Numa era na qual palavras como diversidade são esvaziadas sob a agenda oportunista da apropriação de ideias para vender produtos, arrematar hordas de seguidores nos aplicativos ou ganhar likes nas mídias sociais, a sinceridade de “Dumbo” (idem, 2019), o remake do clássico desenho da Disney é um alento. Em cartaz, a produção live action tem ainda por cima a credencial de Tim Burton para justificar sua realização, considerando que o cartoon de1941 é tão definitivo quanto pérolas como “…E o vento levou“, “O Mágico de Oz” ou “Cantando na chuva“. Apesar disso, agora em sua segunda semana de exibição mundial, o longa-metragem começa a perder fôlego, ainda que seja sucesso de crítica e considerando que a bilheteria doméstica, no inflado mercado americano, anda aquém do esperado, rendendo, segundo o site Box Office Mojo, 45 milhões de dólares no final de semana de estreia, e 62 milhões até esta última sexta (5/4).

Féerico e nostálgico: o Dumbo made in Tim Burton dispõe daquela embalagem clássica do diretor que transmuta estranheza em ternura. Ambientado na virada dos anos 1920, o cirquinho de trupe familiar apresentado é também um veículo para o realizador de “Beetlejuice” fazer uma crítica ferrenha às pantagruélicas engrenagens da indústria cultural. Por sinal, na qual ele ganha o pão de cada dia… (Foto: Divulgação)

Se em “Cinderela” as cenas mais aguardadas eram as das sequência da transformação da abóbora em carruagem e a da perda do sapatinho, e em “A Bela e a Fera” o baile, “Dumbo”não decepciona. Os espectadores são devidamente brindados tanto quando o elefantinho é envolvido pela tromba da mãe quanto quando ele bate as orelhas rumo ao topo da tenda, em voo livre (Foto: Divulgação)

Apesar de ter voado alto (considerando que tudo em Hollywood é hipérbole), ficando em primeiro lugar na sua semana de largada, o valor arrecadado para uma produção que custou aos cofres 170 milhões é menos que os prognósticos: esperava-se que o filme superasse os 50 milhões nos três primeiros dias de exibição, somente no mercado domestico. O elefantinho deu um rasante e quase acabou raspando a tromba no asfalto para padrões americanos: além de ter sido o filme de atores inspirado em desenho clássico que menos faturou em estreia (“A Bela e a Fera“, 170 milhões em 2017;  “Mogli“, 103 milhões em 2016; “Cinderela“, 67 milhões em 2015), no primeiro final de semana ele levou para casa, no cenário global pouco mais de 71 milhões.

Realismo ou fantasia? É o olhar do elefantinho Dumbo que dá a deixa de que ele não existe. Se a criatura alada é crível em forma e textura, naquele nível que a computação gráfica de hoje permite, por outro lado são esses mesmos olhos em proporção e expressão irreais, longe da natureza, mas próximos do cartunesco, que entregam que o protagonista é fantasia. Mas, na maneira como Burton conduz a narrativa, isso não é nada mal: só reforça o sentido de estranheza que o personagem precisa passar (Foto: Divulgação)

Confira abaixo o trailer oficial legendado de “Dumbo” (Divulgação): 

Há quem diga que, embora o apelo de filmes com animais seja real, o fato de o Dumbo matriz ter 80 anos pesou: não é uma história tão popular hoje quanto “A Bela e A Fera” (original em 1992), “Aladim” (original em 1993 e live action estreando em maio) ou “O Rei Leão” (original em 1994 e live action programado para julho). E Dumbo não usufrui do pertencimento à categoria “Princesa Disney”, o que justifica “Cinderela” estar na sua frente, o que possivelmente também aconteceria com “Branca de Neve“, anterior ao paquiderme circense na cronologia do estúdio (1937). Sim, no fabuloso mundo do consumo, as belas levam vantagem sobre as feras.

Tim e Dumbo: ao acrescentar ao desenho original um núcleo de personagens humanos, Burton acabou enfatizando a humanidade do elefantinho e sua mãe. Alguns dos homo sapiens apresentados na projeção são bem mais animais que Dumbo, verdadeiras aves de rapina ou lobos predadores de um sistema que não se furta em deglutir ninguém para obter lucro. O velho Karl Marx  (1818-1893) e os criadores do conceito de indústria cultural, os também alemães Theodor Adorno (1903-1969) e Max Horkheimer (1895-1973), salivariam! (Foto: Divulgação)

Ainda assim, números à parte, Cinderela que perdoe, mas  Dumbo é essencial. A priori, a história do elefantinho de orelhas enormes que, do bullying sofrido por ser diferente, alça voo em todo o seu esplendor para se revelar uma insuspeita maravilha alada, não necessitaria de atualização, a não ser pelo fato (comercial) de que é sempre bom para os estúdios reciclar narrativas sob novas óticas e tecnologias para arrebanhar as gerações de plateia mais recentes. No caso do novo “Dumbo”, porém, nada é gratuito.

À narrativa clássica de”Dumbo” o diretor se encarregou de acrescentar camadas de semiótica que aproximam o elefantinho privado de sua mãe dos órfãos que se ressentem da perda, criando uma linha direta e empática entre os três. Esse recurso imprime veracidade ao paquiderme esquisitão e a plateia, recuperada da sensação inicial de bizarrice, logo passa a crer em sua existência. Nada novo, mas eficaz: velho recurso usado por Tim desde o seu début nas telas (Foto: Divulgação)

A própria presença de Burton na batuta seria suficiente para justificar a produção: muito antes da consolidação do politicamente correto – e do seu uso indiscriminado pela mesma gente que apregoa termos como “parceria” a seu bel-prazer, independente do sentido que isto representa –, o diretor já pautava suas escolhas pela vontade de expor as diferenças. Desde Beetlejuice“(1988), “Batman” (1989), “Eduardo Mãos de Tesoura” e “Batman, o retorno“(1982), produções seminais que consolidaram sua carreira, ele se dedica indiscriminadamente a mergulhar nas entranhas da estranheza para mostrar ao público que, sob camadas epidérmicas, somos todos mais parecidos com os freaks do que supõe a vã filosofia de qualquer Shakespeare de boteco.

Freak Show com catarse: o novo “Dumbo” não se priva de oferecer ao público um cardápio de maldades realizadas com o protagonista. Elas colaboram na hora de promover a devida ligação emocional do personagem com o público. Quem é mais velho e já conhece a história se identifica. E quem nasceu sob aos auspícios do politicamente correto, e nem tem assim tanta familiaridade com o original, também se entrega.No final, Tim usa a poderosa Disney para dizer o que sempre quis! (Foto: Divulgação)

Para dar cabo dessa deliciosa fábula, Burton só precisou ser ele mesmo: aquele que sem balelas mergulha há mais de três décadas na missão de transformar o bizarro em poesia e o padrão em detestável. Nascido no subúrbio californiano de Burbank, pertinho das unidades de produção dos grandes estúdios, o diretor nerd esquisitão fez da diferença seu trunfo e, por isso, a narrativa do cirquinho de curiosidades, tal qual P.J.Barnum concebeu, em meados do século19, para transformar a infelicidade alheia em espetáculo para faturar uma nota, é fina iguaria para o diretor fazer o que mais gosta: verter quermesse em lirismo.

No panteão de criaturas bizarras que desfilam em “Dumbo”, no sentido horário e a partir do elefante, o caubói de um braço só Colin Farrell, o inescrupuloso empresário do ramo do entretenimento (Michael Keaton), a ex-prostituta francesa vertida em estrela do picadeiro (Eva Green) e o apresentador pequenininho e mambembão (Danny DeVito). Atriz recorrente nas últimas produções do cineasta, Green contracena com antigos medalhões do diretor saídos da geladeira (Foto: Divulgação)

A honestidade com que Burton imerge na mais famosa trama circense sobre a gananciosa transmutação de bizarrices em receita monetária é o combustível para imputar a “Dumbo” uma das melhores produções de sua trajetória. Dumbo é Tim. Mera  realização de agenda para se aproveitar da boa vontade dos incautos, o musical “O rei do show” (2017) deveria aprender com o diretor. Por isso mesmo, pouco importa se o elefantinho vai fazer carreira longa na bilheteria,  e que fique bem claro, no mesmo patamar de “A Bela e a Fera”. Dumbo é fundamental e quem não viu, que vá voando. Mesmo que não seja orelhudo como ele.

Comida de mosca ou segurança? Num incomum caso de semiótica na contramão dos interesses do estúdio, Tim Burton transforma o cirquinho de poucos recursos em aconchego familiar e o mega parque temático – que mais parece uma desses resorts ao redor do mundo dos quais a Disney é proprietária – em falsa maravilha que esconde uma mansão dos horrores. Chega a ser curioso como a corporação permitiu que o diretor brincasse com isso, ao narrar a história de “Dumbo” desse jeito! (Foto: Divulgação)

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