*Por Lucas Montedonio

Novos desafios, novas maneiras de produção industrial, novas formas de ser, de lidar com a individualidade, muitos caminhos para transcender. Nesta 42ª edição da São Paulo Fashion Week a alcunha “trans” é a bola da vez. Transformação, transgressão, transição para sincronizar os lançamentos de coleções com o desejo do consumidor final e para lidar com a efemeridade da existência. Afinal, tudo é transitório. Por isso mesmo, ÁS circulou pelo evento em busca de uma pergunta que não quer calar: “Quem representa o seu ‘trans’  interior?” As respostas são reveladoras. Confira!

Nascida em berço de ouro, Constanza Pascolato soube se inventar no meio da moda. Traduzindo: tinha tudo para virar uma dama da sociedade, daquelas bem tradicionais; preferiu se tornar soberana do mundinho fashion. Transformação é com ela mesmo. Ela dá sua opinião: “Às vezes me deparo com o trabalho de alguma pessoa e fico genuinamente tocada com o quanto este aspecto transcendente faz toda a diferença, quando este conceito é de fato aplicado. É realmente impressionante”, declara escondendo o jogo, mas com as cartas na mão. E completa: “Eu gosto de gente inteligente e uma pessoa que mudou a cara do mundo foi o Steve Jobs. Olha o legado, que influência! Ele se revelou transcendental… porém midiático. Aliás, gênios como Albert Einstein fizeram coisas sensacionais, mas não numa época em que as pessoas tinham tanto acesso a informação como agora, um pseudo-contato”, divaga, alfinetando a era das relações líquidas, como diria Bauman.

Foto: Gabriel Barrera/StudioRGB

Costanza Pascolato carrega gente com tutano dentro de si. E é categórica em sua opinião: “Amo o povo inteligente”, traça. “Algum artista em especial?”, indaga ÁS. “Artista não costuma ser nada brilhante. Raridade!”, se diverte (Foto: Gabriel Barrera/StudioRGB para Ás na Manga)

Ninfeta que se fez top model, Gianne Albertoni transcendeu a vida para se tornar atriz e apresentadora. Verdadeira trans-camaleoa. Por isso mesmo, sua “trans” interior é ela mesmo: “Quando quero, me torno quem preciso ser. Como modelo e atriz aprendi a lidar com o desenvolvimento de várias personas, me transformando em mais outras pessoas quando necessário”, destaca confiante, sem parecer seção de ego.

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Naquela linha setentista, a doce e odara Gianne preenche seu eu interior consigo mesma: “Me basto” (Foto: Gabriel Barrera/StudioRGB para Ás na Manga)

Produtor que se transmutou em pensador da moda, Paulo Borges, filosofa: “A inquietude”. Pausa. “Acredito ser fundamental estar sempre em movimento, olhando para frente”. E quem seria aquela pessoa que corporifica esta inquietude?, instiga o ÁS. “Só olhar para seu lado. A Constanza”, rasga seda.

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Para Paulo Borges, a melhor forma de mudar o mundo é levar adiante a inquietação típicas dos artistas, daquela que causa burburinho no mundo (Foto: Gabriel Barrera/StudioRGB para Ás na Manga)

Editora de moda da Marie Claire, Larissa Lucchese é loura com tutano. Do tipo que elucubra. “Minha trans interior é Lea T“, solta. “Por tudo o que já passou, ela é maravilhosa e conseguiu ser respeitada após a decisão tomada de mudar de sexo, de se operar. Admiro muito, pois chegou a um nível de mercado altíssimo! Deveria ser exemplo para todo mundo”.

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Larissa Lucchese é do tipo que usa calça cropped, mas nunca é pega de saia justa; tem a resposta na língua Ela incensa Lea T como uma espécie de ícone interior (Foto: Gabriel Barrera/StudioRGB para Ás na Manga)

Unha e carne sim, siamesas jamais. Univitelinas sim, atrizes idem, personalidades idênticas never! Apesar disso, Giselle e Michele Batista comungam de muitas opiniões. Como nesse caso: “Por conta de O Negócio [série sobre prostituição da qual ela participa, no HBO], fiz um curso e conheci muitas trans. Me tornei amiga da Bárbara Aires, que é uma ativista, um exemplo, uma mulher transformadora, que modifica o mundo à sua volta, batalha or direitos iguais. Incrível!”, conta Michele, que continua na HBO, mas também estrela Hora de perigo‘, que estreia esse mês na plataforma online do canal Max. Em uníssono, Giselle concorda: “Barbara é o máximo, e as descobertas da minha irmã são tudo!”, desfia para contar que, depois de A Regra do jogo‘, vai volta à telinha em outra produção: “Ainda não posso contar qual é a novela, mas é quente!”.

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Giselle (esq.) e Michele (dir.) pertencem a uma nova geração Irmãs Batista, depois de Linda e Dircinha. São tão unidas, que comungam das mesmas opiniões (Foto: Gabriel Barrera/StudioRGB para Ás na Manga)

Direto dos palcos para a TV, Bruno Lopes é babe face. Daí, sua participação em Carinha de Anjo‘, aposta do SBT prevista para novembro. O também roteirista e produtor revela seu lado transformista em tom de luto: “Elke Maravilha. Infelizmente, não tive a boa sorte de conhecê-la. Somente a carreira, trajetória, conquistas. Essa mulher ajudou a transformar o mundo apenas com sua luminosa presença. Ela era mara, não é à toa que era Elke!”.

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Ator de novelas infantis, Bruno Lopes investe no lúdico quando o assunto é trans: sua musa é Elke! (Foto: Gabriel Barrera/StudioRGB para Ás na Manga)

Poderosa Afrodite editrix, megatrix, blastertrix da Editora Globo, a baiana Daniela Falcão é arretada nas opiniões: “O São Paulo Fashion Week já teve tantas encarnações. Por isso, acredito que o Paulo Borges é o cara! Revolucionou a moda no Brasil, é o homem de um milhão de peles, de pelagens. A cada temporada, se transforma e transcende: hoje dirige até shows de artistas como Carlinhos Brown e Alice Caymmi. Trans é isso: circular em vários ambientes”.

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Doce como seu vestido, a queridíssima Daniela Falcão acredita na força-motriz de Paulo Borges como uma poderosa ferramenta de transformação (Foto: Gabriel Barrera/StudioRGB para Ás na Manga)

Yohan é da vibe de quem põe a boca no mundo, solta o trombone: é cantor! “Quem é o trans dentro de mim??? Isso é o que eu faço nos meus shows. Sou performer, amor!”, esclarece. Inebridado com tanta autoreverência, ÁS desafia: “Então, algum ídolo em que se inspirar?” Ele não se faz de rogado: “Bowie e também os astros dos anos oitenta. Uso como referência toda a cultura pop americana desse período”.

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Elemental da natureza: mimetizando algo entre Adam Lambert e Johnny Hooker, Yohan aposta na sua personalidade magnética como um fator inestimável fator de transformação (Foto: Gabriel Barrera/StudioRGB para Ás na Manga)

Denny Feitosa é carne nova no pedaço: o cearense é estilista novato e veio pela primeira vez à SPFW. E entrega sua verve narcisa: “Estou vestindo Diesel“, afirma na bucha, sem que lhe fosse perguntado. “Tá bom, benzinho, mas vamos ao que interessa: quem é sua trans interior, honey?”, questiona ÁS sem perda de tempo. “Neste mundo globalizado não dá para ficar só no preto & branco; é preciso trazer à tona sua trans interna”, teoriza. E continua num verborrágico looping: “Minha trans sou eu mesmo”, insiste o moço nessa transgressão egoica.

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É zebra! Com sua marca recém-criada, Denny Feitosa crê nele mesmo como a personificação da transformação. (Foto: Gabriel Barrera/StudioRGB para Ás na Manga)

“Dentro de mim, nem sei. Mas na capa de de novembro teremos uma top trans. E brasileira, diga-se de passagem!”, polemizou Susana Barbosa, diretora da Elle.

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Susana Barbosa é trans do tipo que põe trans na berlinda, ops, na capa! (Foto: Andrey Costa para Ás na Manga)

Suspirante, Carlos Pazetto é produtor das antigas, do tipo que já viu muitas transformações na moda. Sabe das coisas Assim, ele concorda com Larissa Lucchese: “A Lea T. é tudo de bom na vida de qualquer pessoa. Não se encaixa em rótulo algum e é de uma coragem e atitude de se ter orgulho”.

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Diva queen: Pazetto faz a linha de quem aposta em estrela como catalizadora do comportamento. Lea T é a sua bola de vez (Foto: Andrey para Ás na Manga)

* Nascido na cidade imperial de Petrópolis, o pianista amador ganhou o mundo ainda adolescente quando fez intercâmbio nos Estados Unidos. Nessa época sua terceira visão despertou e o moço se entregou ao budismo tibetano. Pura estratégia para dominar a vaidade interior. Estudou comissaria de bordo, mas preferiu o jornalismo e, hoje, entre retiros espirituais com rinpoches, encontros com lamas e entrevistas espevitadas, o sagitariano usa sua vocação para o tietismo como contraponto à eterna busca do santo nirvana.

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