrar os participantes do projeto: “O ponto de partida para a escolha é a criatividade e a perpetuação de novos olhares acerca da moda mineira, mas a gente considera alguns aspectos: tanto a tradição dessa roupa cerebral, minimamente construída, arquitetada quanto a dosagem da balança com outro componente forte no DNA mineiro, que é a alma barroca. Valéria é minimalista e sóbria, mas a maneira de pensar no moulage e nos retorcidos é barroca”.

Conheça a abaixo a fornada de novos talentos apresentada nesta edição do READY TO GO (Fotos: Alberto Wu):

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A Uplen, de Juliana Cruz, 32, tem somente um mês de vida. A designer aposta numa moda festa diferenciada, mas dentro do segmento no qual já atua há 10 anos, trabalhando para outras marcas. “Meu segredo são os coordenáveis a preços viáveis. Minha peça mais cara, com 52 tipos de renda, custa menos de 700 reais”, revela mostrando itens da coleção inspirada pelo por do sol no outono. “Estou fresquinha, comecei a mostra meu produto aqui na feira para os primeiros clientes” (Foto: Alberto Wu para Ás na Manga)

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Participando do READY TO GO pela segunda vez, Ana Machado e Juliana Machado, da Caniglia, fazem roupa de festa com tempero jovem. Os bordados são fresh e elas misturam malhas com matéria-primas típicas desse segmento. “Nossa maior inspiração agora é nosso bisavõ italiano Salvatore, que veio para o Brasil. Ele fazia azulejos, mas amava rosas”, contam a Juliana. `Pegamos o nome da marca do sobrenome dele”, completa Ana (Foto: Alberto Wu para Ás na Manga)

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Com 26 anos e apenas um ano de marca, Denise Valadares estudou moda na UNA e é fã de Juliana Jabour, de cujo trabalho herdou o gosto pelo moletom: “Adora trabalhar o clima de festa aplicando meus bordados sobre casacos com esse viés esportivo. O bacana é isso: criar uma roupa de festa que também é casual, impregnando suéteres com memórias barrocas”. Para ela, está tudo ali: pérolas metalizadas para lembrar o Ciclo do Ouro e apliques pesquisados a partir da arquitetura mineira (Foto: Alberto Wu para Ás na Manga)

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Cunhadas e amigas, Cris Sarmento e Marina Tereza curtem uma roupa de festa que foge do “over” privilegiando na modelagem que valoriza o corpo e em detalhes como cinto em rolotê que pode contrastar com tecidos como jacquard: “Não curtimos o brilho, apesar de termos usado esse tecido metalizado cobre. Está matador”, comentam em uníssono (Foto: Alberto Wu para Ás na Manga)

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Rebeca Gonzalez, da SUA, tem pegada rocker. No batente desde 2011, ela  privilegia pretos e grafites e aplica nas modelagens franjas, ilhoses e efeitos que esbarram no estilo dark de ser. “Curto usar lycra praia, que dá esse caimento fluido, mas pesado”, conta mostrando em seguida a calça flare que traz uma basque prolongada que cria a ilusão de uma sobreposição (Foto: Alberto Wu para Ás na Manga)

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Formanda de design de moda pela UFMG, Gabriella Diniz (25) usa seu próprio nome na marca de apenas um ano. Ela aposta numa roupa de festa com levada de alfaiataria e têm como marcas os efeitos em dobraduras e as monocromias com jogo de fosco e brilho. “Mas não deixo de homenagear minha origem mineira: uso pedras como ágatas, quartzo e ônix em bordados”, conta (Foto: Alberto Wu para Ás na Manga)

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Segundo lugar no READY To Go desta ano com sua moda sustentável, Emanuelle Carvalho e Ursula carvalho, da Tiê, investem em questões como urbanicidade, esporte e mobilidade urbana. Acreditam no consumo consciente e criam peças com famílias de tecido com preocupação ecológica, como moletons tingidos com corantes orgânicos, sarjas de PET e algodões amaciados com casca de arroz, além de radiosas que se decompõem em dois anos na natureza (Foto: Alberto Wu para Ás na Manga)

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Mineiro com cara de viking, Lucas Pessoa, da Silva & Co, trabalha com moda desde os 14 anos: “Tomei conhecimento do meio ainda pré-adolescente, quando virei modelo comercial. Falei para mim mesmo: quero viver disso e fui fazer design de moda na UNA”, revela com entusiasmo. Com apenas 23 anos e em sua segunda coleção, fala com brilho no olhar tanto da Fashion TV quanto do próprio trabalho: “Adoro esses programas de estilo na televisão. Na minha trilha, procuro conciliar ciência e crença, minha moda tem essa dualidade”, filosofa (Foto: Alberto Wu para Ás na Manga)

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Com jeitinho de it-girls, Amanda Nunes e Ana Lucia Nunes é mais uma dupla que é amiga e parente. Começaram fazendo vestidos para as mais próximas e, depois, com os apelidos de infância criaram a Manda e Nalu, que faz roupa de festa descomplicada, mas rica, com jeito de ninfa da floresta. “Curtimos essas cores pastel, tipo hortênsia e goiaba, com essa pegada retrô, meio Art Nouveau, meio thirties, tudo bem fluido. E essa levadinha de lingerie, meio slip dress”, entregam (Foto: Alberto Wu para Ás na Manga)

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Alexandre Franco, da Candê, investe em estampas. Formado em design pelo INAP e em moda pela UFMG, se especializou em estamparia no Dublin Fashion Institute, que descobriu quando foi morar na Irlanda, acompanhando a mulher. Apesar da temporada no frio bretão, desenha caftãs e vestidos soltos com estampas solares, coisa que já fazia antes, quando desenvolvia prints exclusivos para Victor Dzenk. “O digital me fascina. Vendo bem pelo ecommerce e agora estou investindo no atacado para ver no que dá”, confessa, afirmando que não tem interesse em ter loja própria (Foto: Alberto Wu para Ás na Manga)

No batente há 10 naos, Ana França há quatro tem um ateliê que leva seu nome. Seu lance fazer moda para noiva. Mas não uma moda qualquer. Ela aposta num estilo mais perene, que dure mais que a noite de Cinderela e, quem sabe, até o próprio matrimônio: “Quero ir além dos códigos do casamento – branco, vestido, renda. Tenho um estilo que transcende a cerimônia e crio peças como bodies e vestidos que, fora do contexto, podem continuar a serem usados, ao invés de virarem recuerdo guardada no armário com naftalina”, dispara a moça, que estudou design na UEMG e moda noiva no Marangoni, em Paris (Foto: Alberto Wu para Ás na Manga)

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