Sai o espanhol Pedro Almodóvar, entra a australiana Cate Blanchett. Com o anúncio de que a estrela de “Carol e Blue Jasmine presidirá o Júri da Seleção Oficial da próxima edição do maior evento cinematográfico do mundo, que ocorrerá entre 8 e 19 de maio,  a direção do Festival de Cannes mantém-se firme na tradição de recrutar nomes poderosamente emblemáticos e consensuais do cinema internacional para comandar a missão de conferir a Palma de Ouro, secundados por mais oito jurados não revelados até o momento.

A foto que acompanha o anúncio oficial da indicação de Cate Blanchett como presidente do júri do Festival de Cannes 2018 foi clicada pelo badalado fotógrafo de moda australiano, de origem chinesa, Steven Chee, que já emplacou La Blanchett nas capas da “Harper’s Bazaar” e “Vogue Australia” (Foto: Divulgação)

Na edição do ano passado, Pedro Almodóvar, na qualidade de Presidente do Júri, foi obrigado a arbitrar um tremendo imbroglio: dois filmes em competição pelo prêmio máximo – Okja“, do sul-coreano Bong Joon Ho, e The Meyerowitz Stories“, do norte-americano Noah Baumbach, e produzidos para serem exibidos diretamente na plataforma Netflix sem passar pelas salas de cinema, tiveram suas respectivas candidaturas rechaçadas por pressão das poderosas redes exibidoras européias, principalmente as francesas, que consideraram esse tipo de comercialização que “pula” a etapa da projeção em sala um atentado a uma das tradições mais caras à Sétima Arte: a fruição coletiva e simultânea de um espetáculo cinematográfico tal como foi experimentada pela primeira vez no longínquo dia 28 de dezembro de 1895, em Paris, sob os auspícios dos irmãos Lumière.

Olivia de Havilland, a eterna e centenária (nasceu em 1916) co-estrela do clássico “…E o vento levou” (1939) foi a primeira mulher e atriz a ser designada presidente do júri do Festival de Cannes, na 18ª edição, em 1965. Aqui ela posa ao lado do também veterano ator Rex Harrison (1908-1990) no terraço do antigo Palácio dos Festivais, na Croisette. Outras atrizes-presidentes em Cannes: Sofia Loren (1966), Michèle Morgan (1971), Isabelle Adjani (1997), Liv Ullmann (2001) e Isabelle Huppert (2009) (Foto: Reprodução)

JEANNE MOREAU, A FAVORITA DE CANNES

A única pessoa a assumir mais de uma vez o mais alto posto em júri em toda a história do Festival de Cannes foi uma mulher e atriz: Jeanne Moreau (1928-2017), um dos maiores mitos do cinema francês, falecida há seis meses atrás. Acompanhe:

A primeira presidência de Jeanne Moreau (ao lado do ator e escritor Pierre Salinger) foi na 28ª edição do Festival de Cannes, em 1975, cuja Palma de Ouro foi concedida ao filme “Crônicas dos anos de fogo” do argelino Mohammed Lakhdar-Hamina (Foto: Reprodução)

La Moreau repetiu a dose, 20 anos depois, em 1995, quando protagonizou um momento “ternura” com a cantora Vanessa Paradis, na abertura da 48ª edição, ao fazer um dueto com a ex-senhora Johnny Depp com a canção “Le tourbillon de la vie”. Nesse ano, o grande vencedor do evento foi “Underground-Mentiras de Guerra” do iugoslavo Emir Kusturica (Foto: Reprodução)

Agora, pergunta-se: que polêmicas enfrentará Cate Blanchett como Presidente do Júri quando maio chegar e o red carpet já estará estendido em plena Croisette? Pelo menos a questão do “empoderamento feminino” parece estar bem encaminhada em Cannes. No ano passado, três grandes diretoras tiveram seus trabalhos em competição pela Palma de Ouro: Sofia Coppola, Naomi Kawase e Lynne Ramsay. Outro punhado de diretoras conseguiu espaço para a projeção de suas obras em sessões fora de competição, como Jane Campion, Bonni Cohen, Anahita Ghazvinizadeh, Vanessa Redgrave, Kristen Stewart e Agnès Varda, assim como na badalada mostra Un Certain Regard, através de títulos enviados pela dupla de argentinas Cecilia Atán & Valeria Pivato, pela alemã Valeska Grisebach e pela italiana Annarita Zambrano.

CATE BLANCHETT: DE FIGURINHA CARIMBADA A PRESIDENTE DE JÚRI EM CANNES

Como a própria Cate Blanchett relembra no comunicado oficial divulgado nesta quinta-feira (4/1) pela organização do Festival de Cannes, ela já se considera uma veterana do evento em que compareceu muitas vezes para representar ou promover filmes em que atuou. Acompanhe algumas dessas passagens:

Em 2017, na 68ª edição, Cate Blanchett junto-se à atriz Rooney Mara e ao diretor Todd Raynes para apresentar o melodrama lesbian chic “Carol” que saiu de Cannes com o prêmio de Melhor Atriz para Mara (dividido com Emmanuelle Bercot) (Foto: Reprodução)

Nesse mesmo ano, ela arrasou no red carpet, envergando este longo Armani Privé (Foto: Divulgação)

Cate Blachett provavelmente nunca vai se esquecer da 67ª edição, em 2014, quando o “penetra profissional” e dublê de jornalista Vitalii Seduik, da Ucrânia, jogou-se sobre a atriz America Ferrera, sua colega de elenco, momentos antes da première de “Como treinar o seu dragão 2”. Seduik já tentou beijar Will Smith e agarrar Leonardo DiCaprio e Bradley Cooper em outros anos do festival (Foto: Reprodução)

Em 2008, há quase dez anos atrás, Cate Blanchett pisou no red carpet da 60ª edição do Festival de Cannes para a première de “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal” em que interpreta uma agente soviética pra lá de sádica. Entre esse blockbuster e “Carol” não só os filmes de Blanchett melhoraram, como também o seu bom-gosto se apurou (Foto: Reprodução)

Depois destas importantes participações, Cannes certamente não dará marcha à ré em relação à onda de ocupação feminina em posições-chave da grande indústria cinematográfica, principalmente com uma presidente do júri com o quilate de Cate Blanchett, um dos primeiros nomes a se engajar publicamente no pantanoso “caso Weinstein” de assédio e violência sexual que está agitando Hollywood desde outubro do ano passado.

 

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