Em 1977, o terror italiano “Suspíria”  fez um tremendo sucesso, consolidando a carreira do diretor Dario Argento, que já vinha se dedicando ao gênero desde seu primeiro filme, na virada dos anos 1970, “O pássaro das plumas de cristal” (1970). Com distribuição internacional da Fox, o longa, que trata de um clã bruxas entranhado nas profundezas de uma companhia de dança em Viena, rodou o mundo e virou cult. O público ficou extasiado com a estilização da produção, as cenas viscerais, o colorido technicolor, a narrativa crua, a morbidez e o conjunto do elenco, que trazia a atriz americana Jessica Harper no papel de uma jovem bailarina que ingressa no teatro e aos poucos vai descobrindo que são mais do que parecem a coreógrafa Madame Blanc (a estrela e diretora Alida Valli, um mito), a ensaiadora Senhora Tanner (outra lenda, Joan Bennett, cujo início de carreira em Hollywood precedeu o cinema falado) e sua trupe.

(Foto: Divulgação)

Confira o trailer oficial legendado do “Suspíria” original abaixo (Divulgação): 

Agora, é a vez de outro diretor made in Italy atualizar a história, que estreia nesta quinta-feira (11/4) no Brasil, oferecendo ao público um remake mais 40 anos depois: Luca Guadagnino (“Me chame pelo seu nome“, 2017), que transpôs a narrativa para acinzentada Berlim dos anos setenta, época em que a metrópole convulsionava dividida pela Cortina de Ferro em suas duas metades, durante a Guerra Fria, sob a ameaça constante de protestos políticos e ataques terroristas. O novo “Suspíria: a dança do medo(Suspiria, Amazon Studios e outros, 2018) mantém a atmosfera de estranheza, o horror muitas vezes mais psicológico que sobrenatural e o clima claustrofóbico do original.

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Confira o itrailer oficial legendado abaixo (Divulgação): 

Nos papeis de Blanc – uma espécie de coreógrafa, manipuladora como convém ao cinema americano retratar, vide o personagem de Vincent Cassel em “Cisne Negro” (2010) –, surge uma inspiradíssima Tilda Swinton, que visivelmente se baseou em Pina Bausch, na interpretação e na caracterização, para compor a vilã e que também dá vida a outros personagens, demonstrando sua versatilidade. Ela é o prato principal no cardápio dessa sinistra galeria de estranhas mulheres decrépitas, tal qual a obra original, que certamente serviu de referência para o showrunner Ryan Murphy criar uma das temporadas mais antológicas da série de tv American Horror Story, “AHS: Coven“, que retrava uma seita de bruxas.

Tilda Swinton as Madam Blanc stars in Suspiria (Foto: Divulgação)

Lutz Ebersdorf (Foto: Divulgação)

 O aspecto deplorável das mulheres maduras que trabalham na Companhia de Dança Helena Markos – no original, de balé clássico; na adaptação de Guadagnino, de contemporâneo – não é diferente da Berlim chuvosa e petrificada pelos horrores do nazismo que emoldura a narrativa.

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A fotografia pálida e plena de penumbras de Sayombhu Mukdeeprom (em oposição ao colorido hemorrágico da produção-matriz), o fantasmagórico design de produção de Inbal Weinberg (que apresenta a sede da companhia de dança como um assustador prédio art déco), a cartela cromática embaçada de Merlin Ortner e Monica Sallustio, a produção de objetos de Christin Busse e Merissa Lombardo e o figurino e caracterização de Guilia Piersanti são acertos que contribuem para a consolidação da tensão crescente, na mesma proporção em que a edição lenta, sem nenhuma pirotecnia típica do cinema atual, se aproxima das produções de arte europeias dos anos 1960/70.

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Em alguns momentos, o clima de aprisionamento e sufocamento se aproxima do terror confinado em ambientes fechados de clássicos de Roman Polanski, como “O bebê de Rosemary” (1968) e “O inquilino” (1976).

Soma-se a estes elementos narrativos a fúnebre trilha sonora de Thom York num conjunto sinestésico de componentes que esbarra na misoginia e no decadentismo professados no fin du siècle, quando se pretendeu representar a mulher como uma voluptuosa, nociva e perniciosa criatura perigosamente capaz de macular a sociedade.

Tilda Swinton as Madam Blanc stars in Suspiria (Foto: Divulgação)

Para reforçar essa intenção de perfídia feminina que deixaria Baudelaire e Oscar Wilde inebriados, as vampes decrépitas da seita de bruxas contrastam com o vigor juvenil das bailarinas que, com seus biotipos incomuns, quase nunca se dão conta do covil do qual fazem parte.

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O bizarro casting de Stella Savino só descamba na hora de escalar a protagonista, a cargo da inexpressiva Dakota Johnson (“Cinquenta tons de cinza“), tão insípida quanto duas fatias de pão de forma sem recheio, mas escolhida a dedo possivelmente pelo fato de que seu physique du rôle converge com a mulher-ninfa da Belle Époque, como as fadas dos cartazes de Alphonse Mucha. Esse arquétipo, ao lado da vampe, completa o panorama de visão de mundo que pintou a mulher como corrompida, perfeito para semioticamente representar a bruxaria.

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Dessa forma, o objetivo de alcançar as significações é saciado por Luca Guadagnino, que aposta no básico sem pretender criar nada novo, mas recontando uma história com eficiência, ao contrário de Jordan Peele, atualmente também em cartaz com o original “Nós“. O diretor tira partido da associação do feminismo dos anos setenta, de quando se passa a história, com a onda de empoderamento da mulher que hoje toma conta do globo. Tudo isso sublinhado pela ideia de que a prática dos rituais satânicos remeteria à mulher, pelo menos desde a afirmação da cristandade como fenômeno planetário. Bingo.

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Enquanto a desavisada mocinha Susie Bannies ascende na companhia com a rapidez do Frango Veloz da Sadia, aparentemente tão dispersa quanto a ninfa que ela representa,  quem vai se dando conta do mal que alicerça a companhia é a amiga de pliés Sara (Mia Goth, de “Ninfomaníaca: volume 2” e “A cura“, em boa atuação), conforme vai procurando desvendar o que aconteceu com a prima ballerina desaparecida (Chloe Grace-Moretz, ótima, numa curta participação).

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Nos destaques do elenco, despontam a Senhora Tanner da vez, a alemã Angela Winkler (na labuta desde os anos 1960 e conhecida do grande público por pérolas que ultrapassaram fronteiras, como “O Tambor“, de Volker Schlömdorff) e a Susie Bannies original numa participação especial Jessica Harper.

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E, como curiosidade, a principal top model negra internacional da Era Gisele Bündchen Alek Wek, que inaugurou na passarela o estilo afrofashion bochechudo sudanês.

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Entre todas as qualidades de “Suspíria: a dança do medo”, sobressai o primoroso trabalho do coreógrafo belgo-francês Damien Jalet, que criou as peças de dança contemporânea usadas pela companhia de balé fictícia na tela. Além de Pina Bausch, ele pesquisou outras coreógrafas como Martha Graham e a alemã Mary Wigman, discípula de Laban, para conceber os movimentos contorcidos, quebrados, vampirescos e lascivos executados pelas bailarinas cujos corpos parecem se libertar das cordas e faixas vemelhas bondage que as aprisionariam. Esse rito de libertação, sobretudo por Susie Bannion, serve para sublinhar não somente a percepção de que a dança é feminina, e por isso demoníaca, como também para imprimir a sensação de pavor que o mundo patriarcal teria se as mulheres se livrassem das amarras e dominassem tudo, fosse no decorrer da modernidade, na virada do século 20, na época do sufragismo ou na queima dos sutiãs pós-revolução sexual.

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Considerando o momento atual no qual, à parte de qualquer questão relacionada ao empoderamento, as mulheres começam a suplantar os homens em número nos cargos de comando nas corporações, se faz valer por aí a refilmagem de uma produção que se bastaria enquanto obra original, sem carecer de novas adaptações.

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Em adição a isto, os movimentos perigosos que as bailarinas executam na sala de aula no palco, flertando com riscos de acidente, contusões e possibilidades de aleijamento, nos seus movimentos antinaturais, coincidem o temor do sobrenatural, reforçando nessas sequências de balé o quanto seria perigoso fazer parte da Companhia de Dança Helena Markos.

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