* Por Flávio Di Cola

Carinhoso, afável, modesto, divertido, cavalheiro e tímido. Não há nenhum testemunho sobre como era Rock Hudson que não passe por tais adjetivos. Esse “gigante amável” –como muitos o definiram – parecia forte e imponente só no seu físico esplêndido, pois por dentro era doce e retraído ao extremo. George Nader – seu amigo de toda vida e que iniciou uma carreira em Hollywood na mesma época que Hudson, mas logo interrompida por se recusar a disfarçar a sua homossexualidade – relata*: “Se havia qualquer tormento no seu espírito, ninguém tomou conhecimento”. Outro amigo do seu círculo mais íntimo informa*: “Ele era tão fechado que quando dizia qualquer coisa você aceitava aquele pouquinho e não insistia mais”.

Boy magia: no auge da popularidade e da forma, Rock Hudson foi um dos principais astros de Hollywood e também o objeto do desejo do público feminino, que desconhecia sua homossexualidade (Foto: Reprodução)

Boy magia: no auge da popularidade e da forma, Rock Hudson foi um dos principais astros de Hollywood e também o objeto do desejo do público feminino, que desconhecia sua homossexualidade (Foto: Reprodução)

Elizabeth Taylor, sua parceira eterna e co-estrela no clássico Assim caminha a humanidade (1956) que o transformou em ídolo e no maior money maker da indústria cinematográfica, revela uma faceta mais solar de Rock*: “Sua risada era contagiante. Seu enorme senso de humor não era cruel nem mesquinho, e geralmente se dirigia contra ele mesmo devido a um profundo senso de ridículo”. Por tudo isso, as condições que cercaram a morte desse astro adorado pelo público e pelos colegas ao longo de quarenta anos de carreira pareceram muito mais chocantes e inaceitáveis, num momento em que a ignorância e o preconceito tornaram ainda mais trágica a eclosão da primeira onda epidêmica da Aids, no início dos anos 1980.

"Assim caminha a humanidade" (1956), de George Stevens, elevou ao mega estrelato o seu trio de protagonistas: Elizabeth Taylor, Rock Hudson e James Dean. Os dois astros, rivais na amizade de Liz, também disputaram o Oscar de Melhor Ator que acabou ficando com Yul Brynner por "O rei e eu" (Foto: Reprodução)

“Assim caminha a humanidade” (1956), de George Stevens, elevou ao mega estrelato o seu trio de protagonistas: Elizabeth Taylor, Rock Hudson e James Dean. Os dois astros, rivais na amizade de Liz, também disputaram o Oscar de Melhor Ator que acabou ficando com Yul Brynner por “O rei e eu” (Foto: Reprodução)

A escalada de Rock Hudson até o estrelato não foi nada fácil no contexto de uma Hollywood que ainda era a Meca do Cinema, em que os estúdios – verdadeiras usinas de ilusões – buscavam, identificavam, lapidavam e lançavam incessantemente novos rostos na esperança de que se transformassem em valiosos astros e estrelas no imaginário do público e assegurassem a hegemonia dos grandes estúdios no mercado global de imagens. Essa lógica artístico-econômica é chamada até hoje de star system, cujos pilares eram os nomes que brilhavam sobre as gigantescas marquises dos cinemas e responsáveis pelas filas nas bilheterias.

Filho de uma telefonista e de um mecânico que abandonou a família no rastro da depressão econômica dos anos 1930, Hudson foi parar em Los Angeles depois de ter voltado da Segunda Guerra com a pretensão de que o seu belo físico o ajudasse a abrir portas na indústria do cinema. Seu primeiro amante na cidade, o produtor musical Ken Rogers, mudou seu nome – Roy Scherer – durante uma festinha em que os convidados ajudaram com sugestões até chegarem à denominação que o consagrou: “Rock” venceu pelo som potente e curto, além de fazer alusão à sua força de touro, e o “Hudson” foi escolhido depois de uma consulta ao catálogo telefônico.

Rock Hudson serviu na Marinha durante a Segunda Guerra nas Filipinas executando trabalhos humildes como descarregar aviões ou organizar a lavanderia. Inevitavelmente, no meio militar a sua verdadeira sexualidade veio à tona (Foto: Reprodução, 1944)

Rock Hudson serviu na Marinha durante a Segunda Guerra nas Filipinas executando trabalhos
humildes como descarregar aviões ou organizar a lavanderia. Inevitavelmente, no meio militar a sua verdadeira sexualidade veio à tona (Foto: Reprodução, 1944)

Das mãos de Rogers, o recém-batizado Rock Hudson foi parar nas de Henry Wilson, notório empresário independente e agenciador de candidatos ao estrelato. Embora muito mal afamado pelo desagradável hábito de cobrar pesados pedágios no sofá do seu escritório e pelos serviços como cafetão de luxo para os executivos dos estúdios de Hollywood, Wilson colecionava muitos sucessos no processo de lançamento e promoção de jovens aspirantes. Espertamente, o empresário declinou de uma proposta feita pela Warner Bros. para a compra do passe de Rock Hudson e aceitou a oferta da Universal, um estúdio menor e muito menos respeitado. Enquanto a Warner era um super estúdio com uma constelação fabulosa de astros que competiam acirradamente entre si pelos melhores papéis, a Universal – além de quase não ter grandes nomes e basear a sua produção em filmes “B” – mantinha a melhor escolinha preparatória de novos talentos e um habilidoso departamento de publicidade na arte de catapultar o nome dos melhores pupilos do estúdio.

É fácil entender a preocupação de Henry Wilson com a preparação de base de Rock Hudson para atuar no cinema: durante as filmagens de Sangue, suor e lágrimas (1948), sua primeira aparição num filme, ainda na Warner, Hudson precisou de 38 tomadas para poder recitar uma só linha do roteiro.

Rock Hudson atuou em quase 70 filmes no cinema e atingiu as culminâncias da popularidade entre 1955 e 1965 para se voltar com igual sucesso aos seriados de tv. Ele interpretou todo tipo de personagem em westerns, melodramas, épicos, comédias, dramas ou policiais. Acompanhe cinco momentos de uma carreira que atravessa quatro décadas (Fotos: Reprodução):

Mas o investimento de Henry Wilson e da Universal foi magnificamente recompensado: depois de participar com paciência e disciplina em mais de vinte filmes de todos os gêneros e níveis de qualidade, Rock Hudson estava finalmente maduro para assumir o seu posto no firmamento de Hollywood. Em 1954, ele simplesmente arrasou no papel do playboy arrependido que destrói e depois salva a vida de Jane Wyman em Sublime Obsessão (1954), um dramalhão do mestre Douglas Sirk cujo enredo absurdo desafia deslavadamente a mais remota lógica. O filme foi recebido com pedradas pela crítica, mas arrastou multidões aos cinemas do mundo inteiro.

A vulnerabilidade de Rock Hudson despertou sentimentos paternais em muitos homens como – por exemplo – no “rei do melodrama de Hollywood”, o diretor Douglas Sirk que o dirigiu em nove filmes, incluindo o clássico absoluto no gênero “Tudo o que céu permite” (1955)

Trecho de “Tudo o que o céu permite” (Reprodução)

A partir de então, a carreira desse “gigante amável” sobe rapidamente rumo ao zênite: em 1956, ele figura em 11º lugar entre os artistas cinematográficos mais populares nos Estados Unidos. Um ano depois, atropela veteranos imbatíveis como John Wayne, para assumir o 1º lugar, posição que irá reocupar em 1959. Entre 1960 e 1962 abdica da liderança para a sua amiga e colega Elizabeth Taylor, contentando-se em ser o dono indisputável do segundo posto.

Os anos 1950 foram esquizofrênicos em termos sexuais. De um lado, imperavam rígidos conceitos do que era masculino e feminino. De outro, a década assistiu à emergência de uma poderosa cultura gay, embora quase toda subterrânea. (Fotos: Reprodução)

Com o fim da hegemonia de Hollywood, o star system e sua formidável máquina promocional afundam juntos. A década de 1960 vê o triunfo de um novo tipo de astro – os “feios” ou os “não tão bonitos”. Dustin Hoffmann, Al Pacino, Charles Bronson, Steve McQueen, Jack Nicholson ou Robert De Niro pareciam homens normais, e não “fabricados”, atendendo com mais coerência aos filmes realistas e críticos exigidos pelo público de então. A Rock Hudson restava o caminho da televisão onde reencontraria não só seus fãs que estavam envelhecendo com ele, como também o mesmo sucesso retumbante que já obtivera antes nas telas de cinema, através de séries que impregnam até hoje a memória do público como O casal McMillan(1971-1977), ao lado de Susan Saint James. Os anos 1980 para Rock Hudson seriam preenchidos com graves preocupações com a própria saúde e que culminariam com a sua morte em decorrência de complicações geradas pela Aids.

Desbunde: nos anos 1970, Hudson protagonizou série de sucesso ao lado de Susan Saint James, como um casal formado por um detetive e sua mulher, dentro da chancela de "Os detetives", exibida pela NBC (Foto: Reprodução)

Desbunde: nos anos 1970, Hudson protagonizou série de sucesso ao lado de Susan Saint James, como um casal formado por um investigador e sua mulher, dentro da chancela de “Os detetives”, exibida pela NBC (Foto: Reprodução)

Rock Hudson adorava o Rio de Janeiro, principalmente no Carnaval. Ele veio se esbaldar na nossa maior festa duas vezes, em 1958 e 1973:

Na primeira visita, uma bela cicerone feminina foi providenciada - nada menos do que a modelo e atriz Ilka Soares - para o astro que veio ao Rio esquecer o desastre do seu primeiro e único casamento "hetero" (Foto: Reprodução)

Na primeira visita, uma bela cicerone feminina foi providenciada – nada menos do que a modelo e atriz Ilka Soares – para o astro que veio ao Rio esquecer o desastre do seu primeiro e único casamento “hetero” (Foto: Reprodução)

Princesa da cocada preta: sentindo-se livre na atmosfera "gay friendly" da Cidade Maravilhosa do final dos anos 1950, Rock Hudson encantou-se com a irreverência dos cariocas e aceitou envergar a faixa de "Princesa do Carnaval" (Foto: Reprodução)

Rainha da cocada preta: sentindo-se livre na atmosfera “gay friendly” da Cidade Maravilhosa do final dos anos 1950, Rock Hudson encantou-se com a irreverência dos cariocas e aceitou envergar a faixa de “Princesa do Carnaval”
(Foto: Reprodução)

A forma pela qual o astro foi contagiado com o vírus HIV continua sendo objeto de polêmicas. Em 1982, Hudson passou por uma série de cirurgias depois de um ataque cardíaco e que exigiram a implantação de cinco pontes de safena, envolvendo várias transfusões de sangue, numa época em que muitos bancos já deveriam estar contaminados. Por outro lado, o homossexualismo e a frenética atividade sexual de Rock Hudson eram bastante conhecidos por parte da colônia cinematográfica de Hollywood e no submundo gay de Los Angeles desde os anos 1950, a ponto de a revista de escândalos Confidential – que em 1955 vendia cinco milhões de exemplares por edição – ter chantageado a Universal com informações comprometedoras sobre a vida íntima do seu principal astro.

A imprensa sensacionalista não hesitou em estampar as fotografias mais degradantes do calvário de Rock Hudson. De qualquer forma - através do escândalo - a epidemia da AIDS recebeu publicidade maciça e desencadeou uma primeira onda de solidariedade e de políticas de saúde (Foto: Reprodução)

A imprensa sensacionalista não hesitou em estampar as fotografias mais degradantes do calvário de Rock Hudson. De qualquer forma – através do escândalo – a epidemia da AIDS recebeu publicidade maciça e desencadeou uma primeira onda de solidariedade e de políticas de saúde (Foto: Reprodução)

Embora constantemente aterrorizado pelos rumores e pela perspectiva de ser tragado por um grande escândalo, Rock Hudson nunca recalcou os seus desejos: teve vários namoros sérios e longos que entremeava com buscas por aventuras de uma noite. E sua mansão em Beverly Hills – conhecida como “O castelo” – foi um celebrado palco de festas e orgias da pesada. Paradoxalmente, ele via com desconfiança os movimentos do gay liberation que surgiram durante os anos 1960-70 na esteira da rebelião de Stonewall. Na sua visão, hoje certamente considerada conservadora, essas manifestações apenas buscavam impor autoritariamente e com estardalhaço preferências que deveriam permanecer numa esfera essencialmente íntima e pessoal. Com humor debochado, o ator definia toda essa agitação como* “aquelas passeatas em que as pessoas saíam empunhando um tubo de vaselina”.

Hudosn ao lado da grande amiga Doris Day: em uma série de comédias românticas, a dupla fez sucesso na virada dos 1960 e a amizade continuou até o final (Foto: Reprodução)

Hudson ao lado da grande amiga Doris Day: em uma série de comédias românticas, a dupla fez sucesso na virada dos 1960 e a amizade continuou até o final (Foto: Reprodução)

A aparição de Rock Hudson no programa televisivo “Doris Day Best Friends” gravado em julho de 1985 no rancho da sua querida amiga em Carmel, Califórnia, dois meses antes do seu falecimento, chocou o público americano que ainda vivia o sonho da perfeição física do seu ídolo e desconhecia a gravidade do estado de saúde de Rock.

Vídeo (Reprodução)

Ironicamente, o destino delegou justamente a ele – Rock Hudson – e da forma mais inesperada possível, o papel mais importante jamais assumido antes por qualquer outro militante dos direitos civis LGBT no processo de conscientização – tão dramático quanto repentino – da opinião pública mundial sobre uma ameaça que estava devastando majoritariamente – naquele momento – as minorias gays em todo o planeta. No dia 19 de setembro, quando 2.500 personalidades de Hollywood se uniram pela primeira vez num ato público para enfrentar de cabeça erguida o mal que já tinha dizimado sorrateiramente centenas de profissionais do cinema, Burt Lancaster leu as seguintes palavras enviadas por Rock Hudson que – naquele momento – já agonizava: “Não estou feliz por estar doente. Não estou feliz por ser portador da Aids. Mas se o gesto de tornar pública a minha situação puder ajudar outros doentes, então terei certeza de que o meu sofrimento não tem sido em vão”.

(*) As declarações precedidas por este sinal foram retiradas da obra “Rock Hudson-História da sua vida” (Rock Hudson-His story), escrita a partir de entrevistas concedidas pelo próprio biografado à jornalista Sara Davidson ao longo do último mês de vida do ator. A edição brasileira foi publicada em 1986 pela Editora Guanabara, Rio de Janeiro, com tradução de Newton Goldman.

2 Responses

  1. Camila

    Maravilhosa matéria e ótima escolha de fotos. Quantas vezes sussurrei de paixão ao ver o Rock Hudson no cinema. Parabéns ao jornalista por essa justa homenagem.

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