Alvo de batalhas judiciais desde a virada dos anos 1940, quem diria, o Capitão Marvel (agora rebatizado de Shazam) acabou virando o talismã da Warner Bros./DC Comics para consolidar sua presença no lucrativo filão dos filmes de super-heroi. Depois dos sucessos Mulher-Maravilha (2017) e Aquaman (2018), agora é a vez do mortal mais poderoso da Terra provar que há mais coisa entre a terra e o céu dos blockbusters do que supõe a vã filosofia daqueles que se acostumaram a ver  na telona somente versões de Batman e Superman. “Shazam!(idem, 2019) é Sessão da Tarde da melhor cepa, do tipo que envolve o público e diverte crianças de todas as idades, perfeitinha para reinserir o universo da editora de quadrinhos nos trinques das produções live action.

Boa parte do bom resultado de “Shazam!” pode ser creditado a Zachary Levi, cujo carisma é fundamental para conferir credibilidade ao garoto que se torna o adulto mais poderoso do planeta ao proferir uma palavra mágica (Foto: Divulgação)

“Shazam!” (Foto: Divulgação)

Despretensiosa  – ou procurando parecer, se considerarmos que somente o uniforme do personagem custou mais de milhão de dólares e, como foram produzidas 10 unidades, só esse figurino torrou a baba de mais de dez milhões –, a produção brinca de não se levar a sério, cheia de metalinguagem. Tipo “Deadpool“, só que nada escatológica. Bem produzida, com um roteiro bem amarradinho, ela afasta de vez a DC da ambiência sombria da gestão do diretor e produtor Zack Snyder, obcecado por imprimir realidade num gênero que essencialmente é escapista, desde quando levou para o cinema “Watchmen” (2009).

Criação seminal  que redefiniu nos anos 1980 a abordagem nas narrativas de super-herois nos gibis, “Watchmen” foi reproduzido com fidelidade no cinema. As poucas modificações em relação à história original ficaram melhores no live action que no traço de Dave Gibbons e no roteiro de Alan Moore, seus autores (Foto: Divulgação)

Tudo bem, essa graphic novel partia de uma visão pessimista de como seria o mundo se houvesse de fato os super-herois, e o diretor-produtor fez um belo trabalho de adaptação cinematográfica para uma narrativa dificílima, que levou 25 anos para chegar às salas de exibição. Mas, acreditar que todo o universo fantasioso da DC pudesse ser tratado com essa dose de verdade é tão inverossímel quanto crer que o pré-adolescente Billy Batson (Asher Angel) possa se transformar num adulto super poderoso somente entoando a palavra mágica “Shazam!”.

Ator mirim da Disney na série de tv “Andi Mack” (2017-2019), Asher Angel interpreta o alter ego de Shazam na produção dirigida por Adam F. Sandberg (Foto: Divulgação)

Teen em ascensão no volátil mundinho das celebridades, Asher Angel posa com frequência para editoriais de moda e campanhas (Foto: Divulgação)

No red carpet de “Shazam!”, no último final de semana, Asher Angel abusou do terninho fashion. Na pauta, o brilho do cetim e borboletas (Foto: Divulgação)

Essa premissa é o ponto de partida para o diretor Adam F. Sandberg, em apenas seu terceiro longa-metragem e após dois filmes de terror, fazer a festa. Nessas duas horas e doze minutos de projeção colorida, alegre e comprometida com o bom-humor, ele pinta e borda mostrando que é justamente o personagem que foi desde 1941, apenas dois anos após sua criação, alvo de disputas no tribunal por ser considerado um plágio do Superman, quem deve reabilitar este nas telas.

É guerra! No desenho animado, Shazam e Superman reproduzem na ficção aquilo que aconteceu na vida: a eterna batalha de poder entre duas criações dos gibis (Foto: Divulgação)

Uma façanha e tanto, sobretudo quando se constata que Shazam (inicialmente somente a palavra mágica que concedia poderes fabulosos a um Billy convertido em Capitão Marvel) precisou se tornar o nome do herói, a partir de 2011, porque outra disputa judicial acabou garantindo à Marvel o uso do nome para uma outra personagem, Capitã Marvel (2019), cuja estreia no cinema acabou de acontecer somente há um mês.

Ultimate fight de Marvels: a capitã da Marvel Studios e o capitão da DC: até agora, no cinema, ela garantiu o direito de usar o nome usado como alcunha para ele, em 1939, a partir de Captain Marvelous, Capitão Maravilhoso em tradução literal (Foto: Divulgação)

A isso soma-se o fato de que o processo por plágio durou doze anos e, em 1953, a DC (então National) fez a concorrente Fawcett Comics tirar de cena o Capitão Marvel. Ele só voltaria a aparecer nos anos 1970, após amargar quase 20 anos de limbo, quando a primeira licenciou o personagem da segunda e o incorporou ao seu panteão de paladinos da justiça.

Tremendo sucesso editorial na virada dos wartimes, Shazam despertou a inveja de editoras como a National, detentora dos direitos de Superman, Batman, Mulher-Maravilha e do Flash (Foto: Reprodução)

Shazam foi o primeiro super-heroi a chegar ao cinema, em 1941, na pele de Tom Tyler na série “As Aventuras do Capitão Marvel” (Foto: Reprodução)

Sim, Shazam não resiste apenas às investidas dos seus vilões clássicos, Dr. Silvana (Mark Strong no filme) ou Adão Negro (Dwayne Johnson, numa produção que está por vir), mas também a todos esses imbróglios que o afastaram de circulação tantas vezes. É duro na queda.

A química entre Zachary Levi e Jack Dylan Grazer (“It! A Coisa”) é vital na consagração de”Shazam”, como um ótimo longa de super-heroi. A realização teve cotação de 8.2 no site que reúne as críticas jornalísticas (Foto: Divulgação)

Confira abaixo o trailer oficial legendado (Divulgação)

A explicação para a sobrevivência de Shazam nos quadrinhos é simples. E sua eficiência na telona se dá exatamente porque Sandberg respeitou isso de cabo a rabo: quando o garoto Billy entoa a palavra mágica e, ao ser atingido por um raio, se transforma no campeão adulto favorito de seis entidades mitológicas, ele faz a plateia imergir na sensação que todo mundo conhece, passou ou passa: o desejo da criança crescer. Essa pulsão, tão essencial ao processo de maturação do ser humano e tão bem aproveitada na trajetória do heroi, é o segredinho para sua longevidade na cultura pop e para o seu acerto agora na empreitada de carne e osso, apesar do seu turbulento percurso nesses 80 anos.

Poderoso como um raio: Na mitologia da DC Comics, Shazam se insere no arquétipo da magia, um dos pilares que norteia a direção criativa da editora. Ele é detentor do poder de Shazam, que extrai os dons de Salomão (sabedoria); de Hércules (força); de Atlas (vigor); de Zeus (poder); de Aquiles (coragem); e de Mercúrio (velocidade) (Foto: Reprodução)

Zachary Levi, a nova cara de Shazam! 

Durante o processo de filmagem de “Shazam”, Zachary Levi, que já havia atuado como Fandral nos dois últimos filmes de Thor, da Marvel, foi trucidado por haters, que não enxergavam nele o biotipo necessário para incorporar o papel (Foto: Divulgação)

Quando foi concebido pelo artista visual C.C.Beck, o Capitão Marvel teve como matriz o ator hollywoodiano Fred MacMurray, de clássicos como “Pacto de Sangue” e “Se o meu apartamento falasse”.Beck desenharia o personagem até os anos´1970 (Foto: Reprodução)

Nos anos 1970, “Shazam” foi série de tc que durou três temporadas (1974-1977), numa produção de baixo orçamento que fez sucesso inclusive no Brasil. Os rostinhos da vez para dar vida a Billy Batson e ao Capitão Marvel foram, respectivamente, Michael Gray e Jackson Bostwick (Foto: Divulgação)

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