Em cartaz, duas produções de cinema se fazem valer do cacife do elenco, cada uma mais diferente que a outra. Em meio a tantos lançamentos de longas cotados para o Oscar, elas sobressaem justamente pela qualidade do casting e por serem de certa forma ‘filmes de estrada’ na essência, podendo ser opções para quem não quer embarcar no apelo dos filmes candidatos às estatuetas. A melhor escolha (Last Flying Flag, 2017) é mais uma empreitada da Amazon Studios, que cada vez mais aposta no cinemão. Com batuta de Richard Linklater, diretor que tem na filmografia a trilogia formada a partir de Antes do amanhecer (1995), com Ethan Hawke e Julie Delpy, e o badalado Boyhood: da infância à adolescência” (2014), é um longa-metragem pequeno ancorado por talentos consagrados na tela, fugindo do lugar-comum dos filmes de super-heroi, contos de fada live action e bobagens juvenis.

Dessa vez, ele embarca numa espécie de road movie da terceira idade, quando Larry “Doc” Sheperd, ex-fuzileiro naval (um Steve Carrell introspectivo e contido) que tomou parte da Guerra do Vietnã e foi expulso da corporação, procura os velhos companheiros da geração napalm para ajudá-lo a enterrar seu filho, também marine e morto em combate no Iraque apenas poucos meses após Doc ter ficado viúvo. A questão é que passou muito tempo e os três amigos já não são mais os mesmos. Sal Nealon (Bryan Cranston, sempre ótimo) se tornou um dono de bar decadente e beberrão enquanto Richard Mueller (Laurence Fishburne) virou pastor. Está armada a situação, com estes ocupando aquela clássica posição de cartoon das consciências boa e má que influenciam as atitudes de uma pobre criatura por sobre seus atormentados ombros.

O roteiro do próprio Linklater em colaboração com o autor do livro original, Darryl Ponicsan, alterna doses de humor leve com a densidade dramática que seria de esperar, tirando provento das capacidades interpretativas do elencão. O problema é o desenlace não chega exatamente no cerne do dilema moral em questão, ficando no meio do caminho: o fato de as Forças Armadas quererem conceder ao filho de Doc um funeral de herói enquanto se descobre que as circunstâncias de sua morte não são necessariamente valorosas, mas um mero desperdício de vida de um governo americano que maquia tudo com tintas conforme interesses políticos, como já acontecia 50 anos no Vietnã.

Apesar disso, a ida ao cinema se justifica pela presença dos três personagens, hoje estranhos que precisam se redescobrir, nesse périplo pelo Estados Unidos com um caixão de defunto a tiracolo. O mote é bom e os atores dão conta do recado numa realização que carrega as tintas lacônicas com que Linklater costuma colorir seus filmes.

Na outra ponta, Correndo atrás de um pai” (Father Figures, Alcon Entertainment e outros, 2017) é mais um longa de neo cineasta oriundo da carreira de diretor de fotografia. Nesta função, Lawrence Sher tem 26 longas no currículo, entre eles a série Se beber, não case!“, e acaba de cuidar das imagens do blockbuster “Godzilla: rei dos monstros“, atualmente em pós-produção. Mas, como diretor é novato e não consegue passar da obviedade de um roteiro linear, com piadinhas que apenas esboçam um leve sorriso no canto da boca.

Sua sorte é contar com um time de coadjuvantes que abrilhantam a narrativa morna: Glenn Close, Christopher Walken, Ving Rhames e J.K.Simmons. Com uma turma dessa, qualquer bobagem se torna atraente, ainda mais se tiver entre os protagonistas Owen Wilson, que continua fazendo com competência o papel dele mesmo que todo mundo adora.

É o elenco que segura esta produção “nada de novo no front”  que parece pura Sessão da Tarde: a história-chavão dos dois irmãos que se estranham (Wilson e Ed Helms) e saem pela estrada em busca do pai desconhecido, após uma inesperada revelação da mãe (Close, ótima e completamente diferente daquilo que se esperaria dela no papel de uma ex-maluca-beleza). O roteiro é déjà vu e, nas mãos de um diretor mais experiente e criativo, poderia render mais.

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