*Por Flávio Di Cola, de São Paulo

Só mesmo a combinação das cores vibrantes e das formas surpreendentes de artistas plásticos do porte de Aldemir Martins, Alfredo Volpi, Antonio Bandeira, Carlos Vergara, Ivan Serpa, Manabu Mabe, Nelson Leirner e Willis de Castro, entre outros, com o desenho de estilistas fundamentais como Alceu Penna, Dener Pamplona, Jorge Farré, José Ronaldo, Sonia Coutinho e Ugo Castellana, mais a genialidade de Livio Rangan, publicitário da Rhodia e idealizador da Fenit (Feira Nacional da Industrial Têxtil), para espantar o baixo-astral que se abateu sobre o circuito cultural de São Paulo.

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A revolucionária associação do olhar e dos recursos plásticos dos maiores artistas brasileiros com a visão de moda dos grandes estilistas das décadas de 1960-1970 faz da exposição no MASP um dos mais expressivos testemunhos das relações entre vestuário e arte (Divulgação)

Pois é: num espaço de apenas dois meses, a cidade viu transformar em cinzas parte significativa dos seus acervos e equipamentos culturais. No final de dezembro passado, um incêndio de grandes proporções devastou não só o Museu da Língua Portuguesa como também parte da antiga Estação da Luz, no centro da cidade e monumento-símbolo da capital paulista; e, há poucos dias, outro incêndio destruiu um dos galpões da Cinemateca Brasileira, na Zona Sul – considerado um dos maiores acervos fílmicos da América Latina –, devorando cerca de 500 obras cinematográficas ali depositadas. Assim, fica muito difícil apostar no sucesso da “Pátria Educadora” e no projeto de aprimoramento do país através da arte e da cultura.

Mas se você mora em São Paulo, ou viajou para lá nestes feriados de Carnaval, ainda vai encontrar na exposição Arte na moda: coleção MASP Rhodia”, em exibição no MASP (só até este domingo, 14 de fevereiro) uma bela razão para continuar amando este país através da inventividade, do arrojo e de um olhar estético essencialmente brasileiro de um grupo de criadores que sob a batuta de Livio Rangan mudou completamente o panorama da nossa moda e sob todos os aspectos.

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A modernidade arquitetônica do MASP dialoga belamente com as 79 roupas históricas doadas pela Rhodia e escolhidas pelo lendário diretor-fundador do museu Pietro Maria Bardi (1900-1999) para integrar o acervo da instituição, em 1972 (Reprodução)

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A coleção MASP Rhodia já foi exposta em 1971 e 1975, mas de forma incompleta ou com a autoria de várias peças indefinida. A mostra atualmente em cartaz é a mais completa e exigiu um grande esforço nas pesquisas para a catalogação confiável das peças (Reprodução)

Para entender esse feito, é necessário relembrar que bem no início dos anos 1960 a Rhodia – marca de origem francesa, presente no Brasil desde 1919 e até hoje um dos maiores conglomerados mundiais do setor químico, recentemente adquirido pelo grupo belga Solvay – estava muito preocupada em vender seu enorme catálogo de novas fibras sintéticas (em especial, o nylon) para as fábricas têxteis, as tecelagens e os confeccionistas brasileiros. Para isso, usou uma receita infalível: misturou tecnologia com moda, arte de vanguarda, publicidade, espetáculo, adicionando a tudo isso um forte senso de respeito à cultura e aos valores brasileiros.

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Garotas da Rhodia: a moda brasileira talvez nunca volte a ser tão colorida e desavergonhadamente brasileira como foi nas décadas de 1960-1970. Alguns críticos acreditam que o nacionalismo autoritário da ditadura militar (1964-1985) colaborou nessa mudança de paradigma (Reprodução)

Estes últimos fatores revelaram-se cruciais para a estratégia de seduzir e persuadir industriais, empresários, artistas, estilistas, costureiros, a mídia e – por fim – os consumidores a mudar o jeito de vestir enquanto também mudavam o olhar sobre o Brasil. Nesse trabalho de reformar hábitos arraigados, de introduzir inovações tecnológicas e de criar um novo imaginário comportamental, a Rhodia apelou para um verdadeiro “encantador de serpentes”, o publicitário italiano Livio Rangan.

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Bonito, charmoso, culto, visionário, genial, líder incansável e completamente apaixonado pelo Brasil. Não faltam superlativos nas memórias de todos aqueles que trabalharam ao lado de Livio Rangan (1933-1984), o italiano de Trieste, o maior fomentador de uma moda brasileira através dos míticos desfiles-espetáculos da Rhodia no Brasil e no exterior (Reprodução)

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Manecas da Rhodia embarcando nas asas da Panair: o projeto mercadológico e publicitário imaginado por Livio Rangan passava necessariamente pela internacionalização das fibras, dos tecidos e dos looks a partir do que era criado no Brasil. Depois de Carmen Miranda, um novo e atualizado brazilian style conquistava o mundo (Reprodução)

MILA MOREIRA: “APRENDI COM O LIVIO A AMAR ESTE PAÍS”
As coleções e os desfiles da Rhodia foram valorizados graças a um time de modelos especialmente treinado para atender ao novo conceito de desfile-espetáculo concebido por Livio Rangan. Mila Moreira conta o quanto essa época foi especial para a moda e as modelos neste emocionante testemunho.

Foi ele quem convidou quase todos os grandes artistas plásticos brasileiros atuantes durante os revolucionários e joviais anos 1960 para inseminar naqueles tecidos artificiais o DNA brasileiro, através de estampas que são, até hoje, verdadeiros marcos do nosso design. No campo do estilismo e do desenho de moda propriamente dito, Rangan convocou tanto os talentos emergentes de Norte a Sul do Brasil – sem restrições de origem social ou formação – como os “medalhões” do eixo Rio-São Paulo – Ugo Castellana, Clodovil Hernandes e Dener Pamplona. Uma vez concebidos os looks, chegava o momento de as coleções da Rhodia conquistar o Brasil e o mundo. Mas como embalar e apresentar um produto que não era apenas um pedaço de pano, mas sim a síntese depurada de toda uma cultura e de uma linguagem nacional que procurava se conectar com o mundo?

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Dener Pamplona (1937-1978), o mais célebre entre os estilistas pioneiros brasileiros, participou ativamente desse período de glória da moda e da indústria têxtil do Brasil. Em seu livro “Dener, o luxo” afirma que ajudou a Rhodia a “empurrar industriais” para o mundo da moda enquanto lançava “a linha colonial brasileira” que influenciou fortemente a decoração de interiores do período (Reprodução)

Nesse ponto, a estratégia de Rangan foi simplesmente genial: ele concebeu os famosos “desfiles-espetáculos”, coreografados como verdadeiras performances e inseridos no contexto de shows temáticos com cenografia de Cyro Del Nero, estrelados ou musicados pelos maiores nomes da MPB – em especial os da onda tropicalista que explodia no final dos anos 1960 – como Gilberto Gil, Tim Maia, Jorge Ben (hoje Jorge Benjor), Caetano Veloso, Tom Zé, Os Mutantes, além da insuperável geração de maestros e arranjadores formada por Júlio Medaglia, Rogério Duprat e Diego Pacheco, entre muitos outros.

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Praticamente quase todos os artistas da cena musical brasileira da época participaram dos desfiles-espetáculos da Rhodia, combinando talentos aparentemente díspares como a super urbana diva do tropicalismo Rita Lee e a dupla caipira Tonico e Tinoco, aqui reunidos para exaltar o Brasil e seus artistas (Reprodução)

Toda essa deliciosa, refinada e brasileiríssima feijoada fashion – preparada com profissionalismo e acabamento internacionais – não se esgotava nas excursões pelas principais capitais do Brasil e do mundo. Ela se transformava e se difundia em extensos e espetaculares editoriais de moda que enchiam de cores as páginas duplas de revistas com enormes tiragens como Manchete e Cláudia, clicados por magos da fotografia de moda como Otto Stupakoff (1935-2009).

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Livio Rangan estabeleceu um novo e antes impensável patamar de alianças entre a moda, a classe empresarial e a mídia brasileira. As grandes revistas do país não só estampavam anúncios pagos da Rhodia em páginas duplas, mas também transformavam os lançamentos da etiqueta em fabulosos editoriais de moda em que o Brasil era exaltado (Reprodução)

REGINA GUERREIRO: “A RHODIA REVOLUCIONOU O EDITORIAL DE MODA NO BRASIL”
A jornalista Regina Guerreiro confessa que quando começou a trabalhar com moda, em 1965, as primeiras palavras que ouviu foi “Rhodia” e “Fenit”. Nestes depoimentos, ela e o designer Attilio Baschera contam a contribuição revolucionária da empresa francesa sobre a forma de tratar editorialmente a moda.

Bem, tudo isso parece valer a atenção, após a intensa programação momesca e um pulo (não de Carnaval) até o MASP, antes que essas obras de arte em tecido retornem aos baús do museu. Vale também elevar por alguns segundos o pensamento para agradecer ao genial Pietro Maria Bardi que entendeu que por trás da origem industrial daquelas roupas também palpitava um sonho de país e o espírito de toda uma época.

DA ARTE AO ESTILO, ATRAVÉS DO TECIDO
A inovadora proposta das coleções da Rhodia de convocar os mais criativos artistas plásticos e estilistas do Brasil num só projeto que dessacraliza a arte enquanto requalifica o design de moda fica mais clara através destes dois artistas:
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O artista plástico carioca Ivan Serpa (1923-1973) criou a estampa que foi impressa sobre o Voal Rhodianyl, posteriormente trabalhado neste vestido longo reto do estilista Jorge Ferrá, na década de 1960 (Divulgação)

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“Bichos”, 1963, de Ivan Serpa: os mesmos traços contorcidos, dissolvidos e livres da estampa da Rhodia (Reprodução)

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O cearense Aldemir Martins (1922-2006) elaborou a estampa aplicada sobre o Bouclé Rhodosá, transformados num vestido curto trapézio de Jorge Ferrá, em 1966 (Divulgação)

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“Maria do sargento”, óleo sobre tela, 1969, de Aldemir Martins: o mesmo geometrismo sobre fundo verde do tecido de fibras da Rhodia (Divulgação)

Serviço:

Arte na moda: coleção MASP Rhodia

Av. Paulista, 1578, Cerqueira César, São Paulo

Até 14 de fevereiro.

Horários (inclusive nos dias de Carnaval):

De terça-feira a domingo, das 10h às 18h; às quintas-feiras, de 10h às 20h. Fecha às segundas-feiras.

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