Reinaldo Lourenço pegou uma gripe. Na impossibilidade de escrever sobre o desfile do estilista, que abriu nesta noite de segunda-feira (22/4) a 47ª edição da São Paulo Fashion Week, no Farol Santander, a frase, que parece sem sentido à primeira vista, ganha corpo na abertura desse artigo. Para os desavisados, ela adapta para o registro jornalístico da moda nacional, neste site, o título criado pelo jornalista Gay Talese, em 10 de abril de 1966, para coroar seu périplo de três semanas na frustrada tentativa de entrevistar para a revista Esquire o Old Blue Eyes Frank Sinatra, astro da música, cinema e showbizz.

Reinaldo Lourenço abriu a 47ª edição da SPFW nesta noite de segunda-feira (22/4) (Foto: Reprodução)

Depois de vários encontros marcados e desmarcados pelo assessoria do ator-cantor, sem nunca chegar realmente às vias de fato com Sinatra, o jornalista gastou a temporada passada em Los Angeles contatando, encontrando e conversando com todos aqueles que orbitavam em torno do ídolo – menos com o próprio –, enquanto era levado no bico pelos agentes do intérprete de “My Way. Ouviu casos, anotou detalhes, guardou na memória curiosidades e acabou formando o maior panorama possível da trajetória de “A Voz”, o suficiente para escrever uma minuciosa biografia não autorizada quando retornasse a Nova York.

Gay Talese: papa do New Journalism, o americano foi, sem querer e sem saber, o combustível desse artigo, da mesma forma que seu não-entrevistado Frank Sinatra foi a mola propulsora do jornalismo literário (Foto: Reprodução)

O antigo cometa da MGM e da Columbia Pictures, então com 49 anos, andava às voltas com uma velada má-vontade com a imprensa, pelo fato de andarem vazando suas supostas ligações com a máfia. Por isso, a desculpa usada para dar bolo em Talese a torto e a direito era a tal suposta gripe. Mal imaginava que a não-entrevista se transformaria num valioso calhamaço que redefiniria brilhantemente a forma de fazer jornalismo opinativo, na velocidade de um espirro. A matéria – calcada na dificuldade de acessar Frank Sinatra – acabou ficando com o surpreendente conteúdo de 55 páginas, é considerada o marco do New Journalism Novo Jornalismo ou ainda Jornalismo Literário –, vertente que procura impregnar o factual de perspectivas subjetivistas, ampliando a dimensão da reportagem através de recursos provenientes da arte da literatura, ainda que outro baluarte do gênero, Tom Wolfe, credite a aurora do estilo a um outro texto publicado pelo mesmo autor cerca de três anos antes, “Joe Louis at Fifty.

De caso com a máfia: sem querer, o astro do showbizz Frank Sinatra acabou impulsionando uma nova forma de dar a notícia que se difundiu no planeta – o Novo Jornalismo -, quando se recusou a receber a imprensa em meados dos anos sessenta, em retaliação por ser acusado de dispor de estreitas ligações com a contravenção (Foto: Reprodução)

Imbuído pelo editor Harold Hayes para dar cabo da missão de entrevistar o ídolo, que já vinha há tempos arrastada, Talese, hoje com 87 anos, escreveu: “Sinatra estava doente. Padecia de uma doença tão comum que a maioria das pessoas a considera banal. Mas quando acontece com Sinatra, ela o mergulha num estado de angústia, de profunda depressão, pânico e até fúria. Frank Sinatra está resfriado.” Talvez jamais o resultado fosse tão profundo, transversal, caso o protagonista de “Marujos do amor“, “Can-can” e “Sob o domínio do mal” tivesse mesmo concedido a entrevista.

É com esse mesmo espírito que ÁS escreve hoje sobre Reinaldo Lourenço, um fabuloso gênio sob a perspectiva do estilo, mas possivelmente tão enfadonho quanto arqueadas são suas sobrancelhas, quando é hora de falar sobre suas inspirações; avant-garde na modelagem primorosa e alfaiataria impecável, mas demodê quando o assunto é receber bem quem pretende fazer seu trabalho tão meticulosamente quanto ele desenha coleções. En passant define. E a definição revela pouco caso. No quesito dificuldade, não seria inequívoco associar o fashion designer à lenda hollywoodiana, mantidas as devidas proporções, ainda que a tentativa de pegar umas aspas certamente não gastaria jamais as três semanas de Talese, sobretudo, quando se considera que as facilidades “pá-pum” da Era da Comunicação não se comparam com o parco manancial de recursos dos anos sessenta, quando os Jetsons ainda eram ficção.

“I want to be alone”: a frase imortalizada pela diva Greva Garbo cai como uma luva no estilista Reinaldo Lourenço, cuja decisão de não receber ÁS no seu desfile da SPFW revelam a autossuficiencia de sua nova coleção (Foto: Reprodução)

Lamento, Reinaldo, mas a forma de se relacionar com a imprensa, nos moldes que serão relatados abaixo, devidamente registrada em conversas de whatsapp com o seu staff sinatriano, equivale a acreditar que atualmente ainda é cabível girar a manivela na frente do radiador para fazer o motor de um carro pegar, como se fazia com os calhambeques há mais de um século. A modernidade de suas criações futuristas não combina com essa sua atitude Ancien Régime.

A coleção de Reinaldo Lourenço apresentada em outubro foi inspirada pelo filme “A garota da motocicleta” (Foto: Reprodução)

Questionada logo cedo sobre a possibilidade de o veículo fazer o backstage, a assessora de imprensa – criatura agradabilíssima pela qual ÁS realmente nutre simpatia – rapidamente tangenciou: “Querido, por favor, fale com o Thiago do Rei[naldo]”. Saiu pelo flanco, mas mandou em minutos o release da coleção solicitado. Mais rápido que o Flash. E tão rápida quanto o Papa-léguas do Looney Tunes, veio a informação de que sua equipe não estava fazendo o sitting do desfile. Hum, o João Knorr subiu o telhado.

Estudando o texto informativo, ficou claro que a nova fornada de peças de verão do Rei Reinaldo se baseia em uma praia urbana, na qual o casual se mescla à alfaiataria, numa inspiração que evoca a Miami Beach dos anos 1950/1990. Possivelmente a Ocean Drive do Distrito Art Déco. Belezura. No conceito, o caminho das pedras para acessar Reinaldo com bagagem, com conhecimento de causa, estava dado no mesmo rumo com que o Rei da Noite caminha para a Winterfell de Westeros na temporada final de Game of Thrones.

Reinaldo Lourenço_ SPFW N47 / Primavera Verão 2020 (Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite / Divulgação)

Entre o primeiro retorno da assessora e a posição sobre o sitting, um editor Star Trek, munido dos intercomunicadores da Enterprise que os smartphones permitem, já havia acionado o Thiago do Rei. “Bom dia, Thiago [do Rei]! Aqui é o Alexandre Schnabl do Ás na Manga. Fulana passou seu contato. Gostaria de pegar umas aspas sobre a coleção. Vou pedir para meu repórter fazer o back. Tudo certo? Como você quer fazer? Que horas podemos?”. A resposta não tardou: “Manda por aqui [wpp]. Não liberamos backstage; é muito pequeno.” Okay. Por áudio, mandei a pergunta, algo tipo “como alguém com um trabalho com características essencialmente tão urbanas desenvolve uma coleção praiana, cuja atmosfera naturalmente se reveste do casual, quase anti-alfaiataria? Como se dá essa criação?”. Perguntinha clássica, só para dar uma palinha em um vídeo gravado por ele mesmo para subir nas mídias sociais e puxar o evento na típica notinha curiosa pré-desfile. Um teasing. Leitores adoram. Easy listening.

Sobre o vídeo, a resposta foi precisa: “Não consigo.” Tudo bem. Em seguida, veio a resposta à pergunta, tão pré-formatadinha quanto a mensagem automática de telemarketing da Oi. Oi? “A coleção traz micro short com camisa, os sapatos todos são baixos, vestidos-camisa em tricoline de algodão, assim que trabalhamos o casual com a alfaiataria. Miami está muito presente nas cores e estampas da coleção, e também no life-style de como se vestir em uma cidade de praia”. As respostas chapa branca da equipe de Bolsonaro, para justificar seus desatinos, costumam ser mais plenas, mas okay. A informação obtida vai servir para legendar as fotos do fashion show publicadas nessa matéria. Se foram fornecidas pela equipe do estilista, são suficientes para o leitor.

O ápice, contudo, veio a seguir: “Tudo certo com o sitting. O veículo está mapeado?”, pergunta a priori desnecessária para um jornalista que cobre a SPFW há anos e está credenciado pelo evento. O retorno foi econômico: “Só no Pit” (o “curral” no qual os fotógrafos são posicionados na ponta da passarela, onde cabem somente os fotógrafos, nunca os repórteres…).

Reinaldo Lourenço / SPFW N47 / primavera-verão 2020 (Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite / Divulgação)

Será que Reinaldo tem relações insuspeitas com a máfia e está aborrecido com a imprensa por terem sido vazadas essas ligações? Bom, se a definição da coleção foi tão bem dada pela sua equipe por WhatsApp e a entrada ao desfile foi negligenciada a este jornalista, não há mesmo que escrever. Posso pedir um japa delivery e passar a noite no Netflix, sem precisar me deslocar ao Farol Santander.

O trecho mais famoso do artigo de Gay Talese é esse: “Sinatra resfriado é Picasso sem tinta, Ferrari sem combustível – só que pior. Porque um resfriado comum despoja Sinatra de uma joia que não dá para pôr no seguro – a sua voz –, minando as bases de sua confiança, e afeta não apenas seu estado psicológico, mas parece também provocar uma espécie de contaminação psicossomática que alcança dezenas de pessoas que trabalham para ele, bebem com ele, gostam dele, pessoas cujo bem-estar e estabilidade dependem dele. Um Sinatra resfriado pode, em pequena escala, emitir vibrações que interferem na indústria do entretenimento e mais além, da mesma forma que a súbita doença de um presidente dos Estados Unidos pode abalar a economia do país.” Lamento informar, Senhor Lourenço, mas a sua “gripe” pode até movimentar de forma turbulenta sua equipe, mas ela não interfere na indústria da moda, muito menos na cultural, nem vai impactar na economia. Sorry.

Confira abaixo as fotos do desfile de Reinaldo Lourenço (Fotos: Marcelo Soubhia/Fotosite / Divulgação):

Reinaldo Lourenço / SPFW N47 / primavera-verão 2020 (Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite / Divulgação)

Reinaldo Lourenço / SPFW N47 / primavera-verão 2020 (Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite / Divulgação)

Reinaldo Lourenço / SPFW N47 / primavera-verão 2020 (Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite / Divulgação)

Reinaldo Lourenço / SPFW N47 / primavera-verão 2020 (Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite / Divulgação)

Reinaldo Lourenço / SPFW N47 / primavera-verão 2020 (Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite / Divulgação)

Reinaldo Lourenço / SPFW N47 / primavera-verão 2020 (Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite / Divulgação)

Reinaldo Lourenço / SPFW N47 / primavera-verão 2020 (Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite / Divulgação)

Sarah Berger fecha o desfile de Reinaldo Lourenço / SPFW N47 / primavera-verão 2020 (Foto: Marcelo Soubhia/Fotosite / Divulgação)

Deixe seu comentário

Seu email não será publicado.