* Por Flávio Di Cola, direto de Cannes

Latina, feminina e segura: assim pode ser rotulada a septuagésima edição do Festival de Cannes que disputa com o Festival de Veneza o título de mais antiga mostra cinematográfica do mundo, embora o evento francês tenha superado seu congênere italiano em grandeza há muitas décadas. Grandeza porque Cannes não se restringe à Seleção Oficial de duas dezenas de longas-metragens que disputam a cada ano a Palma de Ouro no contexto da Seleção Oficial Principal (leia mais aqui). A maior festa do audiovisual do planeta é na verdade uma constelação de várias outras mostras paralelas que contemplam quase todas as vertentes criadoras do cinema.

O Festival de Cannes já é um septuagenário, mas continua esbanjando saúde. Nesta civilização imagética em que estamos mergulhados, Cannes é a esquina em que o mundo inteiro se encontra para celebrar a imagem (Foto: Flávio Di Cola)

Após 70 anos de existência, é natural que o Festival de Cannes tenha criado muitos rituais, como o do desenrolar do tapete vermelho de acesso ao Grande Teatro Lumière na tarde que antecede a cerimônia de abertura. Esse trabalho aparentemente prosaico, transmitido ao vivo pela televisão francesa, é o indício mais emblemático de que o evento vai mesmo acontecer (Foto: Flávio Di Cola)

Mas isso ainda não é tudo: durante 12 dias a faixa mais nobre e sofisticada da Riviera Francesa também se transforma num gigantesco entreposto de troca de produtos fílmicos acabados, em processo de produção ou que apenas existem numa folha de papel à procura de um sponsor. Esse mundo em que só se fala de negócios tem um nome: Marché du Film. Nele vem se destacando já há alguns anos os produtos chineses, coreanos, indianos e do Leste europeu, além – é claro – os artefatos norte-americanos, leia-se made in Hollywood, que encontram por aqui a melhor vitrine para garantir a continuidade de sua hegemonia internacional.

A Mestre de Cerimônia Monica Bellucci posa ao lado dos jurados mais célebres da Seleção Oficial de Longas-Metragens da 70ª edição do Festival de Cannes: Pedro Almodóvar (Presidente), Lily-Rose Depp, Will Smith, Jessica Chastain, e oscarizado iraniano diretor de “A separação” e “O apartamento” Asghar Farhadi, entre outros (Foto: Divulgação)

Não pairou nenhuma dúvida sobre a opção da Maîtresse de Cérimonie pela valorização das suas belas formas, mesmo que a transparência do busto tenha sido considerada excessiva por parte da grade imprensa francesa (Foto: Divulgação)

O BEIJO DA MULHER ARANHA ALL’ITALIANA

Ex-modelo-símbolo da Dolce&Gabanna, linda, alta e classuda, a atriz italiana Monica Bellucci volta a assumir o papel de Mestre de Cerimônia do festival, desta vez decidida a matar. Sua presa é o comediante francês Adolf Lutz nesta sátira aos beijos cinematográficos da época das vamps. Confira abaixo (Divulgação): 

No dia seguinte, a imprensa fez a festa. O popular “Nice-Matin” deixou bem claro que sem La Bellucci a cerimônia de abertura seria ainda mas tediosa ((Foto: Flávio Di Cola)

Mas o beijo ardente no palco do Palácio dos Festivais apenas coroou o destaque que Monica Bellucci ganhou nesta edição do Festival de Cannes. Mais cedo, a italiana já havia chamado a atenção dos fãs e imprensa, quando compareceu à sessão de fotos de divulgação do evento, protegida por enormes óculos Ralph Lauren (Foto: Divulgação)

Cannes também se orgulha de revelar tendências, descobrir talentos, contrariar estereótipos, gerar escândalos, lançar moda e inflamar debates. Nesses campos, a edição deste ano está prenhe. Se hoje questiona-se tanto a presença feminina em postos importantes da cadeia produtiva do audiovisual, Cannes responde com 12 longas-metragens dirigidos por mulheres em mostras competitivas, dos quais quatro na Seleção Principal [acesse aqui matéria do ÀS sobre os filmes selecionados] e com Pedro Almodóvar – o diretor do universo feminino por excelência –  na presidência do Júri da principal mostra.

Na presidência do Júri da Seleção Oficial do Festival de Cannes, Pedro Almodóvar criticou a Netflix: “Os serviços de streaming precisam aceitar as regras do jogo, respeitando as distintas formas de exibição e as obrigações de investimento que atualmente regem na Europa”. Ele se se referiu a duas produções da produtora que fazem parte da competição, “Okja”, de Bong Joon-ho, com Jake Gyllenhaal e ‘The Meyerowitz Stories”, de Noah Baumbach, estrelado por Adam Sandler e Ben Stiller. (Foto: Divulgação)

Se hoje o tema da migração e dos deslocamentos forçados de povos inteiros representa boa parte dos dramas humanos contemporâneos, Cannes apresenta suas credenciais de pioneira em prestigiar e promover filmes das mais diversas origens que vêm retratando essa espinhosa questão. Se hoje há um enfrentamento “cultural” em curso no planeta que dependendo do ângulo de visão pode ser entre Leste-Oeste, Norte-Sul ou Global-Local, Cannes não teme em se manter no centro da arena, sabendo que pode ser palco de mais um massacre perpetrado por dementes radicais. Por isso, os administradores do mais sofisticado balneário da Europa respondem com verbas suplementares de US$ 6 milhões para a implantação de sistemas de segurança jamais vistos em 70 anos de história, envolvendo a multiplicação de barreiras, varreduras, filtragens, checagens, equipamentos, atiradores de elite e esquadrões do tipo SWAT.

A edição deste ano do Festival de Cannes está quebrando vários recordes, inclusive os de medidas de segurança depois da série de atentados que vem vitimando a França (Foto: Flávio Di Cola)

O dia de abertura do festival foi um dos mais azuis e quentes do ano, com temperaturas máximas que ultrapassaram os 30 graus para alegria dos turistas que estão ocupando mais de 90% da capacidade hoteleira do balneário (Foto: Flávio Di Cola)

E se hoje criadores do mundo todo misturam linguagens, experimentam suportes, e ocupam todos os tipos de espaços e mídias, Cannes não receia em designar como filme de abertura desta edição do festival, uma obra extremamente pessoal e repleta de referências idiossincráticas do diretor Arnaud Desplechin – cria de outras jornadas do próprio festival e “prata da casa” –-, um ano depois daquele Woody Allen leve e nostálgico de Café Society (2016).

Em 2016, a abertura do Festival de Cannes foi entregue ao carismático e acessível filme de Woody Allen “Café Society”. Este ano, a escolha passou longe dessas qualidades: “Les fantômes d’Ismäel” do diretor francês Arnaud Desplechin, embora recheado de grandes estrelas do cinema gaulês como Marion Cotillard, Charlotte Gainsbourg, Louis Garrel e Mathieu Amalric foi recebido com frieza na sessão especial para a imprensa (Foto: Divulgação)

De fato, coerente com a consciência de sua própria grandeza e universalidade, os organizadores do Festival de Cannes sabiam que após as indulgências certeiras e deliciosas de Allen era a vez de dar espaço para a cultivada tradição literária, intelectual e metalinguística do cinema francês através da figura de Desplechin e do seu Les fantômes d’Ismaël por mais indigesto e maçante que o filme possa se apresentar diante das platéias, digamos, menos “exigentes”.

Confira abaixo o trailer de “Les fantômes d’Ismäel” (Divulgação): 

O próprio diretor achou melhor redigir uma “Nota de Intenção” para ser incluída no material de divulgação da sua obra em que confessa que “Les fantômes  d’Ismaël” “são cinco filmes comprimidos em um só”: é o retrato de um homem chamado Ismaël (Mathieu Amalric), é a jornada de um cineasta que perdeu o fio da meada da vida e entra em crise, é a história de suas duas mulheres das quais uma delas (Marion Cotillard) volta a assombrar a todos – incluindo a atual namorada do cineasta (Charlotte Gainsbourg) –- depois de desaparecida 20 anos, é o filme de espionagem que supostamente Ismaël está rodando, supostamente inspirado na suposta vida do seu próprio irmão (Louis Garrel) que está supostamente morto, e é também o “filme-ônibus” que transporta alegremente todos esses “filmes-passageiros” e transitórios.

E é exatamente em razão dessa intrincada construção em camadas que Desplechin avisa em suas notas que devemos nos remeter a Federico Fellini de 8 ½ (1963) ou a Providence (1977) de Alain Resnais – obras magnas da fluidez e da ambiguidade conceitual que o diretor francês confessa ter assistido centenas de vezes – para que o nosso percurso no labiríntico “Les fantômes d’Ismaël” seja mais bem-sucedido.

Arnaud Desplechin dirige Charlotte Gainsbourg e Marion Cotillard numa das inúmeras locações de “Les fantômes d’Ismaël”, obra construída a partir do cruzamento de referências muito pessoais e cinematográficas do diretor (Foto: Divulgação)

Como se não bastasse tudo isso, há ainda as habituais citações a filmes clássicos de Hollywood como Laura (1944), noir de Otto Preminger com uma das estrelas mais belas e misteriosas das telas, Gene Tierney – a qual Marion Cotillard tenta inutilmente evocar –, ou ainda Marnie – Confissões de uma ladra (1964) de Alfred Hitchcock com o seu compositor habitual, Bernard Herrmann.

Trinca de ouro do cinema francês no red carpet da sessão de gala no Palácio dos Festivais: Marion Cotillard. Louis Garrel e Charlotte Gainsbourg (Foto; Divulgação)

Com tanto recheio para tão pouco pão, não é de se espantar que a própria Charlotte Gainsbourg, depois de ter lido o roteiro de “Les fantômes d’Ismaël”, tenha telefonado ao diretor para indagar, meio confusa: “Afinal, a minha personagem sofre de quê?”. Bem, talvez Arnaud Desplechin ainda precise preparar novas “Notas de Intenção” para serem distribuídas junto com os ingressos.

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