* Por Fátima Telles

Walcyr Carrasco terminou 2015 premiadíssimo como autor de Verdades Secretas”, na Globo. Saindo de um extremo ao outro, ele já começou o ano à frente da nova novela das 18h, Êta Mundo Bom”, que estreou dia 18 de janeiro. A trama começou muito bem – 26 pontos de audiência em São Paulo no capítulo inicial e 29 no Rio, com uma média de 24 pontos na primeira semana –, pretendendo resgatar valores perdidos do passado e trazer de volta o otimismo e o humor ingênuo da época das chanchadas. Essa visão positiva da vida percorre toda a narrativa e cria semelhança com outros trabalhos do autor na década passada, todos na mesma faixa de horário, como O Cravo e a Rosa“, Chocolate com Pimenta e Alma Gêmea“, obras com forte aspecto cômico e viés cinematográfico.

Êta mundo bom! Walcyr 2 final

Êta, novela boa! Sem núcleo de favela e repleta de escapismo, a trama das 18h da TV Globo emplacou no gosto popular. O autor Walcyr Carrasco (entre os atores Anderson Di Rizzi e Camila Queiroz) comemora o sucesso (Foto: Reprodução)

O balanço, neste primeiro mês de exibição é claro: se algumas marcas clássicas do autor – como os enredos com pegada de comédia ligeira – merecem ser resgatadas, por outro lado, a ausência de alguns dogmas da dramaturgia que prevalecem desde o sucesso de Avenida Brasil(2011), como a tal “cota de favelas” em todas as produções, provam que está na hora de rever as fórmulas. E, voltando atrás para lembrar o depoimento do diretor-geral Jorge Fernando, na festa de apresentação da novela para a imprensa, “o público precisa de algo leve, engraçado, que resgate a pureza e a dignidade, num momento tão complicado como o que o país vive agora.” Sim, ao que parece, e diante da conjuntura atual – incredulidade na classe dirigente, decepção com o país, falta de segurança nas ruas e recessão econômica –, o Brasil anda mesmo precisando de escapismo, do tipo que norteou Hollywood durante a década de 1930, quando os Estados Unidos vivia a Grande Depressão. Confira a entrevista exclusiva de Walcyr para o ÁS.

Literatura + cinema = boa novela

“A ideia já existia, antes de escrever Verdades Secretas”. Não gosto muito de sair de casa e fico revendo filmes. Revi o filme Candinho(de Abilio Pereira de Almeida, Vera Cruz Studios, 1954), estrelado por Mazzaropi e inspirado na sátira “Cândido ou o Otimismo”(1759), de Voltaire, filósofo francês do Iluminismo. Pensei: ‘Isso aqui dá uma supernovela’. Então reli o livro de Voltaire e decidi fazer. É uma livre adaptação.”

Êta mundo bom! Sérgio Guizé 2 final

“Êta mundo bom!”: comédia de época de Walcyr Carrasco sempre tem núcleo caipira com bicho de estimação. Já teve pato, porca e agora o burro Policarpo, companheiro de todas as horas do protagonista Candinho, vivido por Sérgio Guizé (Foto: Divulgação)

Parto adiado

“Eu já tinha essa proposta de fazer “Êta Mundo Bom”, quando fui convidado para escrever “Verdades Secretas”. Mas o desejo de trabalhar nessa história já havia nascido. Já era um filho que eu queria criar e eu queria criar esse filho com o diretor Jorge (Fernando). Fizemos tantas novelas juntos (sobretudo a fase das comédias), que tenho uma confiança irrestrita no que ele faz e sei que tem a delicadeza, o tom para dirigir essa história. Iniciamos da maneira mais louca, fazendo a produção sem ter nenhum capítulo pronto, porque eu ainda estava com a cabeça em “Verdades Secretas”. Começou-se a construir um universo, uma cidade assim, mas conseguimos!”

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Parceria de longa data: diretor Jorge Fernando (à dir.) passa o texto de “Êta mundo bom!” com os atores J.P. Rufino (à esq.) e Sergio Guizé (centro) (Foto: Divulgação)

Cinema Paradiso

“ Quando eu era criança e morava no interior, meu pai me levava ao cinema praticamente todos os dias. Vi todos os filmes da chanchada brasileira, as produções da Atlântida com Oscarito e Grande Otelo, assim como os sucessos de Mazzaropi, da Vera Cruz à PAM Filmes. Esse humor da minha infância ficou na minha cabeça. Alguns anos atrás, reassisti “Candinho” com Mazzaropi e descobri que era inspirado em “Cândido ou o Otimista”, de Voltaire, numa incrível adaptação de Abílio Pereira de Almeida para o universo caipira da cidade de São Paulo. Quis retomar esse humor ingênuo agora, com essa novela, e que de certa forma é uma homenagem ao meu pai que amava o cinema.”

SC Rio de Janeiro (RJ) 28/01/2012 Cena do Filme - Sai da frente. Foto arquivo

Mazzaropi como Jacinto, um dos personagens que o imortalizou na cinematografia nacional, antes mesmo do seu tipo mais conhecido – Jeca Tatu: em cena de “Sai da frente” (Vera Cruz Studios, 1952), o astro contabilizava os ingressos vendidos aos milhões numa época em que Hollywood ~já dominava as salas de exibição brasileiras (Foto: Reprodução)

De queixo caído com os protagonistas

“Guizé (Sérgio Guizé) está um Mazzaropi perfeito. É um grande ator, faz um Candinho impagável, melhor do que minha imaginação criou! Mas todo o elenco é maravilhoso. Camila Queiroz, que saiu da personagem Angel de “Verdades Secretas”, direto para um teste nesta novela, ganhou o papel da Mafalda, por fazer uma caipirinha fantástica. Flávia Alessandra se tornou loura para remeter ao cinema de uma época, onde as vilãs eram inevitavelmente louras, cerebrais com aquela pegada de Lana Turner ou Barbara Stanwick. A novela se abre num leque de várias tramas com atores geniais. Inclui histórias pessoais da minha infância, como a de Gerusa (Giovanna Grigio), que era vizinha minha.”

Flavia Alessandra Eta Mundo bom final

Madeixas da perfídia: mais uma vez, Flávia Alessandra assume em “Êta mundo bom!” o arquétipo da loura má numa novela de Walcyr Carrasco, como já havia feito em “Alma Gêmea” (2005). Seu personagem é um amálgama de várias vilãs do cinema norte-americano (Fotos: Divulgação)

Na busca de uma fórmula que abandonasse o padrão dessa década nas novelas globais – o da trama urbana com núcleo de favela -, o autor Walcyr Carrasco olhou para o próprio umbigo e resgatou as comédias de época que evocam a Velha Hollywood, característica de suas primeiras produções na emissora. O resultado se mostrou um acerto. Confira abaixo um dos elementos mais impregnantes desse tipo de narrativa: a vilã maniqueísta, má a dar com o pau e invariavelmente loura:   

Escolha dos protagonistas

“A indicação de Sérgio Guizé e Débora Nascimento foi ideia do Silvio de Abreu que hoje cuida da dramaturgia da Globo, e eu achei fantástica! Ele sugeriu e falei: ‘ Já é’. ”

Eta Mundo Bom

Tieta do Agreste: ao lado de Eriberto Leão – que vive o sedutor mau-caráter Ernesto, tipo que o autor ama de carteirinha incluir nas suas obras -, Débora Nascimento vive sua primeira protagonista, Filomena, típica mocinha interiorana com biotipo que enlouquece os homens (Foto: Divulgação)

Mudança no Nome

“Quis a mudança do nome da novela, de “Candinho” para “Êta Mundo Bom”, porque, quando fui construindo a novela, sabia que seria longa e assim fui abrindo um leque maior de personagens. Não podia ficar preso e centralizar tudo num único personagem.”

Power females

“O machismo da época em que se passa a trama ainda existe É um assunto importante de se retratar, porque ao voltarmos ao passado estamos “falando” com o presente. Hoje se percebe que a relação homem-mulher ‘mudou e não mudou.’ A mulher ganhou um emprego, mas quando chega em sua casa tem que lavar louça e cuidar de filho. Ela, na verdade, ganhou mais trabalho, porque é rara a casa em que o homem divide as tarefas domésticas com a mulher. E também continua oprimida ao receber salários mais baixos que o dos homens, isso em todas as profissões. Se ela tem um caso e engravida, o filho fica para ela. Só após 10 anos o homem aparece e fala: ‘Oi! Você é meu filho!”

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Ao lado de Ary Fontoura e Duh Moraes, Elizabeth Savalla – espécie de talismã das produção de Carrasco – interpreta Cunegundes, a mama da vez em “Êta mundo bom!” (Foto: Divulgação)

Chega de favela!

“Eu sei que hoje em dia as novelas costumam ter núcleo de favela e eu optei por não usar, mesmo tendo uma parte da narrativa que é urbana. O motivo é simples: minha novela fala de um mundo mais encantador que o atual. Eu não pensei em fazer uma obra realista, mas uma trama envolta na névoa do romantismo, como um bombom num lindo papel brilhante!”

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João Emanuel Carneiro posa em um lixão: autor global praticamente introduziu a estética da pobreza na teledramaturgia global com “Avenida Brasil” (2011). Desde então, favela passou a ser personagem fixo nas produções contemporâneas da emissora (Foto: Reprodução)

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Depois de Babilônia e Paraisópolis: Juliano Cazarré (Merlô) e Susana Vieira (Adis Abeba) interpretam filho e mãe cujo universo é o fictício Morro da Macaca, favela da vez na dramaturgia televisiva e localizada à beira-mar, simulando o verdadeiro Vidigal carioca em “A Regra do Jogo”, obra atual de João Emanuel Carneiro (Foto: Divulgação)

Repercussão após um mês de estrada

“É impressionante a resposta do público, que torce por Candinho, Mafalda, Romeu (Klebber Toledo), Zé dos Porcos (Anderson Di Rizzi), Maria (Bianca Bin) e Celso (Rainer Cadete).”

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Tipo cinema: as cenas interpretadas por Bianca Bin e Rainer Cadete em “Êta mundo bom!” evocam romances da Era de Ouro de Hollwyood, depois reproduzidas em comédias mais recentes de cineastas dos anos 1970/80, como Mel Brooks (Foto: Divulgação)

Espiritualidade como alento para a vida moderna

“Está presente na novela, quando trato da questão do otimismo e de como encarar o mundo de maneira positiva. Candinho nos estimula a ver a vida com um brilho no olhar.”

Otimista

“ Gostaria que o público partilhasse comigo dessa emoção que tento passar e do que quero dizer. Sou um otimista e acho que a pessoa otimista, na verdade, gosta de arriscar e não aceita a perda. Eu não aceito as perdas, vou mesmo atrás.”

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Candinho (Sérgio Guizé) e Pancrácio (Marco Nanini): relação dos dois personagens evoca o otimismo proposto por Carrasco em “Êta mundo bom!”, exibida numa fase em que os brasileiros se mostram cada vez mais decepcionados com as instituições (Foto: Divulgação)

Literatura Infantil

“Ano passado adaptei Romeu e Julieta’ e deve sair este ano pela editora Moderna. Também espero terminar este ano o livro ‘São Francisco’”.

Expectativa para 2016

“Ser feliz escrevendo ‘Êta Mundo Bom’, como já estou sendo e adorar ver os capítulos. O maior prazer do autor é sentar e assistir à novela e dizer: “Ah! Como ficou legal!’”

* Com artigos publicados nas principais revistas do país, blogs e sites, a jornalista tem bagagem em mídias digitais e content marketing, fazendo da delicadeza seu trunfo para extrair depoimentos das celebs. Mas não se deve confundir seu aspecto doce com serenidade. Amante de programas de viagem, a carioca é fogo! Sagitariana com ascendente em áries, defende as filhas com ímpeto de mãe-ursa – “elas são tudo para mim!” – e vai da água para o vinho: saboreia um suco de melancia na voracidade com que se entrega a churrascos.

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