O triunfo com que o filme O insulto (L’insulte, Líbano/França/Bélgica/Chipre, 2017) foi recebido no Festival de Veneza, setembro passado, contrastou violentamente com o que sucedeu poucos dias depois: ao retornar a Beirute, seu diretor Ziad Doueiri foi detido para responder à acusação de “associação com o inimigo” – neste caso, Israel, país com que o Líbano ainda está tecnicamente em guerra – por ter filmado em Tel-Aviv várias cenas de outra obra sua O atentado (2012), cinco anos antes.

“O insulto”, dirigido por Ziad Doueiri e representante do Líbano entre os cinco finalistas da categoria de ‘Melhor Filme Estrangeiro’ do Oscar, é uma emocionante mistura de drama político com filme de tribunal muito bem costurada por um roteiro ágil e um elenco afiado (Foto: Divulgação)

Doueiri infringira o artigo 285 do código penal libanês que prevê um mês de prisão para quem entrar no país, direta ou indiretamente, vindo de território inimigo sem prevenir as autoridades. Seus dois passaportes  –  o francês e o libanês – foram apreendidos, mas ele logo foi solto pelo tribunal militar que o deteve depois da péssima repercussão local e internacional do incidente. Todo esse mal-estar explica o aviso que aparece no início de “O insulto”, informando que “a obra não traduz a visão do governo libanês”. Pode não traduzir, mas conforme diz o jornalista Guga Chacra, especialista em Oriente Médio, em sua coluna de “O Globo”, o filme “consegue com um roteiro simples explicar por meio da ficção a realidade do mundo árabe”.

Enquanto no mercado ocidental o cartaz promocional procura vender as querelas e as reviravoltas de um filme de tribunal (veja acima), o cartaz destinado ao Oriente destaca imagens de conflito e o protagonista Toni, cristão radical que é insultado por um refugiado palestino num contexto aparentemente corriqueiro. Mas o caso é levado aos tribunais e a disputa judicial revelará feridas antigas que exacerbarão os ânimos de cristãos e muçulmanos numa Beirute que tenta se reconstruir (Foto: Divulgação)

E é justamente essa simplicidade uma das mais poderosas qualidades – entre tantas outras – do filme de Ziad Doueiri que arrebatou a Copa Volpi de ‘Melhor Ator’ em Veneza para Kamel El Basha, no papel de Yasser, um engenheiro e refugiado palestino que trabalha como mestre de obras nos serviços de restauro de ruas do setor cristão de Beirute. As tensões recalcadas entre cristãos e muçulmanos explodem praticamente do nada quando Yasser recebe acidentalmente um jato d’água na cabeça de uma calha irregular do apartamento de Toni, um cristão dono de uma oficina mecânica e admirador incondicional de Bashir Gemayel, presidente do Líbano e vítima fatal de um atentado ocorrido em 1982 que o transformou em ícone dos libaneses cristãos.

Desse incidente aparentemente insignificante nasce “o insulto” que dá título ao filme: Toni perde a cabeça – embebida em slogans políticos que ouve pelo rádio – e diz a Yasser que “Sharon deveria ter acabado com vocês (os palestinos)”. No contexto explosivo do Oriente Médio, essa afronta significa evocar aquele que é considerado um dos maiores algozes dos palestinos – o líder militar e político israelense Ariel Sharon (1928-2014). A partir daí, o filme se desdobra numa escalada vertiginosa de desentendimentos, ameaças, agressões físicas e de interferências fracassadas de conciliação que não só desestabilizam a vida privada dos protagonistas como rompem a barragem de ressentimentos acumulados pelo histórico de massacres mútuos de libaneses cristãos e muçulmanos. A discórdia entre Yasser e Toni transborda para as ruas e inflama a população, acaba nos tribunais e envolve grotescamente até o Presidente da República.

“O insulto” é ambientado principalmente no setor cristão de Beirute, separado do muçulmano pela chamada Linha Verde. Já nos bairros periféricos instalaram-se milhares de refugiados palestinos. A capital, hoje com dois milhões de habitantes e que já foi uma das mais prósperas e aprazíveis cidades do Oriente Médio, foi quase destruída durante a guerra civil libanesa que durou 15 anos (1975-1990) (Foto: Divulgação)

“O INSULTO”: UMA VIBRANTE LIÇÃO DE CINEMA

Os críticos chamam Ziad Doueiri de “diretor da memória” por trazer à tona e tentar discutir racionalmente através de dramas individuais os antagonismos históricos que separam os libaneses entre si. Para dar conta dessa tarefa, a câmera de Doueiri assume uma postura corajosa, presente e dinâmica.

Nesta cena de confronto entre cristãos e muçulmanos nas ruas de Beirute, Doueiri aciona duas câmeras ao mesno tempo e capta diretamente o som a fim de reproduzir com fidedignidade o clima de violência que a maioria dos libaneses já viveu de perto (Foto: Reprodução)

Mas o ponto alto de “O insulto” são mesmo as emocionantes sequências dos embates no tribunal magistralmente preparadas, interpretadas, fotografadas e editadas (Foto: Reprodução)

O mantra publicitário da campanha promocional de “O insulto” sintetiza fielmente a premissa do filme: “Palavras mudam tudo”. Num mundo onde todos pisam em ovos, uma ofensa verbal apenas sussurrada pode trazer conseqüências cataclísmicas. É quando o roteiro de Joelle Touma e do próprio diretor muda a marcha, acelera-se ainda mais, apropriando-se habilmente de vários gêneros cinematográficos como o thriller político, o melodrama familiar – a mulher de Toni está grávida e pode perder o bebê – e o cultuado drama de tribunal, numa alquimia perfeita que ainda proporciona algumas viradas surpreendentes de uma história que mantém o público com os olhos grudados na tela.

DOIS FILMES E UMA DETENÇÃO

Dias depois do triunfo em Veneza  com “O insulto”, o diretor Zaid Doueiri foi detido ao retornar à sua pátria. Acusação: gravou em território de um país inimigo – Israel – várias cenas do filme “O atentado” (2012) de cinco anos atrás, o que é considerado crime pelo Código Penal do Líbano, onde o filme está proibido até hoje. Essa obra – falada em hebreu e árabe – narra o drama de cirurgião de origem palestina cuja mulher morre num atentado-suicida em Tel-Aviv em que ela é a kamikaze. Confira abaixo o trailer deste outro polêmico filme de Doueiri e marco do renascimento do cinema libanês:

Na defesa que o diretor Zaid Doueiri apresentou perante o tribunal militar que o julgou como “colaborador do inimigo”, ele apresentou seus dois passaportes: o francês e o libanês, alegando ter entrado e trabalhado em Israel com o primeiro, na condição de cidadão da França (Foto: Reprodução)

As correntes político-religiosas do Líbano a favor do boicote total a Israel e a seus aliados têm imposto uma série de restrições à circulação e às atividades de artistas, escritores, jornalistas, intelectuais e religiosos do país que não se alinham com essa postura. A própria Miss Líbano foi duramente repreendida por se deixar fotografar ao lado de Miss Israel no concurso de Miss Universo de 2015 (Foto: Reprodução)

Com “O insulto”, Ziad Doueiri – que revelou ter-se baseado num incidente parecido que aconteceu com ele mesmo – conseguiu aquilo com que quase todo cineasta sonha: proporcionar um espetáculo cinematográfico absorvente enquanto se equilibra entre o estudo dos conflitos íntimos dos personagens e o turbilhão do intrincado momento histórico em que eles estão imersos. É um talento raro que nos remete a algumas das obras-primas de David Lean como Lawrence da Arábia (1962) e Passagem para a Índia (1984). E se a política cultural do Estado libanês permitir, o público agradece antecipadamente a Ziad mais uma próxima obra que nos lembre que nas guerras, nenhum lado “tem o monopólio do sofrimento”.

A vitoriosa carreira internacional de “O insulto” começou em setembro passado, no Festival de Veneza, de onde saiu ovacionado e com o prêmio de ‘Melhor Ator’ para Kamel El Basha (na foto, calçando sandálias), aqui ao lado dos seus colegas de elenco (E para D): Christine Chouiri, Diamand Bou Abboud, o diretor Ziad Doueiri (ao centro), Rita Hayek, Adel Karam, no papel de Toni, e Camille Salameh que engole as cenas como o astuto advogado do cristão insultado (Foto: Reprodução)

EM BUSCA DO OSCAR DE MELHOR FILME ESTRANGEIRO

“O insulto” é o primeiro filme libanês a disputar na raia dos finalistas de ‘Melhor Filme Estrangeiro’ da Academia de Hollywood e está correndo só com cavalos de raça: “The square – A arte da discórdia” (Suécia) que levou a Palma de Ouro do Festival de Cannes do ano passado; “Corpo e alma” (Hungria), premiado com o Urso de Ouro do último Festival de Berlim; “Uma mulher fantástica” (Chile) que fisgou o Teddy Bear para melhor filme de temática LGBT, também em Berlim; além do elogiadíssimo “Sem amor” ((Rússia). Confira abaixo o vigoroso trailer de “O insulto”:

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