Não  é a primeira vez que o caráter transformador do sol da Itália comparece nas telas. O público já esteve fascinado antes por esse aspecto da bota em narrativas passadas no norte desse país, como Beleza Roubada(1996), Sob o sol da Toscana (2003) e Uma janela para o amor(1985), de James Ivory, responsável por elegantes produções de época e que assina o roteiro de Me chame pelos seu nome” (Call by your name”, de Luca Guadagnino, 2017). Novidade aqui é outra: a plateia mundo afora anda saindo extasiada das salas de projeção, encantada com esse sensível e solar romance gay, tanto no circuito comercial quanto em festivais tipo Sundance, Berlim e Toronto (leia mais aqui).

Sutileza explícita: “Me chame pelos seu nome” esbanja delicadeza sem jogos metafóricos, sem desperdiçar palavras e sem a obviedade de querer explicar verbalmente o que se passa na cabeça do casal protagonista. O público vê, percebe as intenções através da atuação sublime dos atores e saca tudo, sem meias-palavras. E é aí que o filme ganha: na empatia que a plateia estabelece com o drama do casal, independente da orientação sexual (Foto: Divulgação)

Agora em cartaz no Brasil, o drama que revela a delicada relação que se forma entre o acadêmico norte-americano Oliver (Armie Hammer), 28 anos, que aterrissa de mala e cuia na casa de verão de um casal de intelectuais que todo ano recebe estudantes, e o filho adolescente deles Elio (Timothée Chalamet, soberbo) é tão contundente quanto a própria constatação de amor misturado à descoberta da homossexualidade, que aflora aos poucos no garoto de 17 anos sob cujo ponto de vista a história é narrada.

Jogos de olhares: em tempos quando a paquera é confundida com assédio sexual, “Me chame pelos seu nome”  é oportuno ao lidar com o flerte de maneira esplêndida, sem dar margem para conotações que denigram a beleza dos sentimentos aflorados. Ainda assim, a pudica e hipócrita Hollywood andou se queixando: astros como James Woods andaram se revoltando contra a produção. Com um detalhe: Woods é conhecido por sair com mulheres bem mais jovens, inclusive uma garota de 19 anos! (Foto: Divulgação)

Tão belo quando o pré-adolescente Tadzio (Björn Andrésen), que praticamente inaugurou os anos 1970 com “Morte em Veneza” (1971), o Elio vivido por Timothée Chalamet é a melhor surpresa de “Me chame pelos seu nome”. Sua presença, amplificada pela sensualidade das cenas e a captação do dolce far niente italiano, pode render ao filme o passe livre para a posteridade,  como de outra forma aconteceu com o clássico de Luchino Visconti. A atuação do novaiorquino filho de francês é esplêndida e revela a mistura de susto e encanto da cabeça de um jovem que descobre sua orientação sexual ao mesmo tempo que o amor (Foto: Divulgação)

Azul é a cor mais bela: a cadência dos passeios de bicicleta pela cidadezinha da Lombardia ou de trilha nos bosques ao seu redor vem impregnada daquela atmosfera idílica que a Itália costuma causar em personagens fílmicos e literários. Terracotas e ocres, combinados com o azul do céu e em certos pontos das cenas, se encarregam de reforçar nas imagens a sensação de alma lavada que se imagina atrelada à uma viagem ao país. Esse detalhe estético contribui intensamente para a construção de uma narrativa onde nada é supérfluo (Foto: Divulgação)

Inebriante, a mescla da fotografia classuda com a direção de arte – que estabelece o filme em 1983 com requinte de penteados e recriação do figurino casual oversized que se espalhou pelo mundo à época – serve apenas como moldura para mostrar com sutileza primeiro o espanto e depois o conflito interior com que aos poucos o rapaz vai tomando acerca de si próprio para, em seguida, desaguar no desejo incontido de estar presente ao lado daquele que se torna o objeto do seu amor.

Reprodução de uma década: os early eighties, ainda com aroma setentinha, estão presentes em “Me chame pelo seu nome”, do figurino à coleção de automóveis que aparece como pano de fundo em inúmeras sequências. Bom, e também através do hábito indiscriminado de fumar: ambientada num período anterior à febre do “politicamante correto”, quando os cigarros povoavam tanto as narrativas publicitárias quanto cinematográficas, as baforadas são quase um coadjuvante que colabora na reprodução de daquele momento (Foto: Divulgação)

Além de suas qualidades narrativas, esse longa baseado no livro homônimo de André Aciman traz no cerne a suavidade ao lidar com o amor entre iguais com naturalidade. Essa talvez seja seu ponto forte: revelar ao público uma questão que se tornou bandeira de comportamento nas últimas décadas, sem fazer uso dela, apenas tratando tudo com simplicidade, sem alarde, da mesma forma com que lidaria com a descoberta da paixão numa relação heteroafetiva.

Conexão ampla: músico habilidoso e leitor inveterado, o adolescente trilingue interpretado por Timothée Chalamet é um achado. Agrada em cheio tanto a Geração Z que se identifica aspectos primordiais do caráter humano quanto as anteriores, que podem enxergar neles valores que não costumam necessariamente encontrar, pelo menos à primeira vista, na tenra idade (Foto: Divulgação)

Singelo pode ser o adjetivo que sintetiza a apurada sensibilidade do diretor nessa trama que se passa numa era em que esses assuntos eram muito mais espinhosos, apesar de a Revolução Sexual então já correr solta há quase 20 anos: o inícios dos anos oitenta new wave, pós-Stonewall mas pré-aids, quando a cultura queer ainda se encontrava em guetos, no bafão, sequer sonhando chegar ao mainstream. Oposto de hoje, quando see espalhou por todo cotidiano, como uma poderosa catapulta do consumo, através do pink money, de incessantes personagens homossexuais de novela, produções cinematográficas sob o rótulo do gênero “filme gay” e do culto à homoafetividade que parece tomar conta do meio artístico. Num país como o Brasil, onde se assassinam gays, lésbicas e trans em escala espantosa, a delicadeza de “Me chame pelo seu nome” é essencial.

Confira abaixo o trailer oficial legendado (Divulgação): 

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