São tempos de empoderamento feminino dentro e fora das telas. A Mulher-Maravilha foi o sucesso do último verão lá de cima. Cate Blanchett presidiu o júri do Festival de Cannes mês passado e houve protestos na Croisette com elas chamando atenção para a presença desproporcional das mulheres na premiação. Nos tabloides, a ex-atriz Meghan Markle promete ocupar na dinastia real britânica o papel de proa que já foi da sogra que ela nunca irá conhecer, Lady Di. Enquanto o mundo se rende aos alardes da questão do assédio e uma nova era possivelmente vacinada contra esse tipo de prática se desenha, na televisão Robin Wright acaba de gravar as últimas cenas derradeira temporada de House of Cards” como a agora protagonista absoluta Claire Underwood, após Kevin Spacey ter sido defenestrado da série pelo mau comportamento na vida, enquanto o público já confere no Netflix a nova versão de Perdidos no Espaço na qual dessa vez a chefe da família na aventura galáctica é a mãe Maureen (Molly Parker) numa adaptação que ainda traz um Doutor Smith de saias (Parker Posey). Valorizar elas está na moda e eles andam ganhando uma dinheirama com isso em Hollywood. Por isso, é mais que oportuna a estreia nesta quinta-feira nos cinemas de Oito mulheres e um segredo” (Ocean’s Eight, de Gary Ross, Warner Bros., 2018), essa deliciosa aventura estrelada por Sandra Bullock (Deb Ocean) que dá sequência à  trilogia que narra as peripécias do vigarista de luxo Danny Ocean (George Clooney nos filmes dirigidos por Steven Soderbergh na década passada, Frank Sinatra no original).

Foto: Divulgação

Mescla de woman picture com fashion movie, essa produção com estrutura clássica do subgênero “filme de assalto” – que fez sucesso nos anos 1960/70 estrelado por astros como Michael Caine e Steve McQueen – acerta ao glamourizar a pilantragem, e nada melhor que ambientar os planos para um fabuloso roubo de um colar trilhardário da Cartier em meio à fogueira de vaidades do mundinho da moda. No caso, o MetGala, aquele baile posudo e exclusivérrimo no qual as celebridades confundem o red carpet com a Sapucaí. Para aproximar a narrativa da vida real, o longa traz em uma ou outra cena aqui e acolá a pinta da papisa da Vogue América Anna Wintour, que de fato organiza essa noite anual, mais um punhado de gente famosa fazendo a si próprios em pontas, como Katie Holmes e o estilista Alexander Wang.

Oito mulheres, um roteiro inspirado, uma ação ágil, visual fashion e a atmosfera classuda dos filmes de assalto típicos dos anos 1960: “Oito mulheres e um segredo” traz a receita adequada para encantar o público em tempos de empoderamento feminino no topo, divertindo sem ser planfletário (Foto: Divulgação)

Confira abaixo o trailer legendado (Divulgação):  

Antes que algum xiíta das redes sociais se adiante dizendo que “Oito mulheres e um segredo” é apologia ao crime, vale lembrar que se trata de uma comédia politicamente incorreta que beira a farsa, brincando nas entrelinhas com questões femininas como a afirmação da mulher, sobre conciliar a carreira e a vida familiar, fazer sucesso num ambiente profissional hostil, se entregar ao amor sem cair numa cilada, ter que envergar o manto da fútil e descerebrada no trabalho para sobreviver como persona pública e até mesmo sobre como ser espetacular sem fazer parte do padrão midiático clássico que quer transformar todas em Barbies Malibus, sem que necessariamente se tenha o physique du rôle para tal. Sim, é duro ser mulher. De certa forma, “Oito mulheres e um segredo” é o “Sex and the City” da contravenção no qual todos os homens fazem papel de otários.

Sandra Bullock e Cate Blanchett encabeçam o elenco de ladras de joias de “Oito mulheres e um segredo” que mostra que crime mesmo seria não juntar as oito estrelas numa produção. A narrativa sugere, de leve, que pode até ter rolado um babado entre as duas… (Foto: Divulgação)

Por isso, ÁS bate palmas para o diretor Gary Ross (de Jogos Vorazes“), que soube manter o pulso numa produção cínica que se assemelha nessa ótica a O Diabo veste Prada” (2006), com a ótima sequência de Deb Ocean aplicando ininterruptamente pequenos golpes de consumo nas department stores e hoteis da Quinta Avenida da  mesma forma que Miranda Priestly (Meryl Streep) joga as bolsas e casacos em looping sobre sua secretária.

A moda da diversidade: a pluralidade de tipos de “Oito mulheres e um segredo” vai ao encontro da atual onda das artes de ser pluralista, em acordância com as vozes das mídias sociais (Foto: Divulgação)

Prestes a completar 54 anos, Sandra Anette Bullock está naquela fase de mulher madura pós-oscarizada que ou se mantém em forma ou desaparece aos poucos de cena numa Hollywood machista que sepulta com frequência mais as estrelas que os astros quando a pele começa a perder colágeno. Desde que ganhou o Oscar de ‘Melhor Atriz’ em 2010 por Um sonho possível“, essa ótima atriz fez somente dois ou três filmes significativos, entre eles a comédia As bem-armadas(2013) e Gravidade (2013), pelo qual novamente concorreu ao Oscar, sendo relegada nos últimos tempos a trabalhos menores como narradora de curta-metragem e voz de vilã em desenho animado. Agora, ela dá a volta por cima e está genial. Empoderamento também é isso!

Oscarizada em 2010 e candidata ao prêmio máximo de Hollywood em 2014, Sandra Bullock volta às telas em grande estilo na produção dirigida por Gary Ross num papel que lhe possibilita um perfeito timing cômico (Foto: Divulgação)

No all-star cast, Cate Blanchett continua magnética, Anne Hathaway está formidável fazendo uma starlet burrinha e fútil, Sarah Paulson brilha como a pilantra dividida entre a adrenalina do crime e o desejo de ter uma vida normal de mãe & esposa e Helena Bonham Carter mais uma vez interpreta a ex-mulher de Tim Burton. E Rihanna brilha como a hacker meio lazy nasty girl num papel que revela o quanto pode funcionar no cinema. Pena que ela está inchada, e isso chama mais atenção que sua inspirada atuação. Tipo uma Judy Garland no final, acaba sobressaindo muito o esforço que os produtores tiveram para disfarçar a questão no figurino e na make, possivelmente diante das exigências contratuais que regem a participação de pop stars nesse tipo de empreitada.

Ao contrário de Beyoncé, que costumava interpretar ela mesma no cinema, em suas empreitadas nas telas,  a pop star Rihanna tem muito mais recursos enquanto atriz e até pode, quem sabe, percorrer o caminho nas telas trilhado por Queen Latifah (Foto: Divulgação)

Mas, na contramão da presença de todas essas estrelas de primeiríssimo calibre no showbizz, merecem reverência dois rostinhos quase desconhecidos, justo as duas componentes do timaço de ladras que fogem do padrão: como uma diamantária que avalia joias e uma gatuna trambiqueira de dedos levíssimos, Mindy Kaling e Awkwafina roubam cada cena em que aparecem. Isso é que é woman power!

Filé mignon: A pequenina Awkwafina não é larápia só na personagem. A atriz, que iniciou a carreira em 2013, rouba cada cena em que aparece! (Foto: Divulgação)

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