Não se questiona a necessidade de se denunciar assédio sexual. Em Hollywood, no meio artístico, na esquina, em ejaculadas no transporte público. Mudar é preciso e a discussão que o Globo de Ouro desencadeou, dada a sua visibilidade e até seu desenrolar na noite do domingo no Fantástico“, é salutar. A questão é a caça às bruxas na net, uma espécie de Salém digital, de inquisição online à la Torquemada, o implacável frade dominicano que executou milhares de judeus e muçulmanos convertidos, considerado pelo cronista Sebastián de Olmedo como “O martelo dos hereges, a luz de Espanha, o salvador do seu país, a honra da sua ordem”. Bom, no frigir dos ovos, o inquisidor-geral também era de origem judaica, sefardita. Sim, a história já provou muitas vezes que nem sempre aquilo que parece é.

Ilustração revela uma das práticas de tortura do Padre Tomás de Torquemada (1420-1498), inquisidor-mor dos reinos de Castela e Aragão e confessor da Rainha Isabel. As acusações quase sempre em morte e confisco de bens. E, muito antes do showbizz e da internet, o clérigo já sabia estimular a audiência, dando ao povo “pão e circo” dignos de um Coliseu, em execuções públicas, O ápice foi o julgamento-espetáculo no qual as vítimas foram oito judeus acusados de praticar rituais satânicos de crucificação de crianças cristãs (Foto: Reprodução)

Desde quando o ex-poderoso produtor de cinema Harvey Weinstein foi denunciado em outubro por assédio e sua carreira foi para o brejo, e em seguida Kevin Spacey caiu em desgraça pelo mesmo motivo, assédio sexual virou moda, do tipo que rende ibope, audiência, pageviews, likes em posts nas mídias sociais. De lá para cá, não só aparecer ao lado de um ou de outro virou mico, como se tornou sucesso certeiro fazer piadinha, tanto nas apresentações de premiações quanto em rodinhas, às vezes tão levianas quanto o ato de assédio em si. Na internet então, nem se fala.

Harvey Weinstein representa a nova safra de judeus que foram parar na fogueira. A diferença é que, independente da ascendência, cultura e do credo – que pouco importam  -, esse aí tem culpa no cartório (Foto: Reprodução)

Okay, é essencial o mulherio do meio cinematográfico unir os sutiãs em apoio às inúmeras atrizes famosas que sofreram os abusos da cueca, mas, como toda moda desencadeia simulacros questionáveis, a lista de acusados, em Hollywood e em outros habitats profissionais, não para de crescer diariamente, e isso merece ser visto com cautela, até porque, se provados os interesses escusos de alguns, se esvazia a boa intenção de tentar suprimir práticas nefastas. Sim, se por um lado denunciar revela coragem, por outro pode também demonstrar uma boa dose de oportunismo.

E, todo mundo sabe, o oportunismo tem goela larga e não mede esforços, transformando uma ótima causa em outra nada nobre, sob os auspícios de supostas intenções suspeitas, disfarçadíssimas de uma questão premente. Exatamente como os espanhois ferozmente queimaram seus desafetos em fogueiras para tomar-lhe as riquezas durante o século 15, sob as bênçãos do Papa Sisto IV, e pelo mesmo motivo os puritanos imolaram acusados de prática de bruxaria duzentos anos mais tarde na Nova Inglaterra (hoje Massachusetts) na cidadezinha de Salém, cujo nome curiosamente vem da palavra árabe que significa “paz”.

Cartas marcadas: o desenho revela o quão foram atribulados os tribunais que julgavam supostos praticantes de bruxaria na Nova Inglaterra  do final do século 17. Os acusados, majoritariamente mulheres, quase sempre acabavam na forca. Na peça “As bruxas de Salém”, o dramaturgo Arthur Miller traça um inquietante panorama de como esses julgamentos se tornaram uma torrente de falsos testemunhos que traziam, no cerne, objetivos nada edificantes, amplificados pelo medo de uma sociedade manipulada. A obra foi escrita nos anos 1950 como uma resposta ao macartismo (Foto: Reprodução)

Que fique claro. O movimento Time’s Up (#timesup) é absolutamente necessário, genuíno, ainda que por trás dele resida uma certa dose de hipocrisia. Afinal, as investidas de Weinstein contra atrizes, algumas nem tão incautas assim, sempre fizeram parte do anedotário hollywoodiano, bem como comentários maldosos sobre o suposto fato de ele ser broxa. Aliás, a piada (de mau gosto) nas altas rodas cinematográficas muitas vezes se deu por aí: como um cara que não consegue dar no couro consegue usar o poderzinho para submeter tantas mulheres? Nunca existiu surpresa no eixo L.A.-N.Y. quanto ao comportamento do então tycoon das telas. Mas, essa não é a tônica desse artigo e é bom voltarmos ao ponto.

Por isso mesmo, diz tudo a gargalhada de Sharon Stone em resposta ao entrevistador do Sunday Morning Lee Cowan, seguida da frase “Eu estou nesse ramo há 40 anos, Lee. Você consegue imaginar como era o métier quando eu comecei?”. Detentora da cruzada de pernas mais famosa do cinema, a loura de 59 anos sabe das coisas. Durante décadas, segurar as pontas e rir era o máximo que se podia fazer, algo como o “relaxa e goza” da Marta Suplicy.

Sharon Stone posa ao lado do filho Roan Joseph Bronstein no Globo de Ouro. Atriz também assumiu o preto-luto para protestar contra o assédio sexual em Hollywood, mas usou tempero brazuca: ela vestiu Vitor Zerbinato (Foto: Divulgação)

Do Globo de Ouro para cá, a epidemia de acusações não para. Será que tudo procede? Após o vencedor do Globo de Ouro de ‘Melhor Ator em Comédia ou Musical’ James Franco (por Artista do Desastre“, que ÁS já viu e é ótimo) entrar novamente em evidência, a hoje obscura atriz Ally Sheedy acusou o colega de assédio, apesar de ele usar o lacinho preto do #timesup na cerimônia. Franco rebateu as acusações. E ficou no ar se Sheedy, que despontou em 1983 ao lado de Matthew Broderick pela aventura adolescente Jogos de Guerra e ficou famosa por participar, ao lado de  uma penca de astros e estrelas então emergentes, de clássicos teen como O primeiro ano do resto de nossas vidas(1985) e Clube dos Cinco (1985), não estaria aproveitando os holofotes sobre o ator-diretor para sair da berlinda.

Ao centro, James Franco celebra o prêmio no Globo de Ouro, uma noites antes de ser acusado de assédio sexual por Ally Sheedy… (Foto: Divulgação)

… que foi estrela adolesacente em meados dos anos oitenta para, a partir a década serguinte, declinar num semi-anonimato (Foto: Reprodução)

Aos 54 anos, Ally Sheedy comparece numa ponta em “X-Men: Apocalipse”: públjco mal percebeu a presença da ex-estrela teen (Foto: Divulgação)

Afinal, ao longo dos anos, o interesse do público por Ally Sheedy foi minguando: em 1992 ela já fazia somente uma ponta como uma vendedora de ingressos em Se esqueceram de mim 2: perdido em Nova York. De lá para cá, ela participou de 30 produções, quase todas sem repercussão, estrelando somente seis delas, longas sem relevância, sendo que seu último papel foi o da professora do super-herói mutante Cíclope numa rápida aparição no blockbuster X-Men Apocalipse“, lançado há quase dois anos.

E isso, óbvio, leva à pergunta: até que ponto a moça não estaria revestindo uma simples azaração com a capa do assédio, como andaram alertando Catherine Deneuve e Danuza Leão em seus recentes artigos, tão mal-interpretadas? Não se sabe ao certo, mas que a declaração de Sheedy pode lhe render umas boas entrevistas naqueles matutinos televisivos que precisam vasculhar o tema para garantir a audiência, sem terem cacife para entrevistar diretamente Franco, ora se podem.

No final de semana, o badalado fotógrafo de moda e celebridades Mario Testino foi acusado de assédio pelos modelos masculinos Ryan Locke e Jason Fedele. Segundo matéria publicada no The New York Times“, o segundo afirma que não haveria como avançar na carreira sem sentar no sofá com Testino. Se for verdade, o peruano é mesmo do peru.

Da esquerda para a direita: Mario Testino, Ryan Locke e Jason Fedele, envolvidos em celeuma que promete varrer a prática de assédio sexual também do mundo da moda (Fotos: Reprodução)

Bons tempos: em clima “Despacito”, Testino sacode o esqueleto em ensaio para a Vogue que promovia o VMA ao lado de Gisele e um punhado de bonitões.O fotógrafo foi expoente do mundo da moda por mais de 20 anos e agora corre o risco de ficar para escanteio como aconteceu com John Galliano (Foto: Reprodução)

Assim como dizem que outro bamba da lentes, Bruce Weber, que fez fama com as campanha de underwear da Calvin Klein nos anos 1980/90, é do babado. Com várias acusações de assédio nas costas – inclusive 15 mencionadas na mesma na mesma reportagem do TNYT –, digamos que, de longa data, Bruce é famoso por querer ver os rapazes de bruço. Histórias a seu respeito pululam no mundinho da moda desde priscas eras e possivelmente fazem sentido, sim. Relatos sobre Testino e Weber sempre circularam no meio, assim como os de Weinstein.

Estilo The Week: com visual “on the road”, Weber posa ao lado de um grupo de tops descamisados. Rumores sobre seu comportamento de rapina sobre os bonitões nunca foram novidade na cena fashion. Acontece que o mundo anda ficando bem mais politicamente correto. Pior, as plataformas online ajudam a disseminar informações, para o bem e para o mal, como nunca antes possível… (Foto: Reprodução)

A prática precisa ser banida, cerceada, combatida? Claro. São quase crônicas de fogo e gelo da vida real: da mesma forma que Weinstein foi fritado no universo cinematográfico, forçado a se demitir da sua própria empresa, a semana começou com a notícia circulando na internet: a editrix Anna Wintour, da Vogue, informou que os dois ases das lentes foram parar na geladeira ao menos temporariamente, da mesma forma que Kevin Spacey perdeu o emprego na NetFlix após ser acusado de assédio pelo tal ator de Star Trek: Discovery.

“Na Condé Nast decidimos colocar a nossa relação de trabalho com os dois fotógrafos em pausa num futuro próximo”, declarou tangencialmente a poderosa diretora criativa da editora que publica outros títulos bacanudos além da Vogue, como GQ e Vanity Fair.

Fada-Madrinha de sunglasses: Wintour teve papel decisivo na consagração de Testino como profissional de ponta na indústria da moda. Agora, não restou outra posição a não ser publicamente se afastar (Foto: Reprodução)

Ainda assim, que fique claro: nem sempre a vítima necessariamente é vítima. Já vi casos de castings de modelos em que os diretores de elenco, cuja ética ou interesses não permitiriam se envolverem nesse tipo de dispositivo, perceberem modelos – homens e mulheres – se insinuando para tentarem pegar o trabalho com avançadíssimas técnicas sutis que incluíam de projeções de decotes avantajados para destacar os seios a coçadas na virilha, passando por autoapalpadas em calças skinnys justérrimas. Nesse caso, a vítima do assédio não seria o responsável pela escalação de talentos?

Necessariamente, o delito não precisa ser praticado por quem está no topo da carne seca, com o poder de definir quem ingressa num job, mas pode ser uma prática consentida, e  até deflagrada, por quem pretende um lugar ao sol. Que fique claro: nesse inescrupuloso jogo, há quem prefira, do outro lado, amealhar um trabalhito à custa desse tipo de expediente, seja na moda ou na Sétima Arte. Ninguém é santo.

Sem dúvida, é preciso ter cuidado: não sair metralhando sem propriedade todos indiscriminadamente por aí, como Bonnie & Clyde digitais. Depois do seu belo discurso na premiação, tentaram calcinar Oprah Winfrey na net disseminando fotos suas ao lado de Harvey Weinstein, obviamente tiradas muito antes moço entrar na fogueira, exatamente como no pós-Guerra os franceses queimavam o filme de Coco Chanel por ela ter se relacionado com nazistas durante a ocupação. Bom, é natural que Oprah, na sua função de papisa-mor das entrevistas, e circulando no mesmo reduto, desfrutasse do contato direto com um poderoso produtor, não é mesmo? E daí??? Isso desmerece sua posição atual? Não. Mas mostra que todo mundo rema conforme a maré.

Antes do temporal: numa celebração, Wrinfrey faz um chamego num Harvey que todo mundo conhecia, mas não ousava expor. Essa imagem foi usada para denegrir a postura da apresentadora na internet, pós-Globo de Ouro, mas não teve a repercussão pretendida. Entretanto, serve para mostrar o quanto os relacionamentos são voláteis na atual ribalta dos famosos, naquilo que o pensador Zygmunt Bauman chamou de relações líquidas (Foto: Reprodução)

Ainda nessa linha, circularam também nos últimos dias reportagens com relatos de assédio sobre Stan Lee – ele mesmo, o criador da Marvel, Homem-Aranha, Homem de Ferro, Incrível Hulk, Thor, X-Men, Quarteto Fantástico e uma penca de super-heróis quase tão poderosos quanto um dia já foram Weinstein, Testino e Weber. A empresa que o acusou era responsável por lhe fornecer cuidadoras e as antigas enfermeiras acusaram o bom velhinho dos gibis de bolinar as moças, apalpá-las, de obrigá-las a fazer sexo oral, o diabo. Tudo enquanto tomava banho, segundo o “Daily Mail“.

Lee, 95 anos completados em 28 de dezembro e viúvo desde de julho de sua esposa da vida inteira Joan, deve mesmo ter poderes secretos para submeter as meninas a tal constrangimento dentro de sua mansão hollywoodiana. Algo tipo um evoluidíssimo cérebro hipnotizador mutante capaz de convencer pobres mortais a fazerem o que não querem. Ou, quem sabe, pode expelir uma gosma radioativa colante que envolve suas supostas vítimas numa inexpugnável teia de prazeres carnais da terceira idade. Vovô-Aranha? Super Benga? Velho Logan? Superman senil de Itu? Felizmente, a atual fornecedora de cuidados geriátricos a Stan Lee se antecipou logo, negando as acusações, dizendo que o mega ultra blaster vovô é um docinho, o que, diante do ridículo da situação, leva a crer que a empresa demitida pode estar querendo aproveitar o badalo para arrancar uma nota preta do tiozinho por ter sido dispensada, não é mesmo?

Superman e Mulher-Maravilha: casal supremo do mundo dos quadrinhos na vida real, Stan Lee – ou Stanley Martin Lieber (1922) – e sua esposa Joan foram casados por 69 anos (Foto: Reprodução)

Mesma coisa com a atriz Rebecca Hall que, para ficar bem na fita, resolveu doar para o Time’s Up o cachê pelo filme que acabou de fazer para Woody Allen, o ainda inédito Rainy Day in New York. A iniciativa é louvável, mas a questão sobre o suposto assédio, nos anos 1990, do diretor à prole de crianças adotada por ele e sua ex-esposa Mia Farrow – razão da doação – nunca foi provado e acusá-lo publicamente sem certeza não é outro crime, o de difamação?

Nos últimos 20 anos, nada jamais ficou claro e as autoridades americanas afirmam que o assunto é incerto, já que envolve o fim de um casamento com o orgulho ferido de uma das partes. A filha do ex-casal Dylan Farrow acusa o pai de ter abusado dela quanto tinha somente sete anos; seu irmão Ronan a apoia, mas o outro Moses crê na inocência de Woody e alega que Mia manipulou os filhos para terem ódio paterrno. Tudo é nebuloso, tanto que até hoje Allen está aí fazendo o seu ganha-pão, sem que haja nenhuma acusação formal contra ele.

Não acabou em flores: em 2008, Woody Allen catapultou a carreira de Rebecca Hall com “Vicky Cristina Barcelona” numa produção em que a atriz, então com apenas dois filmes no currículo, contracenava com Scarlett Johansson, Javier Bardem e Penélope Cruz. Agora, após a segunda colaboração com o cineasta, a estrela renega a frutífera associação artística com medo de ser criticada pela turma xiita das mídias digitais. Alegou princípios morais… (Foto: Divulgação)

Assim, será que Rebecca não se precipitou? Afinal, o imbloglio Woody-Mia já era café requentadíssimo quando a moça coestrelou Vicky Cristina Barcelona em 2008 e mais ainda agora quando participou do último filme de Allen. Se ela achava inadmissível colaborar em uma produção de um diretor supostamente acusado de assédio, por que não recusou o convite antes? Porque ainda não haviam posto Weinstein na grelha e o assédio não estava na ordem do dia? Quer dizer então que seu senso moral se apurou com o Time’s Up? Me  poupe.

Em carta ao jornal Libération publicada há dois dias, Catherine Deneuve acabou de dar uma ligeira retrocedida em relação ao tal manifesto publicado por 100 mulheres francesas no Le Monde, logo após o Globo de Ouro, no qual elas acham que a campanha americana foi longe demais e alertam para o perigo de transformar a caça ao assédio em repulsa à cantada. “Nós defendemos a liberdade de importunar, indispensável à liberdade sexual”, diz o título da carta.  Elas observam a possibilidade se confundir assédio com flerte, se referindo a barulheira toda como um “novo puritanismo” que pode estar a serviço de uma direita ultra-conservadora, sem que as pessoas se dêem conta.

Durante a turnê de divulgação do filme “Asterix e Obélix: a serviço de sua majestade” (2012), Deneuve recebe um cheiro do colega de elenco Gérard Depardideu. Será assédio? (Foto: Divulgação)

Essa também foi a tônica de Danuza Leão, esquartejada nas mídias sociais por sua coluna de O Globo, quando questionou os limites para algo ser considerado assédio e, brincando, fez um jogo de palavras, talvez inadequado para o momento, mas pertinente ao encadeamento de suas ideias: “Acho que toda mulher deveria ser assediada pelo menos três vezes por semana para ser feliz. Viva os homens.”

Danuza Leão: vindo de uma outra geração e vividíssma, a colunista de O Globo é daquelas que se regojizam com a aproximação de um gato, sem misturar as estações. A jornalista foi massacrada nas redes sociais sem que houvesse sequer a preocupação de tentar entender o que ela quis realmente dizer em sua declaração acerca do assédio (Foto: Reprodução)

A saraivada de balas com que ambas foram fulminadas na web equivaleu àquela que a exposição censurada Queer Museum sofreu após as denúncias de que supostamente seria pornográfica e “uma afronta à família brasileira”. Da mesma forma que muitos embarcaram na onda do MBL sem conhecerem o conteúdo da mostra, um outro tanto pegou a frase da escritora brasileira fora do contexto para agredi-la como um judas na cruz, sem que tivessem lido sequer o início do seu texto: “O que não está claro para mim é o conceito de assédio. É uma paquera? Avanços sexuais entre homens e mulheres começam sempre de um lado. Às vezes, o outro lado não quer, e isso é normal. Como definir?”

Sim, é maravilhoso exercer a liberdade de expressão, mas, ao que tudo indica, é crucial se prevenir com o macarthismo online. Até porque, além do mais, não faz o menor sentido aplaudir a iniciativa do Time’s Up sem crer na livre expressão, sem democraticamente respeitar a opinião alheia, qualquer que seja ela. Impor opiniões é tão opressor quanto condicionar um trabalho ao teste do sofá.

Aliás, o que é isso, afinal? Um mundo cada vez mais incoerente? O mesmo Globo de Ouro que exibiu estrelas em modelitos negros de protesto é aquele que premiou a distopia futurista Handmaid’s Tale“, que lida tanto com a questão a exploração feminina quanto a do cerceamento de opiniões, da falência do estado laico, do fundamentalismo carola no poder, correto?

Comboio de parideiras: “Handmaid’s Tale” (no Brasil, “O conto da aia”) é ficção televisiva baseada no livro de Margaret Atwood que apresenta distopia futurista na qual uma nação situada onde antes foi os Estados Unidos tenta se reerguer sob as rédeas de um governo fundamentalista religioso que cerceia a livre-expressão e submete as mulheres que ainda são capazes de gestar filhos – numa sociedade na qual a maioria é estéril – ao reles papel de barrigas para engravidar (Foto: Divulgação)

E que homenageou Kirk Douglas, o astro que se insurgiu contra a caça às bruxas comunistas, peitando o FBI ao convidar o escritor Dalton Trumbo, então no limbo por suas posições políticas, para assinar o roteiro de Spartacus. Então é isso! A vibe é premiar como ‘Melhor Série Dramática” um libelo contra a liberdade de expressão e os direitos individuais, mas patrulhar na rede, como um Grande Irmão, quem tem opinião supostamente contrária à sua? Celebrar aquele que se levantou contra a caça às bruxas na Velha Hollywood, mas assumir a postura de um Torquemada eletrônico de uma Salém online. Que lindo…

Douglas e nora Catherine Zeta-Jones no Globo de Ouro: aos 101 anos, o último grande astro vivo da Era de Ouro é reverenciado por sua corajosa postura contra a caça às bruxas no macartismo. Ele foi homenageado ao mesmo tempo que em que se emulava, nas mídias sociais, a perseguição generalizada de outrora, sem que houvessem necessariamente critérios ou certezas, mas muitas vezes apenas achismos imprecisos (Foto: Divulgação)

Em 1960, Kirk Douglas bradou também a espada do gladiador Spartacus, no clássico homônimo ide Stanlçey Kubrick produzido pelo astro, contra o “fundamentalismo de direita” que dominou o governo dos EUA no pós-Guerra. Nos anos 1940/50, a caça às bruxas se fazia valer da histeria anticomunista e destruiu injustamente a carreira de muitos talentos da época, às vezes até acusados sem propriedade ou comprovação de convicções anticapitalistas (Foto: Reprodução)

Em tempo, antes que algum apressadinho resolva dizer qualquer asneira: sou gay e, por isso mesmo, sofri bullying desde a tenra idade, conheço perfeitamente na pele a diferença entre uma cantada e assédio…

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