* Por Alexandre Schnabl e André Vagon

Em cartaz no Teatro Riachuelo Rio, Vamp, o musical é espetáculo com vocação para a vida eterna pronto para agradar às famílias de vivos e mortos, e que traz na direção geral a assinatura de Jorge Fernando, o que garante a diversão descompromissada. Merece volta e meia ser reencarnado nos palcos para pegar pela jugular novos públicos e vale rodar o Brasil, de preferência em caravanas-esquife. E, antes que alguém diga que a narrativa é bobinha, com enredo déjà vu que mescla chavões como o desejo de brilhar na ribalta, Teen Beach Movie e história de vampiros, por que não? Só porque é produção 100% nacional, dentro do objetivo da produtora Aventura Entretenimento de estabelecer um teatro musical brasileiro? Cá entre nós, quer coisa mais bocó do que a premissa de Cats“, emblema máximo da Broadway nos anos 1980, o que não lhe tira o valor? Qual o problema?

Com Ney Latorraca como chamariz, “Vamp, o musical” faz parte da proposta da Aventura Entretenimento de estabelecer uma dramaturgia musical brasileira. A novidade é que, ao invés de procurar recriar nos palcos a trajetória de grandes mito da MPB, a nova realização da produtora recicla uma antigo sucesso da TV (Foto: Divulgação)

Tudo bem, a trama de “Vamp” é pueril, mais Sessão da Tarde impossível! E a mão firme de Jorginho pode às vezes ser piegas, sim. Muito piegas, aliás. Mas, isso não é defeito, é característica que ganha respaldo na excelente qualidade de produção, ampliando plateia e esbarrando com louvor em arquétipos da produção audiovisual, seja o cinemão, a televisão ou os videoclipes. Com timing certo, a peça diverte, e quem vai ao teatro assistir a esse tipo de realização quer antes de mais nada lavar a égua, e não refletir sobre Nietzsche.

Bom, claro, é importante lembrar: o musical é adaptação nos palcos, com concepção de Jorge Fernando e direção de Diego Morais, de uma badalada novela das sete global que fez sucesso na virada dos anos noventa dirigida pelo mesmo diretor e protagonizada pelos mesmos mocinha e vilão de agora, a pop star vertida em vampiresa Natasha (Claudia Ohana) e o seu algoz (e aquele que hoje seria chamado de crush), o sanguessuga milenar Vlad Polansk (Ney Latorraca).

Boa química: como a cantora que topou se tornar vampiresa para atingir a fama e um vampiro milenar que tem obsessão pela sua cria, Claudia Ohana e Ney Latorraca protagonizaram na TV um dos maiores sucessos da Era Collor, marcada pela abertura do Brasil para a economia global, e as noviidades da televisão a cabo e da telefonia celular, que ainda engatinhavam por aqui (Foto: Reprodução)

Escrita por Antonio Calmon, que vinha de um outro sucesso das 19h da qual deriva – Top Model(1989) –, “Vamp” introduzia na telinha o frescor (e o clamor!) das novas gerações que começavam a ouvir Skank e ensaiavam uma ainda tímida postura política que resultaria em breve num impeachment. O comportamento dessa moçada viria a ser emanado pela televisão da mesma forma com que o besteirol new wave dos anos 1980 desembocou em programas como Armação Ilimitada” e TV Pirata“.

O diretor Jorge Fernando (à esq.) celebra a presença de Ney Latorraca na montagem musical de “Vamp”, sem dúvida um dos trunfos da peça (Foto: Divulgação)

Especialista em funcionar como uma antena que capta a essência da turma jovem, Calmon já havia feito o mesmo pelo cinema nacional em obras como Menino do Rio (1982), Aventuras de um Paraíba (1982) Garota Dourada (1984), algumas com Ohana no elenco. Isso lhe renderia o passaporte para a Globo, e o sucesso de “Top Model” se misturou às ótimas críticas de uma outra novela, Que rei sou eu? (1989), permitindo “Vamp”.

Ohana contracena com o mocinho André De Biase em “Menino do Rio”, longa-metragem de Antonio Calmon que introduziu os anseios de uma nova geração no cinema nacional dos anos 1980 (Foto: Reprodução)

Escrita por Cassiano Gabus Mendes e dirigida por Jorge Fernando, a fantasia barroca “Que rei sou eu?” brincava com um Brasil às vésperas da primeira eleição direta presidencial após quase 30 anos, versando com humor sobre temas como corrupção, autoritarismo e nepotismo numa trama farsesca ambientada num país fictício do Antigo Regime que era a cara de Brasília. Seu ótimo ibope revelou aos executivos da emissora que estava definitivamente aberta a trilha para o desenvolvimento de narrativas fantasiosas escapistas, desde que fossem comédias que refletissem de alguma forma a realidade do público, sepultando a máxima de que os telespectadores só queriam assistir a novelas realistas que reproduziam ipsis literis o seu dia a dia. Balela. Isso já não era mais fato e estava traçado o percurso para que “Vamp” fosse realizada.

Realeza corrupta em “Que rei sou eu?”: no reino de Avilan, as maracutaias para enganar o povo eram encenadas diariamente na corte. Atores como Claudia Abreu, Tato Gabus, Antonio Abujamra, Tereza Rachel e Mila Moreira fizeram parte dessa produção que revolucionou a teledramaturgia da Globo, reinserindo a ludicidade nas narrativas (Foto: Reprodução)

Para entender o sucesso que “Vamp” fez na televisão na virada de 1991/92 e o porquê de ela ser escolhida para virar musical agora, é importante vislumbrar o momento histórico no qual ela se insere: o Brasil havia passado há pouco tempo pela tal primeira eleição direta que pôs Fernando Collor no Palácio do Planalto e os desmandos do outrora dito “caçador de marajás” já estavam virando escândalo na mídia, assim como a petralhada de hoje. Naquela época, os estudantes logo protestariam nas ruas contra o governo corrupto, e seriam chamados de “caras-pintadas”. E, como agora, os ânimos não estavam nada bem, após Collor e sua Ministra da Fazenda Zélia Cardoso de Mello haverem limpado o bolso do povo através de um “empréstimo compulsório” que secou até as contas-poupança de quem lutava arduamente pelo pão de cada dia. Nada muito diferente de um vampiro que suga as artérias da vítima até a última gota de sangue.

Assim, “Vamp” prenunciou na ficção juvenil televisiva aquilo que em pouco tempo começaria a pipocar como uma espécie de caça aos vampiros do Governo – na mídia, na política e numa sociedade pronta para desmantelar a tal “República de Alagoas” instaurada pelo presidente-galã. Se o sucesso de “Que rei sou eu?” corroborava com os desígnios de representar Collor como uma nova brisa no cenário político de então, a ponto de ele virar presidente, “Vamp” coincidiu com o início do seu ocaso.

Confira abaixo a abertura de “Vamp”, a novela global de 1991 (Reprodução): 

Dramaturgicamente falando, Antonio Calmon ainda foi hábil ao inserir em “Vamp” pitadas de Garotos Perdidos” (The Lost Boys, 1987), tremendo sucesso juvenil de Hollywood que aproximava os vampiros de motoqueiros e da juventude dourada praiana da Califórnia, num crossover que deu o que falar. Assim como Jorge Fernando, o autor é bamba na hora de explorar códigos cinematográficos nas suas narrativas e, na salada da novela, ainda criou o casal Capitão Jonas e Carmen Maura com suas respectivas proles de casamentos anteriores – argumento recorrente nas telas em produções como Os meus, os seus, os nossos (1968) e Doze é demais (2003). Prato cheio para apresentar aos expectadores uma amplitude de tipinhos.

Garotos Perdidos”: longa adolescente que misturou terror e libido – e ainda introduziu ao público um Kiefer Sutherland (ao centro) novato e hoje célebre como o agente Jack Bauer de “24 Horas” – a produção capitaneada por Joel Schumacher foi inspiração para “Vamp” (Foto: Reprodução)

Diante disso, só cabe à “Vamp, o musical” reciclar tudo isso, sob o risco de perder a essência. Sob esse aspecto, a produção cumpre sua função, ainda que todo o subtexto político que havia de raspão agora não faça o menor sentido. Bem verdade que novos valores poderiam vir a ser incluídos para agradar aos xiitas que querem ver razão em tudo, mas, cá entre nós, para quê? Melhor gastar energia reciclando aquilo que é atemporal.

Na montagem no palco, Claudia Ohana prova que os mortos-vivos podem existir de verdade: hoje madura, ela continua tão deslumbrante quanto na época da novela – seu auge na TV, vindo do cinema, de Tieta“, Rainha da Sucata e da capa da Playboy. Belíssima, sexy, talentosa, com o corpitcho que Deus lhe deu e a afinação que ainda impressiona, a atriz é mais magnética que nunca aos 54 anos, conseguindo hipnotizar a plateia como um Bela Lugosi de saias.

Vamp fatal: em cena ao lado de Ney Latorraca, Claudia Ohana bisa na maturidade um de seus papeis mais famosos na TV, vivido há mais de 25 anos. No frigir dos ovos, em muitos aspectos ela consegue estar melhor ainda hoje em dia… (Foto: Divulgação)

Dominando a peça como o vampiro mór, Ney Latorraca se diverte sendo ele mesmo, inserindo cacos e incorporando, através da caracterização mais physique du rôle, quatro em um: além de Vlad, ele consegue a proeza visual de ser também Karl Lagerfeld, a temida crítica de teatro Barbara Heliodora e até Jessica Tandy em Conduzindo Miss Daisy (1989). Loucura.

Aos 72 anos e um veterano da TV, Ney Latorraca se dá ao direito de ser aquilo que mais gosta, na hora de participar de uma produção leve como “Vamp”: viver ele mesmo como um bom leonino, sem deixar de interpretar intensamente o personagem que lhe foi cabido. No final, o público adora! (Foto: Divulgação)

Com cabelos brancos, rabo de cavalo e visual gótico, o Ney Latorraca de “Vamp, o musical” acaba sem querer emulando na aparência, talvez sem querer, outras criaturas tão vampirescas quanto o personagem vivido pelo próprio ator: o kaiser da moda Karl Lagerfeld,… (Foto: Reprodução)

… a respeitada e vetusta veterana do cinema Jessica Tandy, premiada com um Oscar na velhice por “Conduzindo Miss Daisy” (1989)… (Foto: Reprodução)

… e até a implacável crítica teatral Bárbara Heliodora, gênio das resenhas, temida pelos encenadores e morta em 2015 (Foto: Reprodução)

Integrante de uma geração que se fez no boom do teatro musical brasileiro sem precisar da TV para se firmar, a veterana Claudia Netto dispensa apresentações. Sua trajetória ao lado de Claudio Botelho se confunde com o estabelecimento desse tipo de realização como ponta de lança do teatro brasileiro atual. No papel de uma matriarca das trevas, ela engole cada cena numa personagem que não existia na TV, com seus timbres vocais capazes de penetrar a intransponível peruca-carapaça criada com base na do vampiro vivido por Gary Oldman em Drácula de Bram Stoker” (1992).

Da esquerda para a direita, o trio midiático que dá cabo com louvor de “Vamp, o musical”: Claudia Ohana, Ney Latorraca e Claudia Netto, cuja personagem é valiosa aquisição ao texto (Foto: Divulgação)

A peruca concebida pelo visagista Martín Macias para Claudia Netto em “Vamp, o musical” pega carona na caracterização de Gary Oldman para o Conde Drácula na produção dirigida e produzida por Francis Ford Coppola em 1992. Com um detalhe: em função da atmosfera de blague do roteiro, o resultado que já era over fica mais alguns decibéis acima na cabeça da exuberante estrela dos palcos (Foto: Reprodução)

Erika Riba impressiona pela ótima projeção de voz e Luciano Andrey tem carisma, com o casal funcionando bem junto em cena.  Ele poderia ter sido mais aproveitado na hora de cantar.

Contraponto solar: a família de Carmen Maura (Erika Riba, penúltima à esquerda) e do Capitão Jonas (Luciano Andrey, à esq.) faz a devida oposição à atmosfera cômico-soturna do grupo dos vampiros em “Vamp, o musical”. Jovem ator que costuma emendar um espetáculo atrás do outro – de “Cazuza, o musical” a “Godspell” e “Mulheres à beira de um ataque de nervos” -, Oscar Fabião encontra nesta nova produção da Aventura a chance de mostrar com destaque o seu talento. Em cena, ele atua bem, canta bem e é vigoroso nos números de dança (Foto: Divulgação)

Tão patéticos e gulosos quanto a classe política brasileira: na “Vamp” da TV, o clã dos vampiros atrapalhados composto por Octavio Augusto, Patrycia Travassos, Ney Latorraca, Guilherme Leme e Flávio Silvino (da esq. para a dir.) foram trunfo para que a fantasia vampiresca renovasse a teledramaturgia e abrisse, dez anos depois, caminho para outra novela da sete com o mesmo tema – “O beijo do vampiro” (Foto: Reprodução)

Como outro dupla, os vampiros kitsch que viraram coqueluche na TV sob as peles de Octavio Augusto e Patrycia Travassos, Osvaldo Mil (Matoso) e Livia Dabarian (Mary Matoso) têm boa voz e ótima presença cênica, mas poderiam limpar aqueles excessos que não são exigidos pelo burlesco dos personagens. De qualquer forma, ficou bacana a levada latino-cafona que eles inseriram na montagem. Como a caça-vampiros Alice Penn Taylor, Evelyn Castro é outra que se depara com o caráter ingênuo da produção e, assim como os Matoso, seu personagem resvala no teatro infantil, mas ela suplanta a questão soltando o gogó. Os três cumprem bem a função de criar empatia entre o enorme público de velhinhas e também de crianças, possivelmente ajudando a formar nova plateia.

Em papel que poderia perfeitamente funcionar numa comédia-pastelão de Blake Edwards, Evelyn Castro interpreta a caça-vampiros que foi vivida na TV por Vera Holtz. Numa peça com tanto apelo infanto-juvenil, é a atriz, junto com Latorraca e os pombinhos vampiros cafonas Matoso, quem estabelece uma ponte entre o público jovem e a realização (Foto: Divulgação)

Veterana das telas nos anos 1960, a britânica Ethel Griffies (ao centro) interpreta a ornitóloga numa cena emblemática do terror “Os Pássaros” (1962), de Alfred Hitchcock. Seu visual pode ter sido fonte para o figurino masculinizado da caça-vampiros de “Vamp, o musical” (Foto: Reprodução)

Ainda no elenco, Oscar Fabião não se prende ao fato de lembrar fisicamente um Fábio Assunção novinho, então o galãzinho da novela, e cai com garra no papel. Bom vê-lo crescer em espetáculo após espetáculo e começar a ganhar destaque em papeis principais. Outro que não se prende a seu belo físico, com o gogó em puro êxtase, é Thadeu Matos como o bad boy Matosão, e, no papel de Matosinho, Xande Valois sai na frente entre os talentos infantis. Se dividindo em vários papeis, Renan Mattos mostra versatilidade e merece menção, assim como as louras Lana Rhodes e Mariana Gallindo, que abrilhantam qualquer montagem, mesmo em pequenos papeis.

De Fábio a Fabião: Claudia Ohana, Oscar Fabião e Ney Latorraca encarnam no palco o triângulo amoroso de “Vamp, o musical”, que na TV foi vivido pelos dois veteranos e um Fábio Assunção garotão, então com apenas 20 anos e em seu segundo sucesso na telinha após surgir em “Meu bem, meu mal” (Foto: Divulgação)

Ao lado da ótima direção musical de Tony Lucchesi, as coreografias de Alonso Barros são competentíssimas, e ele continua sendo boa pedida na hora de engrossar a ficha técnica dos musicais. Sempre influenciado por Bob Fosse, ele manda ver na abertura com aranhas, sublinhada por Noite Preta“, tema da novela que levou a compositora Vange Leonel (1963-2014) ao estrelato. Esse número de impacto consegue ser uma mescla da cena da morte de All Tha Jazzcom uma pitada da introdução de O Rei Leão. Uma delícia, assim como a outra coreô que evoca Thriller“, que também fez parte da obra televisiva.

Em “Vamp, o musical”, é deliciosa a cena em que Vlad (Ney Latorraca) convoca os mortos num cemitério ao som do maior sucesso de Michael Jackson. Esse número também existiu na novela, então foi coreografado por Caio Nunes (Foto: Divulgação)

Também responsável pelo figurino da novela, o eficaz Lessa de Lacerda quase sempre  acerta nos modelitos, sobretudo os de época. E os que versam pelo clima de “turma da praia” são um primor, bebendo tanto da fonte dos musicais adolescentes da Disney (tipo High School Musical“) quanto daquela levada que ficou para a história em clássicos estrelados por Frankie Avalon e Annette Funicello nos sixties. Delicinha a cartela de cores. O único senão mesmo é o visual de Ohana: os looks nem sempre são bonitos, mas dão conta do recado.

Já o visagismo de Martín Macias vem provando aos poucos que ele é um dos grandes em ação atualmente, seguindo os passos de ícones da maquiagem como Vavá Torres e Marlene Moura.

Lentes de contato brancas, próteses de caninos e perucas ótimas compõem um dos pontos altos de “Vamp, o musical”: a caracterização. Nafoto da esquerda para a direita, Pedro Henrique Lopes, Thadeu Matos, Claudia Netto, Livia Dabarian e Osvaldo Mil se esbaldam nos personagens (Foto: Divulgação)

Para fechar, é destaque a cenografia de José Claudio Ferreira, outro que veio da ficha técnica original na TV. Feérica, com ótima contrarregragem cênica, combinada com projeções e recheada de bons efeitos a cargo da Inside FX, ela colabora tão bem com a encenação que já garante o programa.

* Crítico de espetáculos musicais, André Vagon iniciou a carreira como bailarino e fez um pouco de tudo: jazz, dança contemporânea, musical de teatro, companhias de balé, festas temáticas, atrações infantis na TV como “TV Colosso”, programa da Xuxa e até especiais tipo “Criança Esperança”. Com o tempo, se tornou coreógrafo e dedica parte do seu tempo a montar performances para eventos corporativos e a lecionar dança, sendo pós-graduado em psicomotricidade, assunto que lhe tira faísca dos olhos. Para ele, a vida é puro movimento.

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