* Por Flávio Di Cola, de Milão

Diante da inauguração em série da nova sede da Fundação Louis Vuitton (acesse aqui à nossa matéria) no Bois de Boulogne, Paris, em outubro de 2014; do novo Museu Whitney de Arte Americana em Manhattan, Nova York, em 1º de maio deste ano; e da Fundação Prada, na periferia sul de Milão, oito dias depois, temos que reconhecer que o filósofo Gilles Lipovetsky acerta na mosca quando deduz que a consagração contemporânea das marcas de luxo passa necessariamente pelo “desejo pós-moderno de reconciliar criação e permanência, moda e intemporalidade” através de gestos que “projetem uma aura imaterial” que as mantenham acima do ordinário e assim se transformem numa espécie quase divina de “oferenda que se faz a si próprio e aos outros”.

Entrada da Fundação Prada: a conversão de um espaço industrial em um ambiente pós-industrial fruto da Economia Criativa (Foto: Flávio Di Cola)

Entrada da Fundação Prada: a conversão de um espaço industrial em um ambiente pós-industrial fruto da Economia Criativa (Foto: Flávio Di Cola)

Sob a vegetação esconde-se um confuso emaranhado de ramais ferroviários abandonados: ao se instalar na periferia sul de Milão, a Fundação Prada restabeleceu o contato da cidade com suas próprias origens industriais (Foto: Flávio Di Cola]

Sob a vegetação esconde-se um confuso emaranhado de ramais ferroviários abandonados: ao se instalar na periferia sul de Milão, a Fundação Prada restabeleceu o contato da cidade com suas próprias origens industriais (Foto: Flávio Di Cola]

E um dos caminhos para atingir esse estágio é edificar “templos” que materializem o imaterial, agora traduzidos em fabulosos complexos expositivos – invariavelmente com ênfase na arte contemporânea, por que atualidade e juventude são tudo nesse negócio – em que a linguagem da estética é a única capacitada a apresentar para o público a visão do mundo dos novos deuses da criação – como Louis Vuitton ou Prada. Também é lícito incluir o novo Museu Whitney entre as marcas de luxo – não do segmento da moda, é claro – por que a ele está associado o nome da sua fundadora Gertrude Vanderbilt Whitney que por si só define a parcela mais culta e europeizada da alta elite do leste americano que ajudou a transformar Nova York na maravilhosa cidade-marca que é hoje, a Big Apple.

Entretanto, a iniciativa da Fundação Prada traz quatro particularidades em relação aos seus congêneres de Paris e Nova York, e que dialoga simpaticamente com estes tempos “politicamente corretos”. A primeira delas: enquanto a Fundação Louis Vuitton e o Museu Whitney marcam a sua presença através de projetos sofisticados e caríssimos de autoria de estrelas da “arquitetura-espetáculo” como Frank Gehry e Renzo Piano, respectivamente, erguidos em distritos chiquérrimos como Neuilly-sur-Seine e Manhattan, a Prada procurou se instalar num espaço degradado do tecido urbano milanês, bem ao lado de um desolado entroncamento ferroviário cercado de galpões do início do século 20, época em que a capital da Lombardia era uma das cidades mais industrializadas do planeta.

Segunda: ao requalificar inteiramente as instalações de uma antiga fábrica de bebidas erguida em 1910, apoiada na expertise italiana nas artes do restauro, a Prada não só está colaborando com a recuperação de uma região desprestigiada da metrópole, como simbolicamente está rendendo um tributo às bases industriais que tornaram possível colocar Milão entre as primeiras capitais mundiais da nova Economia Criativa que caracteriza a era pós-industrial, representada pelo design, pela moda e pela alta tecnologia.

Terceira: o completo reaproveitamento de uma fábrica desativada e que adotou o partido de manter intactos os seus grandes espaços funcionais e sua aparência crua original permitiu gerar uma área útil de 19.000m², dos quais mais da metade estão destinados exclusivamente a atividades nos campos da arte, literatura, cinema, música, filosofia e ciência. Quarta: esses números são responsáveis por um prazer adicional para os competitivos milaneses, pois a metragem da Fundação Prada ultrapassa largamente as das suas duas concorrentes em área expositiva.

A antiga cisterna da fábrica transformou-se num espaço perfeito para as intrigantes instalações da mostra permanente "Trittico", como Lost Love (2000), aquário habitado por uma poltrona ginecológica do britânico Damien Hirst (Foto: Flávio Di Cola)

A antiga cisterna da fábrica transformou-se num espaço perfeito para as intrigantes instalações da mostra permanente “Trittico”, como “Lost Love” (2000), aquário habitado por uma poltrona ginecológica do britânico Damien Hirst (Foto: Flávio Di Cola)

Percorra a fundação com o arquiteto Federico Pompignoli que explica como novos materiais – inclusive alguns de uso militar – e tecnologias de ponta tiveram que se adequar ao edifício pré-existente (Reprodução):

A filosofia mais utilitarista da Fundação Prada na forma de conceber sua nova sede permanente é visível desde o momento em que se divisa a modesta e discreta fachada da antiga destilaria, após 15 minutos de caminhada desde a estação de metrô mais próxima (consulte o serviço abaixo), ladeando longos muros de tijolos e antigas habitações operárias que fariam a alegria dos primeiros filmes neorrealistas italianos. Essa despretensão que recepciona o visitante (ou decepciona os mais afeitos a excessos) é totalmente coerente com o “tom político” pretendido pelo casal – matrimonialmente falando, inclusive – Miuccia Prada e Patrizio Bertelli – que está à frente da corporação Prada.

O casal colecionista mais célebre do mercado de luxo no dia inaugural da fundação, maio de 2015: Patrizio Bertelli, CEO das organizações Prada e Miuccia Prada, designer-chefe e neta do fundador da marca (Reprodução)

O casal colecionista mais célebre do mercado de luxo no dia inaugural da fundação, maio de 2015: Patrizio Bertelli, CEO das organizações Prada e Miuccia Prada, designer-chefe e neta do fundador da marca (Reprodução)

Será que essa pegada mais austera e intelectualizada seria um eco da formação e das experiências que ambos vivenciaram durante os conturbados e rebeldes anos 1960? Miuccia, por exemplo, passou da condição de típica herdeira do patriciado industrial milanês para a de “aristocomunista”, uma versão italiana da nossa ”esquerda-caviar”. Doutorou-se em Ciências Políticas, militou pelo finado PCI, o “partidão” comunista com forte dependência em relação a Moscou, participou de passeatas antissistema e assinou abaixo-assinados. Depois, resolveu fazer um curso de mímica no Piccolo Teatro de Milão, até se conformar com o seu destino de futura rainha do luxo mundial e de figurinista do próprio belzebu no filme O diabo veste Prada (2006) – Miranda Priestly, a intragável editora-chefe da revista de moda Runaway eternizada pela atriz Meryl Streep.

O Café Bar Luce foi desenhado pelo diretor de cinema Wes Anderson de "O Grande Hotel Budapeste". Para homenagear o design milanês do século passado, ele misturou seu peculiar toque feérico com motivos decorativos da Galeria Vítor Emanuel e a atmosfera dos cafés dos anos 1950 tais como aparecem em "Rocco e seus irmãos" de Visconti (Foto: Divulgação)

O Café Bar Luce foi desenhado pelo diretor de cinema Wes Anderson de “O Grande Hotel Budapeste”.
Para homenagear o design milanês do século passado, ele misturou seu peculiar toque feérico com motivos decorativos da Galeria Vítor Emanuel e a atmosfera dos cafés dos anos 1950 tais como aparecem em “Rocco e seus irmãos” de Visconti (Foto: Divulgação)

O toscano Patrizio Bertelli não ficou atrás: numa típica atitude sixtie, largou o curso de engenharia no meio para confeccionar bolsas e cintos de couro. Em 1978, imersos nessa atmosfera meio artística, meio fashion, Miuccia e Patrizio conheceram-se. Casaram-se quase dez anos depois, em 1987. Resultado: uma fortuna que, segundo a revista Forbes, chega hoje a quase quatro bilhões de dólares. Já os valores envolvidos no projeto institucional de Milão são desconhecidos, mas eles estão muito abaixo dos estimados US$ 143 milhões gastos no belíssimo prédio-escultura da Fundação Louis Vuitton. Mesmo assim, os recursos para a Fundação Prada tiveram que sair inteiramente dos fundos da própria corporação, sem contar com as fortunas pessoais de Miuccia e Patrizio, uma vez que não há benefícios fiscais previstos na legislação italiana para entidades desse tipo.

A Fundação Prada mantém um braço em Veneza desde 2011, num palácio do século 18 debruçado sobre o Gran Canale (Foto: Reprodução)

A Fundação Prada mantém um braço em Veneza desde 2011, num palácio do século 18 debruçado sobre o Gran Canale (Foto: Reprodução)

Depois dessas trajetórias de vida tão singulares do casal, talvez seja mesmo possível dar crédito à versão um tanto casual que Miuccia vem dando à imprensa sobre como brotou a ideia de uma sede definitiva para a Fundação Prada. Ao jornal The New York Times, por exemplo, ela declarou: “Depois de vinte anos organizando exposições em todo o mundo, meu marido virou e disse que já era tempo de fazermos algo permanente em Milão”. Simples assim. Como foi transformar uma velha destilaria em ruínas em mais um território sagrado de regeneração da vida pela arte e pelo luxo.

Uma das exposições inaugurais da fundação foi "Serial Classic", encerrada em agosto passado, que explorava a noção de originalidade, cópia e produção em série da arte clássica greco-romana (Foto: Flávio Di Cola)

Até parece que a Sapucaí invadiu a Fundação Prada, mas não: a mostra “Serial Classic” também trouxe reconstituições coloridinhas assim, como os romanos gostavam (Foto: Flávio Di Cola)

OS FANTASMAS DA CASA ASSOMBRADA
Mesmo um espaço pós-moderno como o da sede da Fundação Prada não consegue prescindir da presença de almas penadas, figuras obrigatórias nos museus mais tradicionais. Que tal uma visita à “Haunted  House”? 
 Serviço:

Fundação Prada Milão

Instalações permanentes: Robert Gober/Louise Bourgeois e Processo Grottesco

Mostras temporárias:

Até 1º de novembro de 2015: In Part

Até 10 de janeiro de 2016: Gianni Piacentino, An Introduction e Trittico

De 3 de dezembro de 2015 até 7 de fevereiro de 2016: Recto Verso

Via Largo Isarco, 2

Metrô: Linha 3, Estação Lodi T.I.B.B.

www.fondazioneprada.org

3 Responses

  1. Luiz Carlos

    Flávio, adorei a matéria ! Ao acabar de lê-la, vi como nós, tapuias, estamos a anos-luz de chegar a esse nível de refinamento intelectual e cultural dos europeus…
    Parabéns.
    Grande abraço.
    Luiz Carlos

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    • Flavio Di Cola

      E com a desindustrialização pela qual estão passando grandes metrópoles brasileiras como Rio de Janeiro e São Paulo, magníficos espaços abandonados não faltam para abrigar empreendimentos similares ao da Fundação Prada. Abraço, Flávio.

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