Sobra um filmaço quando se retira toda a polêmica acerca da limada de Kevin Spacey, acusado de assédio e motivo pelo qual o diretor Ridley Scott, que não queria associar as peripécias sexuais do astro à sua mais recente produção – o drama baseado em fatos reais Todo o dinheiro do mundo” (All the Money in the World, TriStarProductions e outros, 2017) –, substituiu-o às pressas pelo veterano Christopher Plummer em cenas filmadas na pós-produção e inseridas digitalmente sobre as do ator banido.

“Todo o dinheiro do mundo” (Foto: Divulgação)

Confira abaixo o trailer oficial legendado (Divulgação):  

Quando se assiste o longa-metragem, é inevitável a surpresa do quanto representou em esforço e dinheiro essa operação lava-jato, sobretudo ao se constatar que, apesar de estar cotado como um dos favoritos ao Oscar de ‘Melhor Ator Coadjuvante’ por essa participação – atuação que acabou por lhe render o Globo de Ouro na mesma categoria – a participação de Plummer na produção é intensa, quase a de um coprotagonista, significando a demanda de muitas (muitas mesmo!) sequências aplicadas no resultado à custa da computação gráfica.

Fotos de Kevin Spacey caracterizado como o bilionário Jean Paul Getty foram divulgada pelo estúdio antes de o ator ser posto no limbo após a divulgação de acusações de assédio sexual. Bom ator, pode ficar na curiosidade do público como seria sua performance no papel, considerando a presença magnética do seu substituto… (Foto: Divulgação)

… Christopher Plummer, que pode arrebatar seu segundo Oscar com essa interpretação! (Foto: Divulgação)

Ao comparar as caracterizações de ambos os atores que viveram Getty na produção de Ridley Scott, fica latente que o visual de Spacey se aproxima mais do aspecto físico do magnata, enquanto Plummer, talvez por ter sido escalado de última hora, se faz valer melhor da postura cênica (Foto: Reprodução)

Loucura, mas valeu a pena porque Plummer rouba o filme, engolindo a protagonista Michelle Williams (presença constante nessa temporada; pode ser vista também em O Rei do Show” e Wonderstruck“) e seu parceiro de cena Mark Wahlberg. Só dá o canadense na exata dimensão do então homem mais rico do mundo – Jean Paul Getty – seguro daquilo que acredita que deve fazer, inteligente e sagaz, mas tão oco e vaidoso quanto um buraco negro, raposa do século 20 que se fez graças às negociatas com o petróleo árabe e cuja presença nesse mercado mundial contribuiu para o senso comum de que qualquer criatura advinda do Oriente Médio é inimigo público em escala planetária.

Na imagem ao lado de Andrea Piedimonte Bodini (à esq.), Michelle Williams e Mark Wahlberg são os verdadeiros protagonistas de “Todo o dinheiro do mundo”. Entretanto, parte em função das razões de sua escalação de última hora e parte em decorrência do brilho em cena, é Christopher Plummer o destaque do longa-metragem (Foto: Divulgação)

Diante da trama, o sequestro de seu neto Jean Paul III (Charlie Plummer, qualquer semelhança no sobrenome é mera coincidência) e sua  recusa em pagar o resgate, o eterno capitão Von Trapp de A Noviça Rebelde (1965) e o Commodus de A Queda do Império Romano (1964) aos 88 anos é mais um daqueles casos de canastrão que se torna ótimo ator na maturidade, fenômeno nada incomum em Hollywood. Agora em sua terceira indicação ao Oscar de ‘Melhor Ator Coadjuvante’, todas após 2010, talvez ele arrebate sua segunda vitória.

O herdeiro Jean Paul Getty III (Charlie Plummer) circula na mansão da enorme propriedade rural inglesa do avô em meio  a um imenso contingente de obras de arte e antiguidades, incluindo bustos de personalidades criados para perpetuá-las pela posteridade (Foto: Divulgação)

Burburinho midiático: o verdadeiro Jean Paul Getty III, por ocasião do sequestro e 1973, emocionou o mundo quando, para pressionar seu avô e forçá-lo a liberar o resgate, os contraventores cortaram sua orelha e a enviaram à imprensa (Foto: Reprodução)

Deixado de lado o imbróglio com Spacey e a presença avassaladora de Christopher Plummer neste drama com roupagem clássica, quase de filme inglês, o que se tem é uma produção instigante que, mesmo passada em 1973, bem longe da eloquência visual dos épicos históricos e narrativas sci-fi que concederam a Scott a fama de minucioso criador de universos, “Todo o dinheiro do mundo” consegue manter a marca de meticulosa reconstituição que se espera das realizações do diretor.

Ridley Scott filma cena com Michelle Williams ao centro. Apuro estético típico do cineasta permanece em “Todo o dinheiro do mundo” (Foto: Divulgação)

A direção de arte é fabulosa, os figurinos de época no ponto, os penteados das personagens mulheres dignos de entrarem num compêndio de beauty art in Hollywood, o light design um estouro e os automóveis em cena são um desbunde, mas nada disso tira o brilho de uma narrativa precisa que se propõe a comparar a magnitude empresarial de Getty, seus caprichos e suas escolhas à imagem e semelhança dos imperadores romanos, além de,no pano de fundo, tentar reproduzir como funcionava a relação dos famosos e da imprensa nesses primórdios da existência-espetáculo. Como um césar augusto, esse faraó do capitalismo se cultuou adquirindo obras dearte como se fossem espólios de guerra e erigindo monumentos à sua própria vaidade, ainda que sua vida familiar fosse digna de ser apagada de um obelisco ou mesmo rasurada em manuscritos, como no Egito e Roma antigos.  Corra para o cinema já!

Diversas sequências envolvendo os protagonistas e os paparazzi são vistas em “Todo o dinheiro do mundo”. O objetivo é mostrar o quanto o herdeiro da fortuna Getty foi capaz de capitalizar a atenção do mundo num incidente que chamou mais atenção pela recusa do avô em pagar o resgate do que o sequestro em si (Foto: Divulgação)

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